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Cinema
Retrato
do guerrilheiro
quando jovem
Diários
de Motocicleta quer dar uma
estatura humana ao mito Che Guevara,
mas termina por engrandecê-lo ainda mais

Isabela
Boscov
Fotos divulgação
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| De
la Serna (à esquerda), como Alberto, e García
Bernal, como Guevara: de moto ou a pé, em viagem por
uma Pan-América utópica |
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Em
Casseta & Planeta A Taça do Mundo É
Nossa, Bussunda e amigos descobrem que o líder revolucionário
Che Guevara na verdade não morreu numa emboscada na Bolívia,
em 1967: está embrenhado na selva, de onde, incógnito,
opera um lucrativo negócio de camisetas com sua estampa.
A piada vai bem ao ponto. A foto feita pelo cubano Alberto Korda,
que mostra Che de boina militar e olhar fixo num porvir que ele
já enxerga como concreto, está entre as imagens mais
célebres do século XX, e o próprio Che virou
uma marca que está para o socialismo assim como a Coca-Cola
está para o capitalismo é seu emblema e sinônimo.
Com o desmantelamento do bloco soviético, a acentuada queda
em desgraça do regime cubano e a quase total falência
das ideologias, entretanto, a questão é: emblema do
quê, exatamente? Diários de Motocicleta (Diarios
de Motocicleta, Inglaterra/ França, 2004), que estréia
nesta sexta-feira no país, pretende responder a essa pergunta
dando-lhe estatura humana e trafegando numa suposta via de desmitificação
do personagem.
O
filme do diretor Walter Salles recupera os nove meses em que Che
então apenas Ernesto Guevara de la Serna e
seu amigo Alberto Granado estiveram na estrada, em 1952, percorrendo
12.000 quilômetros de território latino-americano,
do sul da Argentina ao extremo norte da Venezuela, passando pelo
Chile e Peru. Alberto, um bioquímico de 29 anos, e Ernesto,
um estudante de medicina de 23, saíram de Buenos Aires numa
velha motocicleta, que sobreviveu a apenas parte do trajeto. O restante
foi cumprido de carona, de barco ou a pé. A essa aproximação
forçada com o território a cobrir correspondem uma
tomada de consciência sobre a injustiça e a miséria,
de um lado, e a descoberta de uma identidade latino-americana, de
outro. Agora as pessoas não apenas cruzam o caminho de Alberto
e Ernesto, mas se integram a ele e se tornam sua razão de
ser.
Produzido
por Robert Redford e incluído na seleção oficial
do Festival de Cannes, que começa no próximo dia 12,
Diários é o filme mais coeso e bem-acabado
da carreira de Salles, que o rodou com a câmera na mão
e em locação, no mesmo percurso seguido pelos amigos.
Amparado no primoroso roteiro do porto-riquenho José Rivera
e nas atuações de Gael García Bernal, como
Che, e Rodrigo de la Serna este, uma revelação
, como Alberto, Diários é particularmente
bem-sucedido na maneira como evoca os aspectos intangíveis
que são cruciais à sua história, como a transformação
de uma amizade em afinidade filosófica, e o olhar dos personagens
sobre o mundo, que passa de cursório a atento e demorado.
Não menos importante é o fato de o filme localizar
as razões do protagonista tanto no seu interior quanto na
paisagem à sua volta. Ernesto queima no ardor do seu idealismo
e é honesto ao ponto da dureza. É um radical esperando
para desabrochar. Não há aqui, no entanto, mais do
que sintomas da conversão de Ernesto no Che que comandaria
a revolução cubana com Fidel Castro, em 1959, e que
em seguida tentaria organizar a luta armada em países como
o Congo e a Bolívia. O que não significa que seu fantasma
não paire todo o tempo sobre Diários. O Ernesto
do filme pode não ter ainda formulado qual será o
seu futuro, mas o espectador sabe que futuro é esse. Agir
como se o destino de Che nessa viagem por uma Pan-América
utópica fosse ignorado é o ponto cego de Diários.
Che não ficou na teoria: pegou em armas, fundou uma ditadura
socialista e tentou plantar células de guerrilha pelo continente.
Se seu despertar é pertinente ainda hoje, como argumenta
o filme, é o caso de indagar se suas soluções
também o seriam. É claro que não seriam. Mas
essa é uma pergunta que não é feita nem respondida.
Diários tem de Che tudo o que é capaz de causar
empatia, e nada do que provocaria polêmica.
Como
observa o mexicano Jorge G. Castañeda, um dos mais competentes
biógrafos de Che, o guerrilheiro passou a lenda e mártir
pelas circunstâncias de sua morte executado pelo Exército
boliviano, numa escola miserável do povoado de La Higuera
e pelo momento peculiar em que ela ocorreu, pouco antes da
Ofensiva do Tet, que virou a Guerra do Vietnã em desfavor
dos Estados Unidos, e meses antes da agitação do maio
de 1968 na Europa. Essa conjunção fez com que o homem
e sua época "se cristalizassem em singular harmonia", diz
Castañeda. Se tivesse vivido, Che provavelmente não
teria adquirido tal dimensão, e talvez algumas de suas facetas
menos sedutoras ficassem hoje evidentes por exemplo, o fascínio
pelo militarismo, a defesa da luta armada, a intransigência
ideológica e os sinais de autoritarismo. Todos, aliás,
traços do castrismo. A pureza que sempre se celebrou em Che
é, de certa forma, como a poesia que Rimbaud teria escrito,
ou os filmes que James Dean teria feito: uma promessa que a morte
prematura impediu de desembocar em eventual decepção.
Como personagem, Che é uma equação insolúvel.
Quanto mais se desconstrói o mito, mais se o realimenta.
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