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Estilo
Aviões
na garagem
Condomínios
com pista de pouso,
nos
quais se guarda em casa o próprio
jatinho, são a nova mania americana

Gabriela
Carelli
Na
hora de comprar um imóvel num condomínio fechado,
as pessoas costumam exigir que o local tenha uma boa estrutura de
lazer, segurança e muitas vagas para seus carros. Outras
querem tudo isso e um pouco mais. Por exemplo, uma garagem
para estacionar aviões, vias de acesso ligando cada uma das
casas a uma pista de pouso e decolagem e uma torre de controle de
tráfego aéreo. Para quê? Ora, para que os proprietários
possam acionar o motor de seus jatinhos ou turboélices, taxiá-los
e ganhar os céus. Seja para ir ao trabalho, sair para jantar
ou, simplesmente, visitar amigos. Parece fantasia, mas não
é. Empreendimentos desse tipo vêm se tornando comuns
em países como Canadá, Austrália, Inglaterra
e, principalmente, nos Estados Unidos, que têm a maior frota
aérea particular do mundo, estimada em 218.000 aeronaves.
Lá, esses condomínios residenciais com moradores alados
se tornaram um fenômeno imobiliário. Ganharam até
nome: são os fly-ins. Já há 470 distribuídos
por todo o país, nos quais vivem 22.000 famílias.
Entre elas, a do ator John Travolta, dono do imóvel mais
exuberante já erguido num fly-in.
Fascinado
por aviões desde que embarcou em seu primeiro vôo,
aos 10 anos, Travolta não poupou recursos na hora de realizar
seu sonho: ter uma linda casa que abriga na garagem-hangar não
apenas um jatinho Gulfstream II, avaliado em 12 milhões de
dólares, mas também um enorme Boeing 707, que em sua
versão comercial transporta até 140 passageiros. Fabricado
em 1964, ele vale 1 milhão de dólares. "Eles são
a paixão de John e por isso estão em um local estratégico
do terreno: podem ser vistos de qualquer lugar da casa, até
mesmo dos quartos", disse recentemente a mulher do astro, Kelly
Preston, à revista Architectural Digest. Travolta
desembolsou 3,5 milhões de dólares para construir
sua mansão. O imóvel, inspirado nas obras de Frank
Lloyd Wright, o arquiteto que projetou o Museu Guggenheim de Nova
York, e no terminal do Aeroporto Dulles, em Washington, é
surpreendente. Tem 1.000 metros quadrados, piscina, seis quartos,
oito apartamentos para convidados, um painel gigantesco que reproduz
uma campanha publicitária de 1937 sobre aviões,
é claro , dez garagens para carros e mais uma série
de extravagâncias comuns nas casas de milionários.
Fotos divulgação
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O
Gulfstream II e o Boeing 707 do casal John Travolta podem
ser vistos de todos os cômodos de
sua mansão na Flórida,
inclusive dos quartos
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A
residência dos Travolta fica no condomínio Jumbolair,
na cidade de Ocala, no norte da Flórida. O empreendimento
foi inaugurado há três anos e hoje é considerado
o mais luxuoso de todos os fly-ins. Não só por causa
dos campos de golfe, das cocheiras de cavalo ou do posto de abastecimento
similar aos encontrados nas rodovias, onde o proprietário
pode encher o tanque de seu jato sozinho, mediante pagamento com
cartão de crédito. O grande destaque do Jumbolair
está em sua pista de vôo. É a maior pista residencial
do mundo, com 2,3 quilômetros asfaltados uma enormidade
se comparada às de outros condomínios, bem menores
e, em alguns casos, revestidas com grama e que comportam apenas
aviões pequenos. "Escolhi o local por causa da pista, extensa
e resistente, capaz de agüentar o peso de um 707", diz Travolta.
"Se nossa pista não fosse sólida, estaríamos
arruinados", disse a VEJA o empresário Jeremy Thayer, um
dos sócios do Jumbolair. "Travolta sai com o Boeing a toda
hora, vai visitar amigos e filmar na Califórnia", ele conta.
O
fly-in Jumbolair não é para qualquer um. Um terreno
no local não sai por menos de 400.000 dólares. Uma
casa com hangar, 800.000 dólares. Isso sem falar na taxa
de manutenção dos espaços comuns: 36.000 dólares
por ano. Uma realidade bem distante da de outros condomínios
aéreos americanos. Nos fly-ins mais modestos, é possível
comprar um lote pequeno por 12.500 dólares. O preço
de um terreno nesses condomínios gira em torno de 150.000
dólares. Os custos anuais não ultrapassam 10.000 dólares.
São esses os preços para ter uma casa num dos 1.600
lotes do Spruce Creek, o maior fly-in americano, situado em Daytona
Beach, também na Flórida. "Astros de Hollywood e seus
jatos espetaculares não são o público típico
dos fly-ins", disse a VEJA Dave Sclair, fundador da revista General
Aviation News e editor do site sobre fly-ins Living with your
plane. "Há muita gente anônima e menos endinheirada
que vive neles."
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Spruce
Creek, em Daytona Beach: o maior fly-in do mundo, com 1 600
casas, é o preferido da classe média
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Numa
pesquisa feita no ano passado, Sclair traçou o perfil dos
compradores desses imóveis. A maioria deles é de classe
média para os padrões americanos. Do total, 57% têm
renda anual igual ou superior a 100.000 dólares por ano.
Outros 40% ganham entre 50.000 e 100.000 dólares e só
3% ganham menos de 50.000 dólares anuais. Têm idade
entre 40 e 55 anos, são casados e sem filhos. Mais de 85%
usam essas residências, a maior parte avaliada em 250.000
dólares, como moradia fixa. Os outros 15% utilizam a propriedade
como ponto de apoio ou local de férias. "É um erro
achar que os fly-ins são um lugar para celebridades", diz
Dave Sclair.
O
sucesso dos fly-ins nos Estados Unidos está diretamente ligado
à paixão dos americanos por aviões. O primeiro
empreendimento do gênero foi erguido em 1946, na cidade de
Fresno, Califórnia, por William Smilie, um instrutor de vôo
que, antes de ter a própria aeronave, lavou aviões
e trabalhou de graça como assistente de mecânico. Só
para desfrutar algumas horas pilotando aparelhos alheios. "A idéia
de Smilie era dividir com os colegas, também aficionados
de aviação, um espaço único, uma espécie
de ilha da fantasia", conta Sclair. Até a década de
70, todos os condomínios aéreos foram erguidos com
base nessa premissa. Atendiam a um público formado principalmente
por pilotos comerciais e militares aposentados. Hoje, a situação
é outra. Na última década, com o aumento do
número de vendas de aeronaves no país, houve uma explosão
de novos fly-ins. São advogados, médicos e empresários
atrás de comodidade. Já há incorporadores brasileiros
com projetos para construir fly-ins no Estado de São Paulo.
É uma boa notícia para quem sonha, um dia, em ter
seu avião na garagem de casa.
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