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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
A superpotência
enlouqueceu
de vez
Não
só no Iraque os EUA estão
sem saída. Também estão para
justificar-se perante o mundo
Em
sua primeira justificativa, a guerra era contra as armas de destruição
em massa de Saddam Hussein. A existência de tais armas revelou-se
uma mentira, e então a explicação mudou: a
guerra era contra a tirania que infernizava a vida dos iraquianos.
Que fosse. E agora? Sem armas de destruição de massas
a neutralizar, nem outra ditadura a derrubar, a guerra dos americanos
assumiu, neste mês de abril, o caráter mais absurdo
de que se poderia revestir: agora, é contra o povo do Iraque.
Era isso, não menos que isso, a que se assistia, na semana
passada, enquanto os tanques e aviões americanos investiam
sobre Falluja, uma cidade de 300.000 habitantes, e tropas cercavam
e ameaçavam a cidade santa de Najaf. Eis os americanos afundados
num momento de insanidade como raros em sua história. Abril
de 2004 ficará marcado como o mês em que a superpotência
enlouqueceu de vez.
A
escalada rumo à insanidade teve início no momento
mesmo em que se cogitou de fazer guerra ao Iraque. Era a guerra
errada. Os Estados Unidos agiram como o grandalhão que, no
meio de um aperto, toma bofetada do vizinho da esquerda mas reage
contra o da direita, cena clássica nas comédias de
pastelão. A bofetada veio de Osama bin Laden. Mas o troco
foi em Saddam, que, com todos os seus defeitos e não
são poucos , terrorista não era, nem amigo do
terrorismo. A esta altura, livros como o de Richard Clarke, ex-chefe
de contraterrorismo da Casa Branca, e de Bob Woodward, o mesmo jornalista
do caso Watergate, deixaram claro que George W. Bush assumiu a Presidência
já querendo fazer guerra ao Iraque. Os atentados de 11 de
setembro foram só um pretexto. Ele queria atacar o Iraque
talvez por causa do petróleo, talvez para "mudar o mundo",
como costuma dizer nos acessos de megalomania, ou, ainda, talvez
por causa do pai seja para vingá-lo, ele (o pai) que
foi objeto de um frustrado atentado supostamente armado por Saddam
Hussein, seja para superá-lo, ele (ainda o pai) que fez a
primeira guerra do Iraque mas esqueceu-se de depor o ditador.
Os
problemas com o pai, Bush filho deveria ter tentado resolver num
divã de psicanalista. Em vez disso foi parar numa igreja
evangélica, o que só piorou as coisas: virou um fanático
religioso. Dotou-se, para se opor aos insanos do Islã, de
sua própria e cristã insanidade. A colunista Maureen
Dowd, do New York Times, começou um artigo recente
dizendo que não sabia bem como fazê-lo, hesitava, temia
ser indelicada, mas... mas uma coisa tinha de perguntar a John Kerry,
o candidato democrata às eleições presidenciais:
"Houve alguma coisa na relação com seu pai que deveríamos
saber?". Oportuna pergunta. Às aventuras extraconjugais,
junta-se um elemento a mais para os americanos perquirirem, na vida
pessoal dos candidatos, se quiserem se prevenir de surpresas desagradáveis.
A
estrada que leva à insanidade se revelava igualmente no rótulo
escolhido pelo governo americano para designar as ações
adotadas depois do 11 de Setembro: "guerra ao terrorismo". Como
se terrorismo se combatesse com guerra. Como se terroristas formassem
batalhões uniformizados e oferecessem alvos discerníveis
ao ataque do inimigo. Terrorismo se combate com operações
de inteligência e manobras políticas. No campo destas
últimas, está claro que a origem do terrorismo no
Oriente Médio repousa na questão palestina. Ou melhor:
na irresolução da questão palestina. Em vez
de dispor-se a resolvê-la, no entanto, os EUA de Bush investiram
o quanto puderam em agravá-la, na medida em que escancararam
total apoio à política expansionista e sanguinária
do primeiro-ministro israelense Ariel Sharon.
De
mau passo em mau passo, eis-nos chegados ao mês de abril em
que, em vez dos ataques tópicos contra as forças invasoras,
a resistência iraquiana assumiu proporções de
insurreição. Só mesmo os EUA de Bush para imaginar
que iam bombardear um país, invadi-lo, ocupá-lo, assumir-lhe
o governo e escolher-lhe um futuro de seu próprio gosto
e a população ia reagir a tudo com aplausos e flores.
O governo Bush vinha alegando que a resistência no Iraque
era constituída ou bem de antigos seguidores de Saddam ou
bem de terroristas estrangeiros infiltrados no país. Haja
seguidor de Saddam, e haja estrangeiro! Os xiitas, antes considerados
potenciais aliados, dada a opressão sofrida sob o regime
anterior, formam agora outro foco de aberta insubmissão.
É simbólico que a guerra se concentrasse, na semana
passada, em torno de Falluja e Najaf, a primeira situada no coração
do território sunita e a segunda a cidade sagrada dos xiitas,
onde se entrincheirou, com sua milícia, o líder Moqtada
Al Sadr, agora elevado à condição de inimigo
nº 1 dos americanos no país. Sunitas, xiitas
é o Iraque que se levantou. E arrastou os EUA à mais
louca das feições que poderia ter adquirido sua presente
aventura militar, que é a de uma guerra contra o povo do
Iraque. A troco de quê? A que preço? Não é
apenas que os EUA se afundaram numa situação sem saída.
Estão cada vez mais sem saída, igualmente, para justificar-se
perante o mundo.
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