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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro
Cadê a velhinha
da licitação?
"O
ministério pára se a funcionária que sabe
fazer as licitações
é defenestrada para abrir
espaço a um companheiro"
Há
duas artes de governar. A primeira é ter a idéia certa
no momento certo, no lugar certo. É saber a hora do vôo
ousado ou da prudência devida. A segunda, menos visível,
é saber operar a máquina que faz acontecer as boas
idéias. É a arte de fazer uma burocracia produzir
resultados. Andamos carentes no domínio das duas artes.
No
dia da minha posse como titular da Capes, em 1979, tive a inspiração
de juntar toda a equipe e afirmar taxativamente que estavam todos
confirmados nos cargos. No dia seguinte, a Capes operava a pleno
vapor, processando milhares de candidaturas a bolsas de estudo,
convênios com universidades e aperfeiçoando a avaliação
da pós-graduação. Nem um minuto perdido em
inseguranças nem uma sinapse de memória perdida pelos
funcionários. O mesmo ocorreu também no Finep e na
Embrapa de então e no Itamaraty, na Receita Federal
e nas Forças Armadas.
Já
na Secretaria de Ensino Superior do MEC (Sesu), toda a equipe anterior
foi varrida das chefias e substituída por outra, talvez até
mais competente. Mas foi-se a memória da instituição
e empacou a mensagem redentora. Anos depois, a Sesu ainda patinava,
reinventando a roda, incapaz de repor em marcha a máquina
administrativa.
Por
que o Fome Zero não funciona e a Merenda Escolar é
comprovadamente um dos programas mais eficientes do governo federal?
Simples, a Merenda tem um destinatário claro e quase quarenta
anos de aprendizado institucional.
Quem
desembarca em uma posição de chefia em uma burocracia
federal terá uma grata surpresa ao descobrir um punhadinho
de idealistas e de batalhadores incansáveis. Encontrará
também um time de profissionais que faz o serviço,
se tiver a motivação e o ânimo. Há também
os preguiçosos, os improdutivos e os sabotadores que
atrapalharão, se tiverem chance.
Mas
é diabolicamente difícil fazer andar a máquina.
O sistema é uma obra-prima do demônio. Ninguém
manda em ninguém, pois não há avaliações,
prêmios, punições ou demissões. O chefe
competente tem de motivar, criar uma atmosfera saudável.
Vence pelo charme ou pela liderança. Quando consegue, todos
ficam felizes, pois é da natureza humana gostar de fazer
o serviço bem feito.
Logo
ao entrar na Capes, identifiquei uma grande lentidão no protocolo
de entrada de correspondência. Resolvi passar uma manhã
triando correspondência, em companhia dos jovens funcionários.
Não achei nada errado. Mas, como em um passe de mágica,
o protocolo passou a funcionar, desse dia em diante. A explicação
é que trabalhar lado a lado do diretor da instituição
elevou a auto-estima dos contínuos.
A
legislação do serviço público é
um esforço patético de impedir desmandos e corrupção,
como se todos os funcionários públicos fossem ladrões.
Na prática, as travas tornam quase impossível fazer
funcionar um ministério e não impedem de se locupletar
uma minoria de profissionais da roubalheira ou do fisiologismo.
Comprar
um envelope, consertar o fax ou executar o orçamento previsto
são tarefas hercúleas. Contratar um consultor é
quase impossível. É difícil evitar o estratagema
de fazer um repasse a uma fundação ou a uma agência
das Nações Unidas, para ter acesso a esses mesmos
recursos, com menos burocracia. É uma "lavagem de dinheiro",
para o bem. Boa parte dos programas das Nações Unidas
no Brasil não passa muito de uma reciclagem de recursos do
próprio país.
É
muito fácil atrapalhar e muito difícil fazer. Uma
burocracia é um castelo de cartas, não resiste a um
sopro. Um erro de digitação em uma planilha trava
tudo. O ministério pára se a velhinha que sabe fazer
as licitações ou a outra que sabe fazer convênios
são defenestradas, para abrir espaço para um companheiro.
Por meses.
Nas
artes de governar, há pouco espaço para idéias
redentoras ou para desfazer o que funciona. Tais artes consistem
em enxergar corretamente os rumos da política pública
e saber lidar delicadamente com a burocracia que deve executá-la.
Lamentamos a magnífica idéia que não foi implementada.
Mas não tem tanta magnificência uma idéia que
a burocracia existente não consegue executar. Não
passa de uma miragem.
Claudio
de Moura Castro é economista
(claudiodmc@attglobal.net)
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