Edição 1852 . 5 de maio de 2004

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Educação
As melhores da turma

As cidades que conseguiram colocar mais
jovens na universidade na idade certa


Monica Weinberg

 
Divulgação
Faculdade em São Caetano: indústria alavancou o ensino

Um estudo do Ministério da Educação, com base em dados do IBGE, apontou as cidades do Brasil com maior concentração de jovens com idade entre 18 e 24 anos matriculados no ensino superior. É uma medida importante – o número de universitários nessa faixa etária funciona como um termômetro da qualidade de ensino. Isso porque o fato de um estudante chegar à universidade aos 18 anos demonstra que sua vida escolar transcorreu no ritmo esperado: ele não abandonou os estudos nem repetiu o ano. O ranking do MEC, portanto, equivale a um ranking da eficiência do sistema educacional nos municípios. Com base nele, a cidade que apresenta o melhor desempenho é São Caetano do Sul, na região metropolitana de São Paulo (veja quadro). Lá, de cada dez jovens entre 18 e 24 anos, três estão na universidade. A média brasileira é bem menor: apenas um em cada dez cursa o ensino superior.

Das dez cidades que ocupam as primeiras colocações, seis estão na Região Sul e quatro na Região Sudeste. "As cidades que vão bem na avaliação do MEC são as que começaram a investir há mais tempo em educação", diz Claudio de Moura Castro, especialista em educação superior e articulista de VEJA. Na década de 80, o Norte e o Nordeste conseguiam conduzir ao ensino médio pouquíssimos jovens na idade esperada – apenas 6,5%. Já no Sul e no Sudeste essa porcentagem subia para 20%, mais que o triplo. Cidades sulistas como Porto Alegre, Caxias do Sul, Bento Gonçalves e Blumenau – todas entre as vinte mais bem colocadas na relação do MEC – figuram entre as primeiras cidades brasileiras a investir maciçamente no ensino público, uma exigência do processo de industrialização que atingiu a região no início do século XX. "O surgimento de tecelagens e fábricas familiares criou uma demanda por mão-de-obra mais preparada e isso alavancou o ensino público", afirma o economista Cláudio Egler, especialista em desenvolvimento regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Fenômeno parecido explica a posição de São Caetano como a campeã do ranking do MEC. "Os resultados do estudo têm um forte vínculo com o caminho histórico da riqueza no Brasil", diz Egler. Depois da I Guerra Mundial, a região de São Caetano passou a abrigar uma grande quantidade de empresas multinacionais, como a Pirelli, a General Motors e a Rhodia. Criou-se ali um pólo industrial vibrante, que promoveu desenvolvimento e gerou demanda por educação. "Os trabalhadores fabris passaram a cultivar a idéia de que, dando estudo a seus filhos, estes poderiam galgar colocações melhores no futuro", diz o especialista. O resultado foi a abertura de uma série de escolas que funcionavam no pátio das fábricas da cidade.

Em comum, as dez campeãs na lista do MEC têm ainda renda per capita acima da média brasileira e IDH (índice de desenvolvimento humano, elaborado com base em dados como a renda da população) entre os melhores do país. São Caetano, a número 1 no ranking dos universitários, é também a campeã de IDH, seguida de perto por Niterói e Florianópolis. Não é surpresa que uma cidade onde a economia tenha dinamismo e a população mais dinheiro no bolso alcance níveis melhores na educação. Espera-se que, numa família que viva com uma renda razoável, as crianças freqüentem a escola, tenham tempo para os estudos e acessem livros que contribuirão para sua educação. Com condições favoráveis para o aprendizado, essas crianças chegam sem grandes percalços à universidade, como mostra o estudo do MEC. A renda ajuda, mas não explica tudo. É preciso ressaltar que essas cidades conseguiram um feito e tanto. Enquanto a média brasileira de evasão do ensino fundamental é de quase 10%, em São Caetano e Florianópolis a taxa está na casa de 3%. "Isso significa que essas cidades, além de ter uma renda diferenciada, estão oferecendo o melhor ensino básico", observa Ryon Braga, consultor na área da educação.

O trabalho do MEC serve também para ressaltar a distância abismal que o Brasil mantém em relação aos países mais desenvolvidos quando o assunto é educação. Em São Caetano, o melhor exemplo brasileiro, 27,5% da população na faixa etária entre 18 e 24 anos está na universidade, enquanto no Chile e na Argentina mais de 30% dos jovens cursam o ensino superior. Nos Estados Unidos, a taxa é de 80%. Pior: entre os 5.560 municípios brasileiros, apenas 19% têm jovens matriculados numa faculdade na faixa etária considerada adequada. Nos 81% restantes, o levantamento mostra que eles simplesmente inexistem.

 
 
 
 
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