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Municípios
Quem
vai pagar?
Senado
cede ao lobby de vereadores
e mantém farra de gastos nas câmaras
municipais

Marcelo
Carneiro
Ed Ferreira/AE
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| Reunião
no Senado: manobra evitou corte profundo em despesas |
O Legislativo
no Brasil sempre foi apegado a privilégios e célebre
pelo desleixo com o dinheiro público. Parlamentares definem
os próprios salários, recebem adicionais por sessões
extras e ainda gozam de férias de três meses
remuneradas, é claro. Na semana passada, porém, o
Senado se superou. A toque de caixa, a Comissão de Constituição
e Justiça aprovou, na última quarta-feira, uma proposta
que estava engavetada havia doze anos. Não se trata de nenhuma
lei prevendo maior controle nos gastos ou investimentos em saúde.
O projeto que recebeu tanta atenção dos senadores
é uma emenda do ex-deputado Genebaldo Correia, que ganhou
fama ao se envolver no escândalo dos anões do Orçamento
e, em 1994, renunciou para escapar da cassação do
mandato. A emenda regulamenta o número de vereadores nas
cidades brasileiras, mas havia sido rejeitada em 1992. Em uma manobra,
o Senado ressuscitou o projeto, com um único objetivo: evitar
que fosse cumprida uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral,
que prevê a extinção de 8.500
vagas nas câmaras municipais, na próxima eleição.
Pelo projeto de Genebaldo, que ainda precisa ir a plenário,
o corte é bem menor, de 3.000
vagas. Foi salvo dessa forma o emprego de 5.500
vereadores.
Manobra
semelhante já havia sido adotada pelos deputados. Também
de maneira célere, os parlamentares da Câmara aprovaram,
duas semanas atrás, uma emenda do deputado Jefferson Campos
(PMDB-SP) que previa a diminuição de 5.062
vagas de vereadores, um número também menor que o
estimado pelo TSE. O Senado, como se vê, foi ainda mais generoso.
O que impressiona é que não há no Congresso
um só deputado ou senador capaz de dizer qual o custo dessa
decisão para o país. Os parlamentares aprovaram projetos
sem estimar os gastos das prefeituras com as câmaras de vereadores.
O economista Eduardo Giannetti da Fonseca, que há sete anos
estuda o assunto, fez esse trabalho. A partir de uma pesquisa por
amostragem em cidades brasileiras, Giannetti concluiu que um vereador
custa, em média, 7.000 reais por
mês aos cofres públicos. Um detalhe: na Espanha e no
Chile, os vereadores recebem, em média, o equivalente a 300
reais por sessão da qual participam e ocorrem, no máximo,
duas sessões por mês. Na França, o cargo não
é remunerado. No Brasil, se fosse colocada em prática
a decisão do TSE, o país economizaria 2,8 bilhões,
a cada quatro anos, período correspondente a uma legislatura
(veja quadro).
"Esses deputados e senadores só mantiveram os privilégios
porque dependem dos vereadores em seus redutos eleitorais. O interesse
público não foi levado em conta", diz Giannetti.
A
decisão do TSE tinha justamente o objetivo de corrigir uma
aberração, a falta de critérios de proporcionalidade
no número de vereadores, em relação à
população de cada cidade. Até então,
os vereadores, aproveitando-se de brechas na legislação,
inflavam o número de vagas. Um exemplo: na Constituição
Federal de 1988 ficou estabelecido que as câmaras de cidades
com menos de 1 milhão de habitantes teriam um mínimo
de nove e um máximo de 21 parlamentares, de acordo com a
população do município. Na hora de compor o
Legislativo, a proporcionalidade foi para o espaço, e várias
cidades, mesmo as de população reduzida, aproximaram-se
do limite máximo. Com a resolução do TSE, o
país passaria a ter treze faixas para o número de
vereadores em cidades com até 1 milhão de habitantes,
variando de nove a 21 parlamentares.
Toda
medida que contribua para a redução de gastos com
câmaras municipais será benéfica, não
apenas do ponto de vista fiscal, mas sobretudo social. Os municípios
menores, e portanto mais pobres, são os que têm despendido,
proporcionalmente, mais recursos com o Legislativo. Segundo um estudo
do economista Marcos Mendes, com base em dados de 2002, em 23% das
cidades brasileiras os prefeitos destinam mais dinheiro ao Legislativo
que a ações de urbanismo. Ou seja, há mais
dinheiro para as câmaras que para iluminação
ou limpeza de ruas. "Hoje, o que há é uma apropriação
privada de recursos públicos", diz Mendes. A cidade brasileira
que mais gasta com seus parlamentares, a modesta Carneirinho, em
Minas Gerais, com menos de 9.000 habitantes,
destina 12,6% da despesa total do município para custear
a Câmara. A votação da emenda Genebaldo no plenário
do Senado deve ocorrer até 10 de junho. Espera-se que suas
excelências tenham em mente números como esses e, ao
menos uma vez, pensem mais no país que em si mesmos.
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