|
|
Especial
Pedro Rubens
 |
"Em
meados de 1997, quando eu já sofria de transtorno
obsessivo-compulsivo, fui viajar uma espécie
de lua-de-mel em Londres, para tentar recuperar o casamento
(com o cantor Paulo Ricardo). Durante a viagem,
eu me senti muito esquisita, meio lunática. Estranhava
o meu próprio corpo. Quando voltei para o Rio
de Janeiro, estava grávida. Era tudo o que eu
não queria. O casamento tinha realmente acabado,
estava muito deprimida, queria ir para São Paulo
estudar teatro, cuidar da minha profissão. Em
outra época, a notícia do bebê teria
sido a melhor coisa do mundo. Tempos antes eu havia
desenvolvido rituais para tomar banho e sair de casa,
e nesse momento fui acometida por um outro tipo de obsessão
agora, em relação à comida.
Se o prato chegasse e eu estivesse com um pensamento
ruim, eu simplesmente não comia. Comecei a emagrecer
muito. Perdi o filho no segundo mês de gravidez.
No hospital, tive uma crise de pânico. Sentia
muito medo. Passei a acreditar que os meus pensamentos
tinham matado o bebê. Chorava de ódio de
mim mesma, porque eu não tinha mais controle
sobre mim. A pior fase foi entre 1999 e
2000. Eram tantas manias, que nada me aliviava. Até
que, um dia, fiquei muito enjoada e vomitei. Senti um
alívio tão grande que passei a forçar
o
vômito. Tornei-me bulímica. Chegava a vomitar
oito vezes por dia. Eu sabia que aquilo estava me fazendo
mal. Mesmo assim, não conseguia me segurar. Decidi
parar de comer para evitar os vômitos. Li muito
sobre anorexia, mas não me identificava com a
doença. Eu não havia parado de comer para
ficar magra. A nossa mente pode ser uma grande fonte
de perigo. Ela nos leva a lugares que nunca pudemos
imaginar. Em julho, completo dois anos de tratamento.
Nesse período, já senti muita vontade
de voltar a fazer coisas repetitivas,
como lavar as mãos muitas vezes. Mas hoje consigo
controlar esses
sintomas"
Luciana
Vendramini,
32
anos, atriz
|
|
|
"Que
nada de mau aconteça
a meus pais. Que nada..."
Valdiney
Santos, 32 anos, vendedor
Fotos Claudio Rossi
 |
"Aos
6 anos, comecei a ter medo de que algo de ruim pudesse
acontecer a meus pais. Aos 14 anos, o medo transformou-se
em pavor. Ficava seguindo meus pais pela casa, com o
olhar. Minha mãe percebeu que aquilo não
era normal e me levou ao médico. Recebi o diagnóstico
errado de esquizofrenia, fui medicado e melhorei um
pouco. Aos 17 anos, as manias voltaram com muita força.
Qualquer notícia ruim que via na televisão,
ouvia no rádio, lia no jornal ou que me contavam
deflagrava em mim uma série de pensamentos catastróficos.
Para me livrar deles, inventava frases e as repetia
mentalmente inúmeras vezes: 'Que nada de mau
aconteça a meus pais. Que nada de mau aconteça
a meus pais. Que nada de mau aconteça a meus
pais...' Com o tempo, as frases ficaram mais complexas.
Sentia muita raiva de mim: sabia que nada daquilo fazia
sentido, mas não conseguia me conter. A doença
afetou meu desempenho escolar. Era difícil eu
me concentrar. Assim que terminava de ler uma frase,
tinha de voltar ao início dela para me certificar
de que havia compreendido o significado corretamente.
