Edição 1852 . 5 de maio de 2004

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Livros
Como a internet reinventou
o boca-a-boca

Em sites como o da Amazon, resenhas de
leitores comuns ajudam a vender produtos


Jerônimo Teixeira

 



Conheça o ranking de resenhistas da Amazon

Lawrance Bernabo dá aulas em uma universidade on-line nos Estados Unidos. Para espairecer entre a correção de uma monografia sobre mitologia grega e outra sobre cultura popular contemporânea, encontrou uma diversão curiosa: escreve críticas de livros, filmes, CDs. "É para limpar minha mente e ler os próximos trabalhos com um novo olhar", explica. Bernabo costuma redigir seis ou sete resenhas por dia, todas publicadas no site da Amazon, a mais conhecida livraria (e loja de CDs, DVDs, brinquedos e bugigangas eletrônicas) on-line do planeta. É o número 2 na lista de resenhistas mais apreciados pelo público em votação promovida pela Amazon. E é o que mais escreve: tem perto de 7.600 textos no site. A Amazon não paga pelas resenhas de consumidores. Curiosamente, a autoridade que elas porventura tenham deriva justamente do diletantismo de seus autores. O consumidor que compra o livro recomendado por um resenhista da internet está, pelo menos em teoria, ouvindo a voz de seu igual – outro leitor desinteressado. É quase a reedição tecnológica de uma das mais antigas (e eficientes) formas de publicidade: o boca-a-boca. "Nada supera o poder do boca-a-boca na divulgação de um livro", diz o mago escritor Paulo Coelho, do alto de seus mais de 60 milhões de livros vendidos no mundo todo.

James Marcus, jornalista que trabalhou para a Amazon por cinco anos e publicou um livro sobre a experiência – Amazonia –, diz que as resenhas de consumidor são uma "mistura de boca-a-boca com enquete eletrônica". A enquete fica por conta das cotações que os críticos dão ao livro, em uma escala que vai de uma a cinco estrelas. Os textos, porém, raramente informam mais do que as estrelinhas. "As resenhas de consumidor quase nunca revelam pendor analítico. Em geral, o leitor se limita a dizer se gostou ou não do livro", observa Marcus. Seja como for, o fato é que os críticos voluntários estão ganhando importância. Alguns já adquiriram inclusive um certo peso institucional, e começam a ser cortejados por autores e editoras. Sócio de uma empresa de consultoria empresarial, Don Mitchell, o número 3 da lista de resenhistas mais populares da Amazon, é um exemplo. "Forrei as estantes com livros que me enviaram", diz ele. No Brasil, o fenômeno do resenhismo anônimo pela internet já existe, mas ainda está longe de alcançar essas dimensões. "A opinião do leitor é apenas um instrumento a mais para ajudar o consumidor a tomar sua decisão de compra", diz André Shinohara, diretor comercial e de marketing do site Submarino.

Pelo menos um elemento fundamental do velho boca-a-boca perdeu-se na transposição para o admirável mundo novo da internet: a relação direta de confiança entre quem recomenda e quem pede a recomendação. Don Mitchell confessa que aproveita a popularidade que conquistou como resenhista para promover as obras que ele mesmo escreveu na área de administração. Além disso, é muito fácil assumir outra identidade no universo virtual, o que torna a rede um meio propício para empulhações. Em fevereiro, um problema técnico no site canadense da Amazon revelou os nomes reais de críticos que assinavam sob pseudônimos. Graças a essa quebra de sigilo, descobriu-se que alguns supostos leitores comuns eram autores conhecidos. Dave Eggers, autor de Uma Comovente Obra de Espantoso Talento, deixava comovidas recomendações das obras de amigos menos talentosos. Justificou-se dizendo que estava tentando restabelecer o "equilíbrio" na rede, já que os leitores haviam dado cotações baixas para os seus camaradas. Outro autor americano, John Rechy, teve desfaçatez ainda maior: falou bem do próprio livro, The Life and Adventures of Lyle Clemens. Esse pequeno escândalo acabou servindo à publicidade. Na semana passada, a primeira resenha de Lyle Clemens na Amazon era de um leitor que leu e gostou do romance depois de ouvir falar dos polêmicos auto-elogios eletrônicos. O tal leitor – que deu cinco estrelas para o livro de Rechy – apresentava-se como Michael Grace, da Califórnia. Mas quem pode saber com certeza?

 
 
 
 
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