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Comércio
exterior
O peso da vitória do
Brasil no algodão
Decisão
preliminar da OMC a favor de
mudanças nos subsídios americanos é um
marco na história do comércio mundial

Maurício
Capela
Nélio Rodrigues
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| O
plantador gaúcho Goellner gostou do julgamento da OMC,
mas, por ora, não vai aumentar a área plantada |
O
grande nó nas negociações para baixar as barreiras
ao comércio no mundo hoje é a agricultura. Durante
anos, as rodadas multilaterais aquelas que reúnem
grande número de países conseguiram reduzir
os impostos de importação de produtos industrializados,
o forte das nações ricas. O pleito dos países
em desenvolvimento de mudanças no setor em que são
competitivos, o agrícola, sempre foi colocado de lado. Os
produtos do campo enfrentam impostos de importação
quatro vezes maiores que os dos manufaturados. Isso sem contar os
mais de 300 bilhões de dólares por ano que as nações
ricas dão em subsídios a seus agricultores e pecuaristas.
Esse quadro mudou na rodada de negociações da Organização
Mundial do Comércio (OMC) iniciada em Doha, no Catar, há
cerca de dois anos e meio, e que ainda está em andamento.
Mudou no papel. A agenda de Doha promete atenção especial
aos anseios dos países em desenvolvimento. Na prática,
a velha e conhecida relutância das nações ricas
em mudar as barreiras ao comércio agrícola paralisou
as negociações na reunião de Cancún,
no México, no ano passado.
A
OMC que além de promover rodadas de negociações
também funciona como uma espécie de tribunal de disputas
comerciais comunicou o resultado de um julgamento na semana
passada que tem potencial para revolver toda a questão da
agricultura no cenário internacional. No primeiro processo
envolvendo a questão agrícola de sua história,
a OMC decidiu em caráter preliminar que o Brasil está
certo em pedir mudanças nos bilionários subsídios
que os Estados Unidos concedem aos produtores de algodão.
A gorda ajuda americana causa prejuízos aos agricultores
brasileiros.
AFP
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| Reunião
da Rodada Doha no ano passado: a questão agrícola como grande
impasse |
Embora
as decisões da OMC não costumem ser revertidas, os
EUA podem e, como já disse o ministro de Comércio
Exterior, Robert Zoellick, vão recorrer da decisão
quando forem comunicados oficialmente em junho. Apesar disso, o
anúncio da semana passada é um divisor de águas
e terá impacto imediato na Rodada Doha. A decisão
extrapola o setor algodoeiro. A sensação é
que a porteira foi aberta. A partir de agora, representantes de
países em desenvolvimento sabem que podem vencer no tribunal
da OMC os subsídios de americanos, europeus e japoneses em
outros produtos como arroz, milho, trigo e açúcar.
Já os líderes de nações ricas estão
cientes de que a estratégia de pedir mais concessões
dos países em desenvolvimento em áreas como propriedade
intelectual em troca da redução de barreiras no setor
agrícola perdeu força. A esperança é
que essa mudança na correlação de forças
seja suficiente para fazer a questão agrícola deslanchar.
A
decisão sobre o algodão reacendeu a batalha por corações
e mentes. O New York Times, o jornal mais influente dos Estados
Unidos, foi direto ao assunto no editorial de quarta-feira: "As
generosas contribuições dos EUA a seus agricultores
semeiam a pobreza no mundo em desenvolvimento. E, além disso,
são ilegais". The Wall Street Journal, o diário
econômico mais importante dos Estados Unidos, e o inglês
Financial Times foram unânimes em apoiar o julgamento
em favor do Brasil e do livre-comércio. Na mão contrária,
Zoellick, em depoimento ao Congresso americano, defendeu a política
de subsídios da administração Bush. Foi aplaudido
por alguns congressistas que voltaram a defender a saída
dos EUA da OMC porque ela pensam eles fere a soberania
nacional. (O lobby agrícola é forte e as eleições
presidenciais americanas são em novembro.) O Banco Mundial
estima que 140 milhões de pessoas poderiam sair da linha
da pobreza até 2015 se os 147 membros da OMC concordassem
em acabar com os subsídios e com todas as barreiras na área
agrícola. Algumas das maiores aberrações estão
na Europa. Cada vaca européia recebe mais de 2 dólares
por dia em subsídios, enquanto quase a metade da humanidade
vive com menos de 2 dólares por dia.
AP
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| Robert
Zoellick, dos EUA: "Vamos recorrer" |
O
caso do algodão é emblemático. Mesmo com custos
bem maiores que os dos concorrentes, os produtores americanos conseguiram
conquistar mais de 40% das exportações mundiais graças
aos subsídios, que funcionam como uma espécie de doping
do comércio. Os maiores prejudicados foram agricultores no
Brasil e na África, que viram a enxurrada de algodão
americano roubar mercados no exterior e baixar o preço do
produto. Sem os subsídios americanos, calcula-se que o valor
do algodão subiria 13%. Para o Brasil, a queda do preço
e as toneladas não exportadas nos últimos anos somaram
o equivalente a 1 bilhão de dólares. Isso sem contar
os postos de trabalho que deixaram de ser criados. Na África,
a situação é ainda mais grave. Em Benin, 6%
do PIB do país depende do algodão. Em Burkina Fasso,
o produto representa mais de 40% das exportações.
No
curto prazo, a maior parte dos produtores de algodão do Brasil
não mudará os planos. "Antes de abril de 2005, ninguém
vai correr o risco de aumentar substancialmente a área plantada.
Até lá, não haverá grande alteração
nos preços nem na abertura de novos mercados", diz o gaúcho
Gilberto Goellner, que deve colher 9.000 toneladas de algodão
neste ano em Mato Grosso. Diz Eduardo Logemann, outro sul-rio-grandense
e um dos maiores produtores individuais de algodão do Brasil:
"Não sabemos quanto vamos ganhar do mercado mundial nem o
tamanho da queda dos subsídios americanos, mas o mais importante
é que a decisão da OMC foi um marco".
A
idéia da ofensiva verde-amarela na OMC começou em
2001, quando o ministro das Relações Exteriores, Celso
Amorim, então embaixador brasileiro em Genebra, recebeu a
visita de Pedro de Camargo Neto, o secretário de Produção
Agrícola do governo Fernando Henrique Cardoso. Amorim estava
se recuperando de uma cirurgia, mas achou tempo para falar com Camargo
Neto. Da conversa surgiu a idéia de montar um processo contra
os subsídios americanos. A Associação Brasileira
dos Produtores de Algodão (Abrapa) concordou em arcar com
os custos legais, que totalizaram 2 milhões de dólares.
Com a argumentação pronta, Camargo Neto fez questão
de protocolar pessoalmente o processo na OMC em 2002.
O
Brasil perde anualmente cerca de 6 bilhões de dólares
por não poder vender produtos agrícolas às
nações ricas e também por sofrer a competição
de produtos subsidiados exportados a outros países. Mesmo
assim, o setor do agribusiness é um exemplo vitorioso de
empreendedorismo. No ano passado, o PIB agropecuário cresceu
incríveis 31,4%. Nas exportações, a importância
é ainda maior. Em 2003, os embarques somaram 30,7 bilhões
de dólares, 42% do total das vendas externas. O saldo do
setor ultrapassou 25 bilhões de dólares. Mesmo com
as barreiras, a previsão para este ano é que a produção
agrícola alcance 125,5 milhões de toneladas, 1,53%
a mais que em 2003.
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