Edição 1852 . 5 de maio de 2004

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Sem obsessão não há paixão

Divulgação


No século XVIII, o escritor francês Sébastien-Roch Nicolas Chamfort (1741-1794) escreveu: "Todas as paixões são exageradas e são paixões apenas porque exageram". Hoje, com a criação de máquinas capazes de flagrar o cérebro em pleno funcionamento e o avanço dos estudos sobre biologia evolucionária, a ciência vem comprovar que não havia nenhum exagero nas palavras de Chamfort. Os sintomas despertados pela paixão são arrebatadores. A lógica, a concentração e a racionalidade dão lugar à imagem da pessoa desejada. A lembrança dela volta à cabeça constantemente, mesmo contra a vontade. A obsessão é um elemento intrínseco à paixão. "O apaixonado tende a ficar focado única e exclusivamente em seu parceiro", disse a VEJA o psiquiatra americano James Leckman, da Universidade Yale e um grande especialista no assunto. Em Sex and the City, um dos seriados americanos de maior sucesso, Carrie, a personagem de Sarah Jessica Parker, amava Mr. Big, interpretado por Chris Noth (foto à dir.). Em dado momento, era tão apaixonada que só falava e pensava nele. Uma obsessão que fez com que Carrie levasse puxões de orelha das amigas Samantha, Charlotte e Miranda.

O pensamento obsessivo quanto ao ser amado é até certo ponto importante porque exclui a percepção dos defeitos do outro. Segundo os teóricos evolucionistas, essa característica facilita a perpetuação da espécie. Quem já se apaixonou sabe do que se fala aqui. No início do romance, nada nem ninguém é tão perfeito quanto o objeto da paixão. Em perfeita sintonia, os apaixonados só têm olhos um para o outro – o que barra a interferência de terceiros no relacionamento. A obsessão típica dos amantes faz com que as pessoas desenvolvam a capacidade de interpretar sinais dados pelos parceiros e, com isso, antecipar suas ações e seus desejos. E esse é o tipo de comportamento que só reforça os laços afetivos entre os apaixonados. Deliciosa é a cumplicidade implícita na troca de olhares dos enamorados – obra da obsessão (saudável) de um pelo outro.

 

Vítimas famosas do transtorno
obsessivo-compulsivo

SANTO INÁCIO (1491-1556)
Antes de se converter, o nobre espanhol Inácio de Loyola era um soldado extremamente vaidoso. Durante muito tempo, o fundador da Companhia de Jesus não conseguiu se livrar da culpa pela vida fútil do passado e desenvolveu a mania de confessar sempre os mesmos pecados. "Ele começava a recordar seus pecados e, como se estivessem atados a um fio, ia pensando de pecado em pecado, e lhe parecia de novo que estava obrigado a confessá-los outra vez", relatou o biógrafo de Santo Inácio, sobre a confissão feita no mosteiro beneditino de Montserrat, nos arredores de Barcelona, em meados do século XVI

SAMUEL JOHNSON (1709-1784)
Escritor e ensaísta inglês, autor do livro Vidas dos Poetas Ingleses, só conseguia cruzar uma porta depois de cumprir um ritual complicadíssimo. Antes de passar pela soleira, Johnson tinha de dar um determinado número de passos em relação a um ponto que ele próprio estabelecia

Fotos Alexander Rodchenko/divulgação


FRANZ KAFKA (1883-1924)
O autor de A Metamorfose, O Castelo e O Processo preocupava-se excessivamente com doenças. Para que o ar circulasse, o escritor checo dormia com as janelas abertas e usava roupas leves, mesmo durante o inverno. Paradoxalmente, Kafka cuidava muito pouco da própria saúde –característica típica das vítimas do transtorno obsessivo-compulsivo


VLADIMIR MAIAKOVSKI
(1893-1930)
Um dos principais representantes da poesia russa moderna, Maiakovski era acometido por rituais de limpeza. Tinha o costume de lavar as mãos várias vezes ao dia. O autor de Mistério Bufo, Os Banhos e O Percevejo era uma personalidade atormentada e acabou cometendo suicídio  

HOWARD HUGHES (1905-1976)
Com cerca de 50 anos, o magnata americano, amante de beldades como Katharine Hepburn, Lana Turner e Ava Gardner, começou a apresentar os primeiros sinais de seu medo obsessivo de ser contaminado por vírus e bactérias. Aos poucos Hughes foi se isolando numa redoma de assepsia, onde se julgava protegido das impurezas do "mundo lá fora". Seu carro era revestido de filtro antigermes. As salas e quartos de sua mansão passavam diariamente por um minucioso processo de limpeza. O pavor de Hughes era tanto que, em 1953, ele vendeu sua empresa de aviação e fundou o Howard Hughes Medical Institute, um dos maiores centros de pesquisas médicas do mundo. Morreu aos 70 anos sozinho e desnutrido

KURT GÖDEL (1906-1978)
Desde criança, um dos mais importantes matemáticos do século XX e o melhor amigo de Albert Einstein tinha pavor de ficar doente. Vivia metido em pesados casacos de lã até dentro de casa, mesmo durante o verão. Tal qual sua mãe fazia, a mulher de Gödel o tratava como um menino frágil. Depois que ela morreu, o matemático austríaco parou de comer com medo de ser contaminado pela comida

GLENN GOULD (1932-1982)
O pianista canadense, um dos mais revolucionários intérpretes de Bach, tinha pavor de ser infectado por vírus e bactérias. Por causa disso, evitava o contato humano e estava sempre de luvas, boné e cachecol. No auge da carreira, em 1964, a doença o afastou definitivamente dos palcos


Fontes: Márcio Versiani, Maria Conceição Rosário Campos,
Eurípedes Miguel e José Del Porto, psiquiatras,
e padre Luís Corrêa Lima, historiador

 

 
 
 
 
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