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Segredos privilegiados
"Pelo visto, o controle da corrupção
continua reservado aos portadores
de distúrbios afetivos"
Ilustração: Elisabeth Tognato
O
Banco Central merece todas as pragas que a CPI lançar contra suas vidraças.
Se os parlamentares não encontrarem melhores motivos para atazaná-lo,
que seja pela privatização de fundos do Banco do Pará no primeiro governo
Jader Barbalho. Há mais de oito anos, fiscais do BC apuraram que o dinheiro
saiu do banco do Estado, converteu-se em títulos ao portador numa agência
do Itaú no Rio de Janeiro e derramou os resultados da aplicação em renda
fixa na conta 96.650-4, aberta em nome de Barbalho. Despachado para Belém,
o dossiê descansou até agora no Ministério Público, quando um procurador
se lembrou dele. Nesse intervalo, Barbalho governou pela segunda vez o
Pará e passou à liderança do PMDB no Senado, onde acaba de emplacar a
CPI dos Bancos.
Pode parecer à primeira vista que, nesse caso, a fiscalização do Banco
Central funcionou; negligente foi o Ministério Público. Aliás, enquanto
presidiu o BC, o economista Gustavo Franco carregou na ponta da língua
o inventário das irregularidades que, flagradas por seus olheiros, somem
no labirinto da República. Nesse caso, os fiscais do sistema financeiro
cumprem uma simples formalidade e não têm escolha senão engolir a sentença
do senador Barbalho, propondo a CPI: "O que desmoraliza o país é
o acúmulo de denúncias não apuradas". E ele sabe o que está dizendo.
O fracasso dos instrumentos regulares de controle da corrupção gerou
na vida pública brasileira uma nova patologia. O presidente Fernando Collor
só caiu porque um acesso de ressentimento pessoal levou um irmão a denunciá-lo.
A máfia do Orçamento foi enxotada do Congresso pela inconfidência do funcionário
José Carlos Alves dos Santos, um tipo funesto que, além de assessorar
os deputados no assalto ao Erário, encomendou a pistoleiros a morte de
sua mulher. O vereador Vicente Viscome foi qualificado como chefe da quadrilha
que extorquia dinheiro de camelôs e comerciantes na Zona Leste de São
Paulo pelo depoimento de sua assessora Tânia de Paula, que o namorava.
Depois de enterrar 263 milhões de reais no esqueleto de uma sede para
o Tribunal Regional do Trabalho, o enriquecimento ilícito do juiz Nicolau
dos Santos Neto só revelou o esplendor de sua voracidade ostentatória
pela pirraça do ex-genro Marco Aurélio Gil de Oliveira. Com eles, consagrou-se
o método de atacar a corrupção pelas costas.
Não está fácil dispensá-los. Na segunda-feira foi a Brasília testemunhar
o banqueiro Luiz Cezar Fernandes. Levou do Rio de Janeiro a suspeita de
que, empalmado pelos sócios, seu próprio banco de investimentos, o Pactual,
comprara segredos do BC. Mas, à comissão de fiscalização, Luiz Cezar negou
tudo. Pelo visto, o panteão dos heróis nacionais do saneamento administrativo
continua reservado aos portadores de distúrbios afetivos.
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