Edição 1852 . 5 de maio de 2004

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
A superpotência
enlouqueceu de vez

Não só no Iraque os EUA estão
sem saída. Também estão para
justificar-se perante o mundo

Em sua primeira justificativa, a guerra era contra as armas de destruição em massa de Saddam Hussein. A existência de tais armas revelou-se uma mentira, e então a explicação mudou: a guerra era contra a tirania que infernizava a vida dos iraquianos. Que fosse. E agora? Sem armas de destruição de massas a neutralizar, nem outra ditadura a derrubar, a guerra dos americanos assumiu, neste mês de abril, o caráter mais absurdo de que se poderia revestir: agora, é contra o povo do Iraque. Era isso, não menos que isso, a que se assistia, na semana passada, enquanto os tanques e aviões americanos investiam sobre Falluja, uma cidade de 300.000 habitantes, e tropas cercavam e ameaçavam a cidade santa de Najaf. Eis os americanos afundados num momento de insanidade como raros em sua história. Abril de 2004 ficará marcado como o mês em que a superpotência enlouqueceu de vez.

A escalada rumo à insanidade teve início no momento mesmo em que se cogitou de fazer guerra ao Iraque. Era a guerra errada. Os Estados Unidos agiram como o grandalhão que, no meio de um aperto, toma bofetada do vizinho da esquerda mas reage contra o da direita, cena clássica nas comédias de pastelão. A bofetada veio de Osama bin Laden. Mas o troco foi em Saddam, que, com todos os seus defeitos – e não são poucos –, terrorista não era, nem amigo do terrorismo. A esta altura, livros como o de Richard Clarke, ex-chefe de contraterrorismo da Casa Branca, e de Bob Woodward, o mesmo jornalista do caso Watergate, deixaram claro que George W. Bush assumiu a Presidência já querendo fazer guerra ao Iraque. Os atentados de 11 de setembro foram só um pretexto. Ele queria atacar o Iraque talvez por causa do petróleo, talvez para "mudar o mundo", como costuma dizer nos acessos de megalomania, ou, ainda, talvez por causa do pai – seja para vingá-lo, ele (o pai) que foi objeto de um frustrado atentado supostamente armado por Saddam Hussein, seja para superá-lo, ele (ainda o pai) que fez a primeira guerra do Iraque mas esqueceu-se de depor o ditador.

Os problemas com o pai, Bush filho deveria ter tentado resolver num divã de psicanalista. Em vez disso foi parar numa igreja evangélica, o que só piorou as coisas: virou um fanático religioso. Dotou-se, para se opor aos insanos do Islã, de sua própria e cristã insanidade. A colunista Maureen Dowd, do New York Times, começou um artigo recente dizendo que não sabia bem como fazê-lo, hesitava, temia ser indelicada, mas... mas uma coisa tinha de perguntar a John Kerry, o candidato democrata às eleições presidenciais: "Houve alguma coisa na relação com seu pai que deveríamos saber?". Oportuna pergunta. Às aventuras extraconjugais, junta-se um elemento a mais para os americanos perquirirem, na vida pessoal dos candidatos, se quiserem se prevenir de surpresas desagradáveis.

A estrada que leva à insanidade se revelava igualmente no rótulo escolhido pelo governo americano para designar as ações adotadas depois do 11 de Setembro: "guerra ao terrorismo". Como se terrorismo se combatesse com guerra. Como se terroristas formassem batalhões uniformizados e oferecessem alvos discerníveis ao ataque do inimigo. Terrorismo se combate com operações de inteligência e manobras políticas. No campo destas últimas, está claro que a origem do terrorismo no Oriente Médio repousa na questão palestina. Ou melhor: na irresolução da questão palestina. Em vez de dispor-se a resolvê-la, no entanto, os EUA de Bush investiram o quanto puderam em agravá-la, na medida em que escancararam total apoio à política expansionista e sanguinária do primeiro-ministro israelense Ariel Sharon.

De mau passo em mau passo, eis-nos chegados ao mês de abril em que, em vez dos ataques tópicos contra as forças invasoras, a resistência iraquiana assumiu proporções de insurreição. Só mesmo os EUA de Bush para imaginar que iam bombardear um país, invadi-lo, ocupá-lo, assumir-lhe o governo e escolher-lhe um futuro de seu próprio gosto – e a população ia reagir a tudo com aplausos e flores. O governo Bush vinha alegando que a resistência no Iraque era constituída ou bem de antigos seguidores de Saddam ou bem de terroristas estrangeiros infiltrados no país. Haja seguidor de Saddam, e haja estrangeiro! Os xiitas, antes considerados potenciais aliados, dada a opressão sofrida sob o regime anterior, formam agora outro foco de aberta insubmissão. É simbólico que a guerra se concentrasse, na semana passada, em torno de Falluja e Najaf, a primeira situada no coração do território sunita e a segunda a cidade sagrada dos xiitas, onde se entrincheirou, com sua milícia, o líder Moqtada Al Sadr, agora elevado à condição de inimigo nº 1 dos americanos no país. Sunitas, xiitas – é o Iraque que se levantou. E arrastou os EUA à mais louca das feições que poderia ter adquirido sua presente aventura militar, que é a de uma guerra contra o povo do Iraque. A troco de quê? A que preço? Não é apenas que os EUA se afundaram numa situação sem saída. Estão cada vez mais sem saída, igualmente, para justificar-se perante o mundo.

 
 
 
 
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