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presidente do PT diz que cabe aos profissionais criar
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Cristiano Mariz![]() |
"Acho errado produzir uma Dilma artificial. O problema são
as inevitáveis comparações com o Lula" |
José Eduardo Dutra assumiu a presidência
do PT há quase três meses com a missão de coordenar a campanha
presidencial de Dilma Rousseff. Missão difícil, como ele mesmo define.
Dilma jamais disputou uma eleição, e essa inexperiência tem
provocado entre os próprios petistas muitas indagações neste
início de campanha. Para contornar os problemas, Dutra conta como poderoso
trunfo a popularidade recorde do presidente Lula e sua influência dominadora
sobre o partido. Mas esse trunfo também é motivo de preocupação
diante da constatação de que Lula talvez seja praticamente o único
patrimônio ponderável do partido e de sua candidata. Questionado
sobre qual marca Dilma deve buscar para não ser apenas um subproduto de
Lula, Dutra pensa, coça a cabeça, olha para o chão e responde:
"É difícil!".
O ex-governador José
Serra propõe fazer mais, acelerar os avanços, e a ex-ministra
Dilma Rousseff adota um discurso agressivo. A campanha presidencial não
começou com os papéis invertidos?
Nós, dirigentes do PT, não temos adotado nenhuma postura agressiva em relação
ao candidato
José Serra. As principais lideranças da oposição
é que estão muito agressivas. Vêm tentando desqualificar a
Dilma. É só ver as entrevistas do presidente do PSDB. Por outro
lado, a oposição descrevia o governo Lula há até pouco
tempo como uma tragédia para o Brasil. Como estava trombando com a
realidade, seu candidato tenta agora atenuar esse discurso beligerante dizendo
que vai continuar o que é bom e corrigir o que está ruim. Se o governo está tão bom, se deve ser tão elogiado,
por que mudar, por que eleger alguém da oposição?
Vamos
eleger alguém do governo que assumidamente é a continuidade
desse projeto.
A campanha tende a ser agressiva e com baixaria?
Espero que não, mas vamos dançar de acordo com a música.
O que me preocupa é a postura
das principais lideranças do
PSDB, do DEM, do PPS contra a Dilma. É uma postura agressiva,
desqualificadora, preconceituosa, atrasada. E isso acaba contaminando a militância.
Quando um dirigente partidário chama a Dilma de terrorista, dá margem à militância e ao pessoal de baixo para radicalizar ainda
mais. Nosso site já foi invadido. É claro que não foi
a mando da direção do PSDB. Mas foi invadido por pessoas no mínimo
simpatizantes do partido. Vamos lembrar que, em 2006, na reta final da campanha,
uma eleitora do Alckmin arrancou o dedo de uma eleitora do Lula em um bar
no Leblon. Preocupa-me as coisas já estarem tão acirradas, porque
isso pode levar a um ponto em que você não tem mais controle.
O
PT acredita mesmo em uma conspiração da imprensa contra a ex-ministra
Dilma Rousseff a ponto de fazer propaganda subliminar?
Há uma profunda
má vontade de setores da imprensa contra a Dilma. Existem articulistas
que transformaram suas colunas em libelos contra a nossa candidatura. Mas há
uma coisa da qual a gente não pode fugir: a Globo está fazendo
45 anos, e 45 é o número do PSDB. Quando vi a propaganda, naturalmente
me veio uma associação entre a campanha da Globo e a do Serra
que a própria Globo acabou admitindo, tanto é que tirou a campanha
do ar para evitar maiores polêmicas. Não acho que tenha havido uma
associação intencional. Com relação à
imprensa, da mesma forma que somos criticados, queremos ter o direito de responder
a manifestações que considerarmos preconceituosas, que nos ataquem
ou sejam inadmissíveis do ponto de vista de uma relação civilizada. Não vamos fazer nenhuma ação contra a imprensa
em geral, mas vamos responder aos ataques que recebermos.
Políticos
têm dito que as novas regras eleitorais, como o fim da doação
oculta, tornam o caixa dois quase obrigatório.
