Edição 1852 . 5 de maio de 2004

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Estilo
Aviões na garagem

Condomínios com pista de pouso,
nos quais se guarda em casa o próprio
jatinho, são a nova mania americana


Gabriela Carelli

Na hora de comprar um imóvel num condomínio fechado, as pessoas costumam exigir que o local tenha uma boa estrutura de lazer, segurança e muitas vagas para seus carros. Outras querem tudo isso – e um pouco mais. Por exemplo, uma garagem para estacionar aviões, vias de acesso ligando cada uma das casas a uma pista de pouso e decolagem e uma torre de controle de tráfego aéreo. Para quê? Ora, para que os proprietários possam acionar o motor de seus jatinhos ou turboélices, taxiá-los e ganhar os céus. Seja para ir ao trabalho, sair para jantar ou, simplesmente, visitar amigos. Parece fantasia, mas não é. Empreendimentos desse tipo vêm se tornando comuns em países como Canadá, Austrália, Inglaterra e, principalmente, nos Estados Unidos, que têm a maior frota aérea particular do mundo, estimada em 218.000 aeronaves. Lá, esses condomínios residenciais com moradores alados se tornaram um fenômeno imobiliário. Ganharam até nome: são os fly-ins. Já há 470 distribuídos por todo o país, nos quais vivem 22.000 famílias. Entre elas, a do ator John Travolta, dono do imóvel mais exuberante já erguido num fly-in.

Fascinado por aviões desde que embarcou em seu primeiro vôo, aos 10 anos, Travolta não poupou recursos na hora de realizar seu sonho: ter uma linda casa que abriga na garagem-hangar não apenas um jatinho Gulfstream II, avaliado em 12 milhões de dólares, mas também um enorme Boeing 707, que em sua versão comercial transporta até 140 passageiros. Fabricado em 1964, ele vale 1 milhão de dólares. "Eles são a paixão de John e por isso estão em um local estratégico do terreno: podem ser vistos de qualquer lugar da casa, até mesmo dos quartos", disse recentemente a mulher do astro, Kelly Preston, à revista Architectural Digest. Travolta desembolsou 3,5 milhões de dólares para construir sua mansão. O imóvel, inspirado nas obras de Frank Lloyd Wright, o arquiteto que projetou o Museu Guggenheim de Nova York, e no terminal do Aeroporto Dulles, em Washington, é surpreendente. Tem 1.000 metros quadrados, piscina, seis quartos, oito apartamentos para convidados, um painel gigantesco que reproduz uma campanha publicitária de 1937 – sobre aviões, é claro –, dez garagens para carros e mais uma série de extravagâncias comuns nas casas de milionários.

 
Fotos divulgação

O Gulfstream II e o Boeing 707 do casal John Travolta podem ser vistos de todos os cômodos de sua mansão na Flórida, inclusive dos quartos

A residência dos Travolta fica no condomínio Jumbolair, na cidade de Ocala, no norte da Flórida. O empreendimento foi inaugurado há três anos e hoje é considerado o mais luxuoso de todos os fly-ins. Não só por causa dos campos de golfe, das cocheiras de cavalo ou do posto de abastecimento similar aos encontrados nas rodovias, onde o proprietário pode encher o tanque de seu jato sozinho, mediante pagamento com cartão de crédito. O grande destaque do Jumbolair está em sua pista de vôo. É a maior pista residencial do mundo, com 2,3 quilômetros asfaltados – uma enormidade se comparada às de outros condomínios, bem menores e, em alguns casos, revestidas com grama e que comportam apenas aviões pequenos. "Escolhi o local por causa da pista, extensa e resistente, capaz de agüentar o peso de um 707", diz Travolta. "Se nossa pista não fosse sólida, estaríamos arruinados", disse a VEJA o empresário Jeremy Thayer, um dos sócios do Jumbolair. "Travolta sai com o Boeing a toda hora, vai visitar amigos e filmar na Califórnia", ele conta.

O fly-in Jumbolair não é para qualquer um. Um terreno no local não sai por menos de 400.000 dólares. Uma casa com hangar, 800.000 dólares. Isso sem falar na taxa de manutenção dos espaços comuns: 36.000 dólares por ano. Uma realidade bem distante da de outros condomínios aéreos americanos. Nos fly-ins mais modestos, é possível comprar um lote pequeno por 12.500 dólares. O preço de um terreno nesses condomínios gira em torno de 150.000 dólares. Os custos anuais não ultrapassam 10.000 dólares. São esses os preços para ter uma casa num dos 1.600 lotes do Spruce Creek, o maior fly-in americano, situado em Daytona Beach, também na Flórida. "Astros de Hollywood e seus jatos espetaculares não são o público típico dos fly-ins", disse a VEJA Dave Sclair, fundador da revista General Aviation News e editor do site sobre fly-ins Living with your plane. "Há muita gente anônima e menos endinheirada que vive neles."

 

Spruce Creek, em Daytona Beach: o maior fly-in do mundo, com 1 600 casas, é o preferido da classe média

Numa pesquisa feita no ano passado, Sclair traçou o perfil dos compradores desses imóveis. A maioria deles é de classe média para os padrões americanos. Do total, 57% têm renda anual igual ou superior a 100.000 dólares por ano. Outros 40% ganham entre 50.000 e 100.000 dólares e só 3% ganham menos de 50.000 dólares anuais. Têm idade entre 40 e 55 anos, são casados e sem filhos. Mais de 85% usam essas residências, a maior parte avaliada em 250.000 dólares, como moradia fixa. Os outros 15% utilizam a propriedade como ponto de apoio ou local de férias. "É um erro achar que os fly-ins são um lugar para celebridades", diz Dave Sclair.

O sucesso dos fly-ins nos Estados Unidos está diretamente ligado à paixão dos americanos por aviões. O primeiro empreendimento do gênero foi erguido em 1946, na cidade de Fresno, Califórnia, por William Smilie, um instrutor de vôo que, antes de ter a própria aeronave, lavou aviões e trabalhou de graça como assistente de mecânico. Só para desfrutar algumas horas pilotando aparelhos alheios. "A idéia de Smilie era dividir com os colegas, também aficionados de aviação, um espaço único, uma espécie de ilha da fantasia", conta Sclair. Até a década de 70, todos os condomínios aéreos foram erguidos com base nessa premissa. Atendiam a um público formado principalmente por pilotos comerciais e militares aposentados. Hoje, a situação é outra. Na última década, com o aumento do número de vendas de aeronaves no país, houve uma explosão de novos fly-ins. São advogados, médicos e empresários atrás de comodidade. Já há incorporadores brasileiros com projetos para construir fly-ins no Estado de São Paulo. É uma boa notícia para quem sonha, um dia, em ter seu avião na garagem de casa.

 

 
 
 
 
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