Maílson da Nóbrega
Quem descobriu o Brasil?
Lula ou Cabral?
"A
história reconhecerá Lula pelas corajosas decisões
de
preservar a política econômica que condenava e
de não
buscar o terceiro mandato"
Os menos avisados que escutam Lula podem pensar
que fomos descobertos em 2003, e não em 1500. Seus discursos buscam deslustrar
seus antecessores e propagandear o que entende como seus feitos. Não exagera
a ponto de reivindicar a glória do descobrimento, mas chega perto. Diz
que mudou o Brasil.
Lula se gaba de ser o autor das boas transformações
do país. É o que disse na Bahia, em março passado: "Este
país começou a mudar, e isso incomoda muita gente". Bajuladores
não faltam, como o que lhe atribuiu o epíteto de "nosso guia".
No lançamento do PAC 2, Jaques Wagner, governador da
Bahia, disse que "Lula está refundando o Brasil". Para a então
ministra Dilma Rousseff, "este é o Brasil que o senhor, presidente
Lula, recuperou para nós e que os brasileiros não deixarão
escapar de suas mãos". Adulado e popular, Lula se imagina o marco
zero.
Mudanças como essas não acontecem em curto
prazo. A Europa começou a emergir no século XV suplantando
a China e o mundo islâmico, até então centros de inovação
e poder , mas o processo de sua ascensão se iniciara muito antes,
com destaque para a Carta Magna inglesa (1215) e para o Renascimento, que começou
no fim do século XIII.
Antes, mudanças ocorreram
em áreas cruciais: cultura, sociedade, economia, política e religião.
Copérnico, Vesálio e Galileu criaram a ciência moderna, abrindo
caminho para o avanço tecnológico. Gutenberg revolucionou a imprensa.
Depois, a reforma protestante de Lutero (século XVI) e a Revolução
Gloriosa inglesa (1688) se tornaram fonte do moderno sistema capitalista e do
predomínio econômico e militar do Ocidente.
Indivíduos
à frente de seu tempo contribuíram para mudanças ciclópicas.
Entre 1776 e 1787, os pais fundadores da nação americana
os que participaram da Declaração de Independência, da Revolução
ou da elaboração da Constituição moldaram os
princípios formadores dos alicerces sobre os quais se erigiria seu grande
futuro.
Felipe González, o governante socialista espanhol
(1982-1996), abandonou velhas ideias e conduziu reformas estruturais, incluindo
ampla privatização. Preparou seu país para a integração
europeia e para longo ciclo de crescimento. Margaret Thatcher reverteu a trajetória
de declínio da Inglaterra. Ronald Reagan renovou o capitalismo americano.
O Brasil tem seus líderes transformadores. Entre outros,
José Bonifácio, Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. No
período militar, sobressaem Ulysses Guimarães e Tancredo Neves,
este em grande parte responsável pelo fim pacífico do autoritarismo.
Ao proclamar-se o início de tudo, o presidente presta
um mau serviço à história e aos brasileiros que gostam de
ouvi-lo. Despreza o papel de Tancredo Neves na transição para a
democracia, sem a qual não teria chegado ao poder. Obscurece a participação
de Fernando Henrique Cardoso na construção da plataforma de lançamento
da qual decolou.
Lula gostaria de ser lembrado como um Getúlio
ou um Juscelino, mas creio que a história a quem cabe apontar o
lugar dos atores políticos o reconhecerá pelas corajosas
decisões de preservar a política econômica que condenava
e de não buscar o terceiro mandato. Evitou, assim, o retorno da
inflação e o abalo das instituições políticas,
que precisam de tempo para se consolidar.
A continuidade deu
tempo para o amadurecimento de mudanças anteriores. Permitiu-nos colher
frutos da expansão da economia mundial e da emergência da China,
hoje forte demandante de nossas commodities. Crescemos acima da média dos
últimos 25 anos. As exportações triplicaram. Com estabilidade,
crescimento e baixa inflação, foi possível alargar políticas
sociais e assim reduzir as desigualdades sociais e a pobreza.
Lula
é um líder de massas sem paralelo na América Latina. Politicamente
populista, não foi desastrado na economia, embora deixe más heranças,
como o aparelhamento do estado, a piora da qualidade do regime fiscal e os efeitos
da inconsequente política externa.
Lula não
descobriu o Brasil nem foi um líder transformador, mas não fez o
estrago que se temia. Não é pouco. Não precisava, todavia,
desconstruir as realizações do passado para marcar seu lugar na
história, que parece garantido.
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