Não acho que as novas
regras vão incentivar ou diminuir o caixa dois. Acho, inclusive, que
não haverá caixa dois nas eleições presidenciais. As ações do Ministério Público e da Polícia
Federal estão inibindo o caixa dois. Então, as empresas e os candidatos
vão pensar cinco vezes antes de operar doações por fora. Eu posso garantir que na nossa campanha presidencial receberemos todas as
doações absolutamente dentro da lei. A tesouraria do PT estima que
a campanha presidencial custará entre 150 milhões e 200 milhões
de reais. Ainda não tenho elementos para aferir se é isso mesmo.
Até
o episódio do mensalão, o PT se escorava no discurso da ética
e do combate à corrupção. Hoje não se viu ainda a
ex-ministra Dilma tocar nesse assunto.
O mensalão foi uma grife que pegou
como toda grife. Mas o mensalão, nos termos em que foi denunciado pela
Procuradoria-Geral da República, não houve. Por que cargas-dágua
o ex-deputado Roberto Brant (DEM) recebeu dinheiro lá no Banco Rural se
ele nunca votou com o governo? Por que o Professor Luizinho, que era líder
do governo, receberia 20 000 para votar? Por que o João Paulo Cunha,
que era presidente da Câmara e nunca votava, iria receber dinheiro?
Por
quê?
Era caixa dois. É público e notório. O que houve
foi crime eleitoral. Não estou atenuando, não estou tirando a gravidade
de que é crime também. Agora, o mensalão, nos termos em que
foi colocado, volto a repetir, não existiu.
Mas caixa
dois do quê, se todos eles já estavam eleitos?
Não era
ano eleitoral parlamentar, mas esse dinheiro foi usado para saldar dívidas das campanhas municipais do ano anterior de candidatos ligados
aos deputados.
Mas o fato é que
o discurso sumiu...
O escândalo serviu para atenuar a postura
udenista do PT, de achar que a ética é um objetivo, quando
na verdade tem de ser uma obrigação de toda atividade política.
Serviu também para mostrar que não somos um conjunto de freiras
franciscanas dentro de um bordel. A ética é uma obrigação. Deixa de ser o palanque principal. Ela tem de ser um alicerce da campanha,
e não aquilo que está em cima.
É confortável
fazer uma campanha em companhia de José Sarney, Renan Calheiros e
Jader Barbalho?
Já tivemos alianças com essas pessoas em eleições
anteriores. É um processo que naturalmente tem de ser levado em consideração
num país como o Brasil. E que vale para nós como vale para a oposição.
Até porque todos esses personagens estavam no governo do Fernando
Henrique Cardoso, do PSDB. Para os críticos, agora, essas pessoas são
ruins. Quando elas estavam do lado deles, eram boas. Tudo o que eles, da
oposição, gostariam é que nós disséssemos:
"Não, nós não queremos o PMDB". Com certeza, no dia seguinte eles estariam tentando se aliar a ele.
Ciro
Gomes foi alijado da campanha presidencial e saiu atirando no PT e até
elogiando José Serra.
Depois da primeira declaração, ele
já se corrigiu dizendo que o Serra seria nefasto para o Brasil. Essas declarações
refletem um estado de espírito perfeitamente natural de alguém que
acreditava que podia ser presidente e cujo projeto não se consolidou. A
culpa não é do PT nem da Dilma. Espero que o Ciro, depois de baixar
a poeira, siga as recomendações do partido e se engaje na campanha
da Dilma.
Duda Mendonça, ex-publicitário do
PT, considera um erro tentar construir uma imagem diferente para Dilma. O senhor
concorda?
Nós não estamos tentando construir uma imagem diferente.
Também acho errado produzir uma Dilma artificial. O problema são
as inevitáveis comparações com o Lula. Qualquer que fosse
o candidato, quando comparado com o Lula na comunicação e no carisma,
estaria em desvantagem. A Dilma tem de ser ela mesma. O eleitor percebe quando
o candidato é artificial. Por isso não temos de construir uma nova
Dilma. Este período está servindo para ela pegar traquejo de candidata,
não para se transformar.
