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Home  »  Revistas  »  Edição 2163 / 5 de maio de 2010


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Bate que eles gostam

É isso que a oposição acha do acordo pelo qual
a Ucrânia deu aquilo que os russos mais queriam


Vilma Gryzinski

Sergei Supinsky/AFP

Pancadaria, chuva de ovos, fumacê, vários narizes sangrando e muitos egos arranhados. Os cínicos diriam que foi praticamente um dia normal no Parlamento da Ucrânia, mas o acordo que provocou tanta ira é tudo, menos rotineiro. Foi um toma lá dá cá em escala gigantesca: o governo ucraniano concordou em prorrogar até o ano de 2042 o uso da base naval que dá aos russos acesso a todo o Mar Negro; em troca, a Rússia deu um descontão de 30% no preço que a Ucrânia paga pelo gás natural. Um bom negócio econômico e energético – a Ucrânia depende totalmente do gás do vizinho. Mas, do ponto de vista nacionalista, uma tragédia. Como tudo o que concerne aos antigos países-satélite da União Soviética, traumas indescritíveis tumultuam as relações com a Rússia pós-comunismo – e, no caso da Ucrânia, outros mais recentes, como intervenções deslavadas e até a misteriosa doença que cobriu de chagas o rosto do ex-presidente Viktor Yushchenko. Reconheça-se, no entanto, que Yushchenko fez um governo ruim de doer e foi legitimamente substituído por um xará, Viktor Yanukovich, identificadíssimo com
a Rússia – órfão que "andava descalço pelas ruas" (na Ucrânia, com invernos de 40 graus abaixo de zero), condenado duas vezes por assalto e lesão corporal, recuperou-se e fez carreira quase no finzinho do comunismo soviético. Manteve as boas relações. Quando Vladimir Putin foi a Kiev selar o acordo do Mar Negro, insistiu que o desconto na conta de gás era coisa entre amigos. "Por esse preço, eu poderia ter comido Yanukovich e o primeiro-ministro juntos", disse, com a sutileza habitual. Hummmm...
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