Edição 1852 . 5 de maio de 2004

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Especial

 
Pedro Rubens

"Em meados de 1997, quando eu já sofria de transtorno obsessivo-compulsivo, fui viajar – uma espécie de lua-de-mel em Londres, para tentar recuperar o casamento (com o cantor Paulo Ricardo). Durante a viagem, eu me senti muito esquisita, meio lunática. Estranhava o meu próprio corpo. Quando voltei para o Rio de Janeiro, estava grávida. Era tudo o que eu não queria. O casamento tinha realmente acabado, estava muito deprimida, queria ir para São Paulo estudar teatro, cuidar da minha profissão. Em outra época, a notícia do bebê teria sido a melhor coisa do mundo. Tempos antes eu havia desenvolvido rituais para tomar banho e sair de casa, e nesse momento fui acometida por um outro tipo de obsessão – agora, em relação à comida. Se o prato chegasse e eu estivesse com um pensamento ruim, eu simplesmente não comia. Comecei a emagrecer muito. Perdi o filho no segundo mês de gravidez. No hospital, tive uma crise de pânico. Sentia muito medo. Passei a acreditar que os meus pensamentos tinham matado o bebê. Chorava de ódio de mim mesma, porque eu não tinha mais controle sobre mim. A pior fase foi entre 1999 e 2000. Eram tantas manias, que nada me aliviava. Até que, um dia, fiquei muito enjoada e vomitei. Senti um alívio tão grande que passei a forçar o vômito. Tornei-me bulímica. Chegava a vomitar oito vezes por dia. Eu sabia que aquilo estava me fazendo mal. Mesmo assim, não conseguia me segurar. Decidi parar de comer para evitar os vômitos. Li muito sobre anorexia, mas não me identificava com a doença. Eu não havia parado de comer para ficar magra. A nossa mente pode ser uma grande fonte de perigo. Ela nos leva a lugares que nunca pudemos imaginar. Em julho, completo dois anos de tratamento. Nesse período, já senti muita vontade de voltar a fazer coisas repetitivas, como lavar as mãos muitas vezes. Mas hoje consigo controlar esses sintomas"
Luciana Vendramini,
32 anos, atriz

 

"Que nada de mau aconteça
a meus pais. Que nada..."

Valdiney Santos, 32 anos, vendedor

 
Fotos Claudio Rossi

"Aos 6 anos, comecei a ter medo de que algo de ruim pudesse acontecer a meus pais. Aos 14 anos, o medo transformou-se em pavor. Ficava seguindo meus pais pela casa, com o olhar. Minha mãe percebeu que aquilo não era normal e me levou ao médico. Recebi o diagnóstico errado de esquizofrenia, fui medicado e melhorei um pouco. Aos 17 anos, as manias voltaram com muita força. Qualquer notícia ruim que via na televisão, ouvia no rádio, lia no jornal ou que me contavam deflagrava em mim uma série de pensamentos catastróficos. Para me livrar deles, inventava frases e as repetia mentalmente inúmeras vezes: 'Que nada de mau aconteça a meus pais. Que nada de mau aconteça a meus pais. Que nada de mau aconteça a meus pais...' Com o tempo, as frases ficaram mais complexas. Sentia muita raiva de mim: sabia que nada daquilo fazia sentido, mas não conseguia me conter. A doença afetou meu desempenho escolar. Era difícil eu me concentrar. Assim que terminava de ler uma frase, tinha de voltar ao início dela para me certificar de que havia compreendido o significado corretamente. Ia e voltava vinte, trinta vezes... Tinha mania para tudo, em todos os momentos, em todos os lugares. Obrigava-me a verificar se as portas e janelas da casa estavam bem fechadas. No fim do dia, eu havia checado cada uma cerca de 200 vezes. Por causa da doença, nunca consegui ter um relacionamento amoroso mais duradouro. Em 1994, comecei um novo tratamento. Já melhorei muito, mas continuo com a compulsão de seguir meus pais com o olhar. Sei que ainda tenho muitas barreiras a vencer, mas não perdi a esperança"

 

"É impossível parar"

Denise Legg, 44 anos, professora

 

"O tormento começou aos 12 anos, quando minha avó morreu e eu me culpei por não estar ao lado dela. Minha primeira mania: toda vez que passava pela imagem de um santo que tinha em casa, tinha de tocá-la e me benzer. Se eu não cumprisse esse ritual, tinha certeza de que, quando eu completasse 15 anos, minha mãe morreria. Todos os anos, como nada de ruim acontecia, eu estipulava uma nova idade para a suposta catástrofe. Fui assim até o 38º aniversário. Logo depois que minha avó morreu, vi um filme de terror em que os filhos do diabo tinham o número 6 tatuado no braço. Desde então, tenho pavor do número 6. Eu sou compelida a realizar uma determinada tarefa inúmeras vezes. Do contrário, sinto que as pessoas que amo podem sofrer algum mal. Todas as noites, antes de dormir, tenho de cumprir um ritual que leva até três horas. Eu deito, imediatamente me levanto e vou ao banheiro. Na volta para o quarto, tenho de tocar na imagem de Jesus Cristo pendurada no corredor. Antes de me deitar novamente, encosto em cada um dos santos que tenho no quarto. Ao todo, são quase trinta imagens. Deito e pego o "santinho" que guardo debaixo do travesseiro e me benzo três vezes. Bebo um gole d'água e vou dormir. Levanto da cama e repito todo o ritual, no mínimo, três vezes. Já aconteceu de eu repetir esse ritual 21 vezes. É como uma avalanche. Quando começa, é impossível parar. A angústia de não fazer o que minha mente pede – por mais ilógico que seja – é pior do que repetir as ações sem parar. Demorei trinta anos para começar um tratamento. Já estou melhor, mas sei que não há cura. Torço para um dia conseguir me controlar completamente"

 

"Tudo tinha de ser simétrico. Tudo"

André de Luca Pereira, 23 anos, engenheiro eletrônico

 

"Comecei a ter dificuldade para dormir entre a infância e a adolescência. À noite, minha mente era tomada pelo pensamento de que se eu não fosse ao quarto da minha mãe ela morreria no dia seguinte. Ficava muito angustiado. Quanto mais me preocupava, outros medos começavam a se manifestar. Caso não cumprisse determinadas tarefas, eu repetiria de ano na escola, meu time não ganharia... No auge da doença, por volta dos 15 anos, os rituais levavam até quatro horas. Na volta da escola, refazia o trajeto várias vezes. Ia e voltava, ia e voltava... Também voltava atrás caso a calçada terminasse e o número de passos que tivesse dado naquele quarteirão fosse ímpar. Eu tentava resistir, mas não conseguia. Tinha muita vergonha de que alguém percebesse. Se algum amigo me acompanhava, eu voltava depois para refazer o trecho do trajeto que, na minha cabeça, não estava adequado. Em casa, ficava cada vez mais difícil disfarçar. Tinha dificuldade para ir às aulas de manhã, porque não conseguia acordar. À noite, os rituais tomavam muito tempo. Deitava na cama e começava a revisar todo o meu dia, para saber se tinha feito algo errado, que precisasse de correção. Se cismasse que sim – o que sempre acontecia –, dava um jeito de compensar. Algumas vezes, descia até a portaria do prédio, entrava e saía. Tudo tinha de ter simetria. Tudo – os passos que dava na rua com cada uma das pernas, as vezes que lavava cada lado do corpo durante o banho. Sempre soube que nada daquilo fazia sentido. Mas não ficava tranqüilo até cumprir o que eu próprio me obrigava a fazer "

 

 
 
 
 
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