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Terrorismo
Ninguém
está a salvo

Diogo
Schelp
"Quem
vai defender vocês dos automóveis e aviões da
morte?" Essa ameaça consta da mensagem na qual terroristas
islâmicos assumiram a matança de 11 de março
nos trens de Madri. A Europa, os Estados Unidos e a maioria dos
demais países ainda procuram a resposta. Todos concordam
que os terroristas têm de ser impedidos de agir e que não
se podem deixar brechas para novos ataques. A questão é
como combater essa ameaça brutal sem abrir mão dos
princípios de liberdade e dos direitos civis que sustentam
a democracia. O certo é que o estado de prontidão
exigido pela ameaça de atentados vai tornar mais difícil
a vida de todos nós. Não há como fugir de tal
efeito colateral, pois ninguém pode se considerar a salvo
do terror. Já não se pergunta se haverá um
novo ataque. O que os serviços de inteligência de todo
o mundo procuram saber é quando e como isso vai ocorrer.
Os
sistemas de segurança em prédios, transportes públicos
e nas fronteiras estão sendo intensificados na maioria dos
países, inclusive no Brasil. Em Londres, Paris e em outras
capitais européias, esquadrões antiterror patrulham
as estações de metrô e trem. A cada vez que
se encontram pacotes suspeitos nas plataformas, o transporte pára
de operar por alguns momentos. Na semana passada, os 400 hóspedes
de um hotel em Berlim foram retirados do prédio depois de
uma suspeita falsa de atentado a bomba. Por toda a parte, procuram-se
instrumentos que permitam evitar atentados e também se elaboram
planos de contingência para amenizar as conseqüências.
Na Rússia, policiais estão sendo treinados para atuar
como seguranças armados de vôo. Em março, o
governo da Austrália avisou aos outros países da Oceania
que não irá permitir mais a entrada de aviões
em seu espaço aéreo provenientes de aeroportos que
não adotem um bom sistema de segurança
Desde
o ano passado, todos os aviões de passageiros em operação
na Europa e nos Estados Unidos precisam ter portas blindadas que
protejam a cabine dos pilotos, para evitar que seja invadida por
seqüestradores. A regra também vale para empresas aéreas
brasileiras que realizam vôos internacionais. A empresa El
Al, de Israel, equipou os vinte aviões de sua frota com sistemas
que protegem de ataques com mísseis depois que uma aeronave
quase foi atingida por um míssil no Quênia, em 2002.
Nos Estados Unidos, o governo gastou 13 bilhões de dólares
em um programa nacional de combate ao terrorismo que inclui o treinamento
de equipes de emergência para defender a população
de bombas químicas ou biológicas. Os bombeiros receberam
equipamentos especiais que incluem uma roupa de proteção
total e tendas desmontáveis onde são instalados chuveiros
para descontaminação. Até cidades pequenas,
que normalmente não são o alvo principal de terroristas,
entraram no programa. O medo está em toda parte. E há
bons motivos para tomar precauções. É dado
como certo que a Al Qaeda tentou adquirir armas de destruição
em massa na década de 90. No mês passado, o governo
da Jordânia anunciou a prisão de um grupo de terroristas,
ligado à Al Qaeda, que pretendia explodir uma bomba química
no centro da capital, Amã.
Os
atentados de 11 de setembro de 2001, em Nova York, deram forma a
um novo "império do mal". Essa expressão, usada pelo
presidente americano Ronald Reagan para descrever a União
Soviética nos estertores da Guerra Fria, é apropriada
ao perigo representado agora pelo terrorismo islâmico. De
certa forma, o fanatismo muçulmano é mais letal em
seu ataque à democracia do que foi o bicho-papão vermelho.
No período da Guerra Fria, cada lado do conflito sabia de
tudo o que era possível saber sobre o inimigo. Era conhecido
quantas ogivas nucleares cada potência mantinha apontadas
uma para a outra e havia certo controle sobre o número de
agentes da KGB ou da CIA espalhados pelo globo. A capacidade de
destruição mútua servia para dissuadir o inimigo
de qualquer aventura belicosa. Não há como dissuadir
um fanático religioso cujo principal objetivo é o
de morrer em meio à chacina de infiéis.
Os
terroristas modernos também são difíceis de
combater porque não costumam ser representados por uma nação
específica. O Afeganistão foi o último Estado
a patrocinar escancaradamente o terrorismo. O regime do Talibã
dava abrigo à Al Qaeda, a organização responsável
pelos atentados ao World Trade Center. Desde a derrocada do regime
afegão por forças americanas, no fim de 2001, Osama
bin Laden perdeu dois terços de seus colaboradores mais próximos.
O terrorismo islâmico, em vez de se enfraquecer com essas
baixas, é cada vez mais ameaçador, porque se tornou
um movimento global formado por redes e organizações
que operam de forma independente. Bin Laden serve agora sobretudo
como fonte de inspiração para a Guerra Santa, provavelmente
sem controle direto da maioria dos ataques cometidos em seu nome.