Ia e voltava vinte, trinta vezes... Tinha mania para
tudo, em todos os momentos, em todos os lugares. Obrigava-me
a verificar se as portas e janelas da casa estavam bem
fechadas. No fim do dia, eu havia checado cada uma cerca
de 200 vezes. Por causa da doença, nunca consegui
ter um relacionamento amoroso mais duradouro. Em 1994,
comecei um novo tratamento. Já melhorei muito,
mas continuo com a compulsão de seguir meus pais
com o olhar. Sei que ainda tenho muitas barreiras a
vencer, mas não perdi a esperança"
|
|
|
"É
impossível parar"
Denise
Legg, 44 anos, professora
 |
"O
tormento começou aos 12 anos, quando minha avó
morreu e eu me culpei por não estar ao lado dela.
Minha primeira mania: toda vez que passava pela imagem
de um santo que tinha em casa, tinha de tocá-la
e me benzer. Se eu não cumprisse esse ritual,
tinha certeza de que, quando eu completasse 15 anos,
minha mãe morreria. Todos os anos, como nada
de ruim acontecia, eu estipulava uma nova idade para
a suposta catástrofe. Fui assim até o
38º aniversário. Logo depois que minha avó
morreu, vi um filme de terror em que os filhos do diabo
tinham o número 6 tatuado no braço. Desde
então, tenho pavor do número 6. Eu sou
compelida a
realizar uma determinada tarefa inúmeras vezes.
Do contrário, sinto que as pessoas que amo podem
sofrer algum mal. Todas as noites, antes de dormir,
tenho de cumprir um ritual que leva até três
horas. Eu deito, imediatamente me levanto e vou ao banheiro.
Na volta para o quarto, tenho de tocar na imagem de
Jesus Cristo pendurada no corredor. Antes de me deitar
novamente, encosto em cada um dos santos que tenho no
quarto. Ao todo, são quase trinta imagens. Deito
e pego o "santinho" que guardo debaixo do travesseiro
e me benzo três vezes. Bebo um gole d'água
e vou dormir. Levanto da cama e repito todo o ritual,
no mínimo, três vezes. Já aconteceu
de eu repetir esse ritual 21 vezes. É como uma
avalanche. Quando começa, é impossível
parar. A angústia de não fazer o que minha
mente pede por mais ilógico que seja
é pior do que repetir as ações
sem parar. Demorei trinta anos para começar um
tratamento. Já estou melhor, mas sei que não
há cura. Torço para um dia conseguir me
controlar completamente"
|
|
|
"Tudo
tinha de ser simétrico. Tudo"
André
de Luca Pereira, 23 anos, engenheiro eletrônico
 |
"Comecei
a ter dificuldade para dormir entre a infância
e a adolescência. À noite, minha mente
era tomada pelo pensamento de que se eu não fosse
ao quarto da minha mãe ela morreria no dia seguinte.
Ficava muito angustiado. Quanto mais me preocupava,
outros medos começavam a se manifestar. Caso
não cumprisse determinadas tarefas, eu repetiria
de ano na escola, meu time não ganharia... No
auge da doença, por volta dos 15 anos, os rituais
levavam até quatro horas. Na volta da escola,
refazia o trajeto várias vezes. Ia e voltava,
ia e voltava... Também voltava atrás caso
a calçada terminasse e o número de passos
que tivesse dado naquele quarteirão fosse ímpar.
Eu tentava resistir, mas não conseguia. Tinha
muita vergonha de que alguém percebesse. Se algum
amigo me acompanhava, eu voltava depois para refazer
o trecho do trajeto que, na minha cabeça, não
estava adequado. Em casa, ficava cada vez mais difícil
disfarçar. Tinha dificuldade para ir às
aulas de manhã, porque não conseguia acordar.
À noite, os rituais tomavam muito tempo. Deitava
na cama e começava a revisar todo o meu dia,
para saber se tinha feito algo errado, que precisasse
de correção. Se cismasse que sim
o que sempre acontecia , dava um jeito de compensar.
Algumas vezes, descia até a portaria do prédio,
entrava e saía. Tudo tinha de ter simetria. Tudo
os passos que dava na rua com cada uma das pernas,
as vezes que lavava cada lado do corpo durante o banho.
Sempre soube que nada daquilo fazia sentido. Mas não
ficava tranqüilo até cumprir o que eu próprio
me obrigava a fazer "
|
|

|