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ideal iluminista de torná-lo
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William Manning/Corbis/Latinstock![]() |
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DO SABER Biblioteca Pública de Nova York: bem mais do que um depósito de livros |
Desculpe
se o que estou dizendo parece cheio de santimônia", diz o historiador
americano Robert Darnton, 71 anos, depois de uma apaixonada defesa da atualidade
do livro em papel. Ao longo de sua entrevista a VEJA (veja o quadro abaixo), Darnton esboçou várias desculpas do mesmo teor: seu
tom estaria muito sentencioso, ou até mesmo pio, como o de um pregador
religioso. É compreensível. Darnton é uma autoridade na história
do livro, autor de O Iluminismo como Negócio e Edição
e Sedição, entre outros estudos fundamentais sobre o mercado
livreiro na França do século XVIII e sua relação
com o explosivo contexto político que culminaria na Revolução
de 1789. O objeto de seus estudos propicia o tom elevado: veículo de vários
textos sagrados, o livro é também o centro de um certo culto laico,
celebrado em bibliotecas como a da Universidade Harvard, da qual Darnton é
diretor. Mas o historiador não se vale dessas metáforas religiosas:
nos termos do Iluminismo do século XVIII, ele prefere falar na República
das Letras um país desprovido de fronteiras, no qual todos, leitores
e autores, poderiam discutir e trocar ideias sem censura ou restrições.
A internet, com sua capacidade inaudita de divulgar textos e imagens, tem, sem
dúvida, o potencial de expandir essa república virtual e
Darnton examina essas possibilidades ao mesmo tempo com entusiasmo e ponderação
em A Questão dos Livros (tradução de Daniel
Pellizzari; Companhia das Letras; 232 páginas; 42,50 reais), coletânea
de ensaios recém-lançada no Brasil.
"Este
é um livro sobre livros, uma apologia descarada em favor da palavra impressa
e seu passado, presente e futuro", anuncia a introdução da
obra. Consumado rato de arquivos (em um dos ensaios, ele relata a experiência
de ler, na íntegra, o arquivo de 50 000 cartas referentes aos negócios
de uma editora franco-suíça do século XVIII), Darnton é
amante do papel, do prazer visual e tátil que se extrai do contato com
um livro (em particular, com obras antigas e raras). Ele aposta na sobrevivência
do códice, o formato de livro que surgiu em torno do século III
com páginas que são viradas, e não desenroladas, como
nos rolos de pergaminho que até então conservavam a palavra escrita
e alcançou um público leitor cada vez maior a partir da invenção
da imprensa, na década de 1450. Será simplista, argumenta ele, imaginar
que uma nova tecnologia vai substituir completamente e de imediato formas mais
antigas. A televisão não acabou com o rádio, e nem o YouTube
acabou com a TV. O livro em papel, portanto, deverá conviver muito tempo
com leitores eletrônicos como o Kindle e o iPad.
Os formatos eletrônicos, porém, configuram um desafio para os bibliotecários, que terão de desenvolver novos métodos e protocolos para conservar o conhecimento em forma digital. "Os arquivos digitais são compostos de números binários, que se corrompem e degradam. E a tecnologia avança rapidamente. Muitos formatos de arquivo se tornam obsoletos e difíceis de acessar em um prazo de poucos anos", alerta Darnton. Outro grande esforço exigido das bibliotecas o de tornar seus acervos acessíveis on-line esbarra em problemas não só tecnológicos, mas também legais. A Questão dos Livros faz um exame crítico do ambicioso projeto do Google para digitalizar as obras de algumas das maiores bibliotecas universitárias do mundo, inclusive a de Harvard. O Google Book Search foi contestado por associações americanas de autores e editores, que reclamavam o respeito aos direitos autorais das obras digitalizadas que ainda não se encontram em domínio público. O entrave foi contornado, em 2008, por um acordo entre o Google e essas associações o qual, no entanto, ainda depende de aprovação judicial. Darnton observa que o acordo, por sua extensão, tornaria o Google Book Search imune à concorrência. O próprio Departamento de Justiça americano já contestou a iniciativa, por seu caráter monopolista.
O Google Book Search é o tópico mais "momentoso" de A Questão dos Livros. Mas a coletânea não se esgota aí: é rica em digressões saborosas sobre as diferentes edições de Shakespeare ou as leituras de Thomas Jefferson. Darnton é, sobretudo, um historiador, um homem que oferece perspectivas amplas para seus temas. E seu assunto central exige isso mesmo: não há objeto mais amplo do que o livro.
Uma missão civilizadoraO historiador Robert Darnton falou
a VEJA sobre o papel das bibliotecas
E
a biblioteca de bairro ou de cidade pequena ainda cumpre a mesma função
para o leitor comum? O
senhor é um crítico do Google Book Search, projeto que pretende
digitalizar o acervo de grandes bibliotecas inclusive a de Harvard
e oferecer acesso aos livros na internet. Por quê? |