Edição 1852 . 5 de maio de 2004

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Meio ambiente
Economia verde
no vermelho

A Alemanha, o país ecologicamente
correto, descobre que
sua política
ambiental
paralisa a economia


José Eduardo Barella


AFP
Cata-ventos na paisagem germânica: caros e ineficientes

A Alemanha, como se sabe, é um exemplo de devoção à causa ambientalista. A consciência ecológica dos alemães abriu caminho para a ascensão do Partido Verde, que hoje integra o governo de coalizão com os social-democratas, e a adoção de uma legislação duríssima para proteger a natureza. Também foram oferecidas vantagens para a indústria investir em produtos e processos que não agridam o meio ambiente. Hoje, 65% do lixo é reciclado e os imensos cata-ventos que produzem energia elétrica foram incorporados à paisagem. O problema é que a política ambiental alemã, com seu dogmatismo extremado e seus generosos subsídios, está devorando os recursos do Estado – ameaçando paralisar a maior economia da Europa. Só para subvencionar a reciclagem de lixo e programas de energia alternativa, o governo gasta 3,5 bilhões de dólares por ano. O país já discute se essa dinheirama não deveria ser direcionada para reaquecer outros setores da economia, estagnada há dez anos. Além disso, empresários reclamam que o excesso de leis ambientais prejudica a produtividade industrial.

O primeiro-ministro Gerhard Schroeder teme o desgaste político, incluindo a retirada do apoio dos aliados verdes, caso ceda às pressões por mudanças. A expectativa era que o apoio à chamada indústria verde pudesse gerar empregos e abrir mercados no exterior. Mas uma sucessão de erros acabou gerando distorções. O programa de reciclagem de lixo, por exemplo, é o mais caro do mundo. O governo torrou 23,7 bilhões de dólares na criação de uma estatal para gerir o sistema e divulgar à população como separar o lixo para a coleta. A estatal virou cabide de empregos e é acusada de ineficiência. Estudos do próprio governo concluíram que incinerar alguns tipos de plástico é três vezes mais barato do que reciclá-lo e causa menos prejuízos à natureza. A direção da estatal, porém, não admite fazer mudanças. Para efeito de comparação, o governo inglês gasta 180 milhões de dólares por ano com as 300 empresas que coletam e reciclam o lixo do país.

Outra distorção ocorreu com o investimento maciço em formas "limpas" de energia, como a eólica (gerada pelos ventos) e a solar. A intenção era usá-las como substitutas das usinas nucleares, responsáveis por 30% do consumo de eletricidade no país e que serão desativadas em vinte anos. O governo destina 1,2 bilhão de dólares anuais em subsídios para aquecer a indústria ligada ao setor de energia eólica. Além disso, uma lei federal obriga as empresas de energia a comprar toda a produção do setor e a pagar uma taxa 2,5 vezes acima da média de mercado. Como os cata-ventos geram apenas 5% da energia elétrica alemã, os benefícios são discutíveis. Não bastassem os prejuízos, alguns grupos ecológicos apontam várias restrições ao equipamento: eles atrapalham a migração de pássaros, são barulhentos e causam poluição visual. O lobby para mexer na política ambiental também ganhou apoio de dois Estados agrícolas, Mecklenburg e Saxônia-Anhalt. Eles querem abrir mão da agricultura orgânica e plantar sementes geneticamente modificadas para melhorar sua produtividade e obter mais lucros. Os verdes tremem diante da idéia.

 
 
 
 
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