O caráter descentralizado faz com que seja quase impossível
monitorar e combater integralmente os terroristas do século
XXI. Eles estão infiltrados há muito tempo nas sociedades
que são vítimas potenciais de suas ações.
São advogados, bancários, estudantes, engenheiros
de computação ou operários muçulmanos
que têm em comum a convicção de que o martírio
é uma forma de purificação espiritual e quem
não compartilha de suas convicções religiosas
deve morrer. Esses guerreiros dormentes, que representam uma minoria
nas comunidades islâmicas, podem ser acionados a qualquer
momento ao comando do líder.
Os
terroristas se valem dos pontos mais vulneráveis da sociedade
ocidental para atacar: a liberdade individual, a facilidade de locomoção
e o acesso aos meios de comunicação. Por isso, essas
conquistas modernas são as primeiras a ser afetadas pelas
medidas de combate ao terror adotadas pelos Estados Unidos e, agora,
pela Europa. Isso já está ocorrendo. Nos EUA, o princípio
de que toda pessoa suspeita deve ter direito a uma defesa justa
vem sendo sistematicamente ignorado. Que o diga José Padilla,
um muçulmano convertido de origem porto-riquenha nascido
nos Estados Unidos que foi preso em maio de 2002 suspeito de planejar
um ataque com bombas radioativas. Sem julgamento, ele ficou 21 meses
sem nenhum contato com o mundo exterior. Só há dois
meses teve direito a receber a visita de advogados.
Não
é preciso ser suspeito de crime algum para sentir os efeitos
colaterais do combate preventivo ao terror. A liberdade de ir e
vir é uma das conquistas democráticas mais afetadas.
O governo americano anunciou que a partir de setembro os cidadãos
de 27 países desenvolvidos como Inglaterra, Austrália
e Japão passarão a receber o mesmo tratamento
destinado desde janeiro aos visitantes do Terceiro Mundo nos aeroportos
americanos: serão fotografados e terão as impressões
digitais coletadas e arquivadas em um banco de dados. Americanos
e europeus também planejam instalar ainda neste ano um sistema
computadorizado que cruzará os dados de todas as pessoas
que fizerem reservas de passagem aérea. O objetivo é
identificar suspeitos e impedi-los de embarcar nos aviões.
Apesar de polêmica, é uma medida que ajudaria a reduzir
os riscos em um dos pontos mais vulneráveis. E os europeus
parecem não estar dispostos a correr mais riscos. Uma pesquisa
realizada na Alemanha pela revista Der Spiegel concluiu que
dois terços dos entrevistados aceitam abdicar de uma parcela
de sua privacidade em favor do combate ao terror. O fanatismo islâmico
já conseguiu transformar o mundo num lugar sombrio, mais
parecido com o califado do medo que Osama bin Laden sonha impor
à humanidade.
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AS
VÍTIMAS BRASILEIRAS DO TERROR
Firdia Lisnawati/AO
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EM
MISSÃO DE PAZ DA ONU
Em agosto de 2003, Sérgio Vieira
de Mello morreu ajudando a reconstruir o Iraque
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É
comum ouvir que o Brasil é um país de
sorte, pois aqui não há ataques terroristas.
É fantasia imaginar que estejamos a salvo. Desde
11 de setembro de 2001, pelo menos oito brasileiros
foram mortos em ataques terroristas de grandes proporções
no exterior. O último deles foi o paranaense
Sérgio dos Santos Silva, de 27 anos, dilacerado
pelas bombas que mataram duas centenas de pessoas em
Madri, em 11 de março. Silva estava na Espanha
havia cinco meses, trabalhando como mestre-de-obras.
Pretendia ficar no exterior até o fim do ano
para juntar o suficiente para comprar um casa em São
Tomé, cidade de 5 000 habitantes, onde havia
deixado a mulher, Sara, 21 anos, e o filho Miquéias,
de 4. Como explicar ao menino que o pai foi assassinado
longe de casa por fanáticos movidos por furor
religioso? "Cada vez que passava um avião, o
menino apontava e dizia 'Mamãe, vou assobiar
para o papai me ver aqui embaixo'", conta Isabel Alves,
sogra de Silva.
Álbum de família
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Celso Junior/AE
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SEM
CONHECER O FILHO
Alexandre Watake foi morto no atentado que matou
200 pessoas em Bali, em 2002. Ele morreu aos 33
anos, pouco antes de voltar ao Brasil para conhecer
o filho |
DE
LONDRES PARA NOVA YORK
A paulista Anne Marie Ferreira morreu aos 29 anos
no World Trade Center. Anne, que tinha morado em
Londres, estava há poucos meses em Nova York
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As
mortes lamentáveis e injustificadas mostram que
é ingênua a idéia de que o Brasil
pode ficar de fora da guerra ao terror. Quatro brasileiros
morreram nas torres gêmeas do World Trade Center,
em 11 de setembro de 2001. A mineira Sandra Fajardo
Smith, morta aos 37 anos, vivendo nos Estados Unidos
desde 1991, era contadora na corretora Marsh Inc., no
98º andar. Os paulistas Ivan Kyrillos Barbosa,
morto aos 30 anos, e Anne Marie Ferreira, de 29, trabalhavam
na corretora Cantor Fitzgerald, no 105º andar.
Ivan Barbosa havia sido contratado dois anos antes,
quando se mudou para Nova York com a mulher, Valéria.
Anne tinha conseguido o emprego poucos meses antes,
ao trocar Londres por Nova York, com o marido, Alexandre.
A família de Ivan Barbosa ainda não superou
a perda. "Passados mais de dois anos, continuo com medo
de aglomerados, fico imaginando que podemos ser alvos
de um ataque", diz o médico Ivan Barbosa, pai
de Ivan Kyrillos Barbosa. O engenheiro capixaba Nilton
Fernão Cunha, que morreu aos 41 anos, estava
no prédio por acaso. Ele havia ido ao WTC para
tratar de negócios com uma empresa japonesa no
108º andar. Cunha era despachante de importações
e sempre viajava para os Estados Unidos a trabalho.
Reprodução AE
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Álbum de família
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RUMO
AO TRABALHO
O paranaense Sérgio dos Santos Silva foi
morto quando ia para o trabalho em Madri. Tinha
27 anos |
CARREIRA
NO EXTERIOR
Sandra Fajardo Smith começou a trabalhar
como garçonete, estudou e conseguiu emprego
em uma corretora no WTC. Tinha 37 anos |
Não
se pode dizer que os mortos eram brasileiros que, por
azar, estavam no lugar errado na hora errada. Isso não
existe. Eles exerciam o direito de viver, passear e
buscar livremente uma vida melhor longe de casa e só
morreram por que está em curso uma ofensiva de
morte contra valores que os brasileiros compartilham
com outros povos igualmente vítimas do terror.
A democracia e a liberdade de escolher como viver ou
qual religião seguir. O paulista Alexandre Watake,
massagista, e o gaúcho Marco Antônio Farias,
sargento do Exército, foram mortos no ataque
que devastou bares no balneário de Bali, na Indonésia,
em outubro de 2002, em que morreram 200 pessoas. Watake,
que morreu aos 33 anos, deixou o Brasil em 2001, com
a mulher grávida, Mônica. "Ele queria juntar
dinheiro para acabar a faculdade de direito e ajudar
a criar nosso filho", diz a viúva. Ele trabalhou
como massagista no Japão durante um ano e meio
e, de lá, foi dar aulas de shiatsu num resort
em Bali, onde deveria ficar apenas dois meses. "Faltavam
apenas duas semanas para ele voltar ao Brasil e conhecer
o filho", conta Mônica.
Álbum de família
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RETORNO
AO BRASIL
Ivan Kyrillos Barbosa trabalhava no 105º
andar do WTC. Pretendia voltar a São Paulo
com a mulher em dois anos |
O sargento Marco Antônio Farias tinha 24 anos
e era estudante de física da Universidade do
Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), no Rio Grande do Sul.
Quatro meses antes de morrer, deixou a faculdade e a
namorada, Aline da Silva Moura, de 25 anos, para servir
nas forças de paz da ONU no Timor Leste. No momento
do atentado, estava de folga em Bali. "Às vezes
tenho a sensação de que ele vai voltar
a qualquer momento, é muito difícil acreditar
no que aconteceu", diz Aline. O brasileiro mais conhecido
morto pelo terror foi Sérgio Vieira de Mello,
chefe da representação das Nações
Unidas no Iraque. Um caminhão-bomba lançado
contra a sede da missão diplomática da
ONU em Bagdá em agosto de 2003 matou o brasileiro,
aos 55 anos, e outras 22 pessoas. Nos dois últimos
meses de vida, Vieira de Mello ajudou a melhorar a vida
dos iraquianos. Entre 1999 e 2002, ele praticamente
criou do zero as instituições de um novo
país, o Timor Leste. Era chefe do Alto Comissariado
de Direitos Humanos, com sede em Genebra, quando foi
convocado pelo secretário-geral Kofi Annan
a quem tinha boas chances de um dia substituir como
secretário-geral e foi para Bagdá
com a namorada, a argentina Carolina Larriera, de 30
anos. Depois da tragédia, a mãe de Vieira
de Mello, Gilda, de 84 anos, parou de acompanhar o noticiário.
A irmã, Sônia, entrou em depressão.
O sobrinho, André Simões, começou
a resgatar e a analisar todos os discursos de Vieira
de Mello. "Cresci ouvindo histórias de meu tio
sobre as viagens que fazia pelo mundo enfrentando situações
de perigo para ajudar as pessoas", diz ele.
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