Edição 1852 . 5 de maio de 2004

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Cinema
Retrato do guerrilheiro
quando jovem

Diários de Motocicleta quer dar uma
estatura humana ao mito Che Guevara,
mas termina por engrandecê-lo ainda mais


Isabela Boscov

 
Fotos divulgação
De la Serna (à esquerda), como Alberto, e García Bernal, como Guevara: de moto ou a pé, em viagem por uma Pan-América utópica


Galeria de fotos
Trailer

Em Casseta & Planeta – A Taça do Mundo É Nossa, Bussunda e amigos descobrem que o líder revolucionário Che Guevara na verdade não morreu numa emboscada na Bolívia, em 1967: está embrenhado na selva, de onde, incógnito, opera um lucrativo negócio de camisetas com sua estampa. A piada vai bem ao ponto. A foto feita pelo cubano Alberto Korda, que mostra Che de boina militar e olhar fixo num porvir que ele já enxerga como concreto, está entre as imagens mais célebres do século XX, e o próprio Che virou uma marca que está para o socialismo assim como a Coca-Cola está para o capitalismo – é seu emblema e sinônimo. Com o desmantelamento do bloco soviético, a acentuada queda em desgraça do regime cubano e a quase total falência das ideologias, entretanto, a questão é: emblema do quê, exatamente? Diários de Motocicleta (Diarios de Motocicleta, Inglaterra/ França, 2004), que estréia nesta sexta-feira no país, pretende responder a essa pergunta dando-lhe estatura humana e trafegando numa suposta via de desmitificação do personagem.

O filme do diretor Walter Salles recupera os nove meses em que Che – então apenas Ernesto Guevara de la Serna – e seu amigo Alberto Granado estiveram na estrada, em 1952, percorrendo 12.000 quilômetros de território latino-americano, do sul da Argentina ao extremo norte da Venezuela, passando pelo Chile e Peru. Alberto, um bioquímico de 29 anos, e Ernesto, um estudante de medicina de 23, saíram de Buenos Aires numa velha motocicleta, que sobreviveu a apenas parte do trajeto. O restante foi cumprido de carona, de barco ou a pé. A essa aproximação forçada com o território a cobrir correspondem uma tomada de consciência sobre a injustiça e a miséria, de um lado, e a descoberta de uma identidade latino-americana, de outro. Agora as pessoas não apenas cruzam o caminho de Alberto e Ernesto, mas se integram a ele e se tornam sua razão de ser.

Produzido por Robert Redford e incluído na seleção oficial do Festival de Cannes, que começa no próximo dia 12, Diários é o filme mais coeso e bem-acabado da carreira de Salles, que o rodou com a câmera na mão e em locação, no mesmo percurso seguido pelos amigos. Amparado no primoroso roteiro do porto-riquenho José Rivera e nas atuações de Gael García Bernal, como Che, e Rodrigo de la Serna – este, uma revelação –, como Alberto, Diários é particularmente bem-sucedido na maneira como evoca os aspectos intangíveis que são cruciais à sua história, como a transformação de uma amizade em afinidade filosófica, e o olhar dos personagens sobre o mundo, que passa de cursório a atento e demorado. Não menos importante é o fato de o filme localizar as razões do protagonista tanto no seu interior quanto na paisagem à sua volta. Ernesto queima no ardor do seu idealismo e é honesto ao ponto da dureza. É um radical esperando para desabrochar. Não há aqui, no entanto, mais do que sintomas da conversão de Ernesto no Che que comandaria a revolução cubana com Fidel Castro, em 1959, e que em seguida tentaria organizar a luta armada em países como o Congo e a Bolívia. O que não significa que seu fantasma não paire todo o tempo sobre Diários. O Ernesto do filme pode não ter ainda formulado qual será o seu futuro, mas o espectador sabe que futuro é esse. Agir como se o destino de Che nessa viagem por uma Pan-América utópica fosse ignorado é o ponto cego de Diários. Che não ficou na teoria: pegou em armas, fundou uma ditadura socialista e tentou plantar células de guerrilha pelo continente. Se seu despertar é pertinente ainda hoje, como argumenta o filme, é o caso de indagar se suas soluções também o seriam. É claro que não seriam. Mas essa é uma pergunta que não é feita nem respondida. Diários tem de Che tudo o que é capaz de causar empatia, e nada do que provocaria polêmica.

Como observa o mexicano Jorge G. Castañeda, um dos mais competentes biógrafos de Che, o guerrilheiro passou a lenda e mártir pelas circunstâncias de sua morte – executado pelo Exército boliviano, numa escola miserável do povoado de La Higuera – e pelo momento peculiar em que ela ocorreu, pouco antes da Ofensiva do Tet, que virou a Guerra do Vietnã em desfavor dos Estados Unidos, e meses antes da agitação do maio de 1968 na Europa. Essa conjunção fez com que o homem e sua época "se cristalizassem em singular harmonia", diz Castañeda. Se tivesse vivido, Che provavelmente não teria adquirido tal dimensão, e talvez algumas de suas facetas menos sedutoras ficassem hoje evidentes – por exemplo, o fascínio pelo militarismo, a defesa da luta armada, a intransigência ideológica e os sinais de autoritarismo. Todos, aliás, traços do castrismo. A pureza que sempre se celebrou em Che é, de certa forma, como a poesia que Rimbaud teria escrito, ou os filmes que James Dean teria feito: uma promessa que a morte prematura impediu de desembocar em eventual decepção. Como personagem, Che é uma equação insolúvel. Quanto mais se desconstrói o mito, mais se o realimenta.

 
 
 
 
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