Como será para o PT
disputar a primeira eleição sem o Lula?
Não vamos disputar
eleição sem o Lula. O Lula estará na campanha. Dentro da
lei, será nosso principal militante e cabo eleitoral da Dilma. Nos horários
de folga, fim de semana, programas de TV, ele estará presente. A partir
da propaganda de TV, vamos ampliar o conhecimento da nossa candidata, o conhecimento
da população de que a Dilma é a candidata do governo, é
a candidata do Lula. E não há dúvida de que hoje nós
contamos com o cabo eleitoral mais decisivo na eleição, que é
o apoio que o governo e o Lula têm. O Lula vai eleger a Dilma.
Qual
deve ser a marca de Dilma para que ela não fique parecendo apenas
um sub-Lula?
É difícil. A marca da campanha é continuidade
com avanço. Mas transformar isso em um tema legível para
o eleitor comum é difícil, terá de ser construído
pelos profissionais. Temos de ter claro que o eleitor vota no candidato. Mas,
ao escolher, também analisa como está a vida dele. Essa é
a vantagem da Dilma. Hoje a marca dela é representar o governo do Lula,
que ela ajudou a construir. O Lula é o principal cabo eleitoral. Aliás,
cabo não. É um general eleitoral. Isso é bom para nós.
A oposição adoraria que o Lula estivesse do lado deles. Tanto é
que faz um esforço danado para que esqueçam o que eles disseram
sobre o Lula desde o início do governo.
O PT critica
a privatização, principalmente de serviços públicos.
Existe alguma coisa estatizável no Brasil?
Não, o estado tem de
ficar do tamanho que está. Não é preciso estatizar mais nada,
nem privatizar. Nós vamos fortalecer os instrumentos estatais de que dispomos,
como Petrobras, Banco do Brasil e Caixa Econômica. São instrumentos
que se revelaram essenciais
na crise e na retomada do crescimento. A oposição,
por seu lado, diz que esse
programa é chavista e que nem na China
o estado é tão grande. Não quero fazer um sofisma, mas quem
é contra fortalecer os instrumentos estatais dá margem a dizer que
vai enfraquecer. É a oposição que precisa explicar o que
quer do estado.
Os banqueiros já foram tratados pelos
petistas como os grandes vilões da sociedade. O que mudou?
Quando
a economia cresce, os bancos também crescem. A diferença é
que no governo Lula não foram só os bancos que cresceram. Outras
empresas cresceram. Os trabalhadores tiveram aumentos acima da inflação.
Não queremos que ninguém perca. Mas também não queremos que só um setor ganhe, como acontecia anteriormente.
A
política do MST de pregar a reforma agrária pela força ainda
conta com a simpatia do PT?
O MST teve o mérito de colocar a luta pela
reforma agrária na agenda nacional. Mas o PT sempre foi crítico
de ações do movimento, como ocupação de prédios
públicos, de terras produtivas, de destruição de patrimônio.
É a posição histórica do partido. O MST reclama do
governo Lula, dizendo que podia ter avançado mais. Só que metade
de tudo o que foi feito em reforma agrária na história ocorreu
no governo Lula. Não há do que reclamar.
O PT
ainda se considera um partido de esquerda?
A
tualmente, o que move a esquerda
é entender que o mercado não pode ser o regulador das relações
entre as pessoas, instituições e países. É entender
que o estado não pode ser idolatrado nem demonizado. É lutar contra
a injustiça e a desigualdade social. É combater qualquer discriminação
de raça, sexo ou cor. É saber que a democracia é um valor
estratégico permanente, não só tático ou instrumental.
São conceitos universais de posições à esquerda
na política. Todos encontram abrigo no PT.
O governo
Lula abrigou todos esses conceitos?
O governo Lula é de coalizão,
de centro-esquerda. Abriga partidos de esquerda, de centro, como o PMDB, e até
de centro-direita, caso do PP.