Edição 1852 . 5 de maio de 2004

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Terrorismo
Ninguém está a salvo


Diogo Schelp


O avião à prova de terroristas
Em Profundidade:
Terror Internacional

"Quem vai defender vocês dos automóveis e aviões da morte?" Essa ameaça consta da mensagem na qual terroristas islâmicos assumiram a matança de 11 de março nos trens de Madri. A Europa, os Estados Unidos e a maioria dos demais países ainda procuram a resposta. Todos concordam que os terroristas têm de ser impedidos de agir e que não se podem deixar brechas para novos ataques. A questão é como combater essa ameaça brutal sem abrir mão dos princípios de liberdade e dos direitos civis que sustentam a democracia. O certo é que o estado de prontidão exigido pela ameaça de atentados vai tornar mais difícil a vida de todos nós. Não há como fugir de tal efeito colateral, pois ninguém pode se considerar a salvo do terror. Já não se pergunta se haverá um novo ataque. O que os serviços de inteligência de todo o mundo procuram saber é quando e como isso vai ocorrer.

Os sistemas de segurança em prédios, transportes públicos e nas fronteiras estão sendo intensificados na maioria dos países, inclusive no Brasil. Em Londres, Paris e em outras capitais européias, esquadrões antiterror patrulham as estações de metrô e trem. A cada vez que se encontram pacotes suspeitos nas plataformas, o transporte pára de operar por alguns momentos. Na semana passada, os 400 hóspedes de um hotel em Berlim foram retirados do prédio depois de uma suspeita falsa de atentado a bomba. Por toda a parte, procuram-se instrumentos que permitam evitar atentados e também se elaboram planos de contingência para amenizar as conseqüências. Na Rússia, policiais estão sendo treinados para atuar como seguranças armados de vôo. Em março, o governo da Austrália avisou aos outros países da Oceania que não irá permitir mais a entrada de aviões em seu espaço aéreo provenientes de aeroportos que não adotem um bom sistema de segurança

Desde o ano passado, todos os aviões de passageiros em operação na Europa e nos Estados Unidos precisam ter portas blindadas que protejam a cabine dos pilotos, para evitar que seja invadida por seqüestradores. A regra também vale para empresas aéreas brasileiras que realizam vôos internacionais. A empresa El Al, de Israel, equipou os vinte aviões de sua frota com sistemas que protegem de ataques com mísseis depois que uma aeronave quase foi atingida por um míssil no Quênia, em 2002. Nos Estados Unidos, o governo gastou 13 bilhões de dólares em um programa nacional de combate ao terrorismo que inclui o treinamento de equipes de emergência para defender a população de bombas químicas ou biológicas. Os bombeiros receberam equipamentos especiais que incluem uma roupa de proteção total e tendas desmontáveis onde são instalados chuveiros para descontaminação. Até cidades pequenas, que normalmente não são o alvo principal de terroristas, entraram no programa. O medo está em toda parte. E há bons motivos para tomar precauções. É dado como certo que a Al Qaeda tentou adquirir armas de destruição em massa na década de 90. No mês passado, o governo da Jordânia anunciou a prisão de um grupo de terroristas, ligado à Al Qaeda, que pretendia explodir uma bomba química no centro da capital, Amã.

Os atentados de 11 de setembro de 2001, em Nova York, deram forma a um novo "império do mal". Essa expressão, usada pelo presidente americano Ronald Reagan para descrever a União Soviética nos estertores da Guerra Fria, é apropriada ao perigo representado agora pelo terrorismo islâmico. De certa forma, o fanatismo muçulmano é mais letal em seu ataque à democracia do que foi o bicho-papão vermelho. No período da Guerra Fria, cada lado do conflito sabia de tudo o que era possível saber sobre o inimigo. Era conhecido quantas ogivas nucleares cada potência mantinha apontadas uma para a outra e havia certo controle sobre o número de agentes da KGB ou da CIA espalhados pelo globo. A capacidade de destruição mútua servia para dissuadir o inimigo de qualquer aventura belicosa. Não há como dissuadir um fanático religioso cujo principal objetivo é o de morrer em meio à chacina de infiéis.

Os terroristas modernos também são difíceis de combater porque não costumam ser representados por uma nação específica. O Afeganistão foi o último Estado a patrocinar escancaradamente o terrorismo. O regime do Talibã dava abrigo à Al Qaeda, a organização responsável pelos atentados ao World Trade Center. Desde a derrocada do regime afegão por forças americanas, no fim de 2001, Osama bin Laden perdeu dois terços de seus colaboradores mais próximos. O terrorismo islâmico, em vez de se enfraquecer com essas baixas, é cada vez mais ameaçador, porque se tornou um movimento global formado por redes e organizações que operam de forma independente. Bin Laden serve agora sobretudo como fonte de inspiração para a Guerra Santa, provavelmente sem controle direto da maioria dos ataques cometidos em seu nome. O caráter descentralizado faz com que seja quase impossível monitorar e combater integralmente os terroristas do século XXI. Eles estão infiltrados há muito tempo nas sociedades que são vítimas potenciais de suas ações. São advogados, bancários, estudantes, engenheiros de computação ou operários muçulmanos que têm em comum a convicção de que o martírio é uma forma de purificação espiritual e quem não compartilha de suas convicções religiosas deve morrer. Esses guerreiros dormentes, que representam uma minoria nas comunidades islâmicas, podem ser acionados a qualquer momento ao comando do líder.

Os terroristas se valem dos pontos mais vulneráveis da sociedade ocidental para atacar: a liberdade individual, a facilidade de locomoção e o acesso aos meios de comunicação. Por isso, essas conquistas modernas são as primeiras a ser afetadas pelas medidas de combate ao terror adotadas pelos Estados Unidos e, agora, pela Europa. Isso já está ocorrendo. Nos EUA, o princípio de que toda pessoa suspeita deve ter direito a uma defesa justa vem sendo sistematicamente ignorado. Que o diga José Padilla, um muçulmano convertido de origem porto-riquenha nascido nos Estados Unidos que foi preso em maio de 2002 suspeito de planejar um ataque com bombas radioativas. Sem julgamento, ele ficou 21 meses sem nenhum contato com o mundo exterior. Só há dois meses teve direito a receber a visita de advogados.

Não é preciso ser suspeito de crime algum para sentir os efeitos colaterais do combate preventivo ao terror. A liberdade de ir e vir é uma das conquistas democráticas mais afetadas. O governo americano anunciou que a partir de setembro os cidadãos de 27 países desenvolvidos – como Inglaterra, Austrália e Japão – passarão a receber o mesmo tratamento destinado desde janeiro aos visitantes do Terceiro Mundo nos aeroportos americanos: serão fotografados e terão as impressões digitais coletadas e arquivadas em um banco de dados. Americanos e europeus também planejam instalar ainda neste ano um sistema computadorizado que cruzará os dados de todas as pessoas que fizerem reservas de passagem aérea. O objetivo é identificar suspeitos e impedi-los de embarcar nos aviões. Apesar de polêmica, é uma medida que ajudaria a reduzir os riscos em um dos pontos mais vulneráveis. E os europeus parecem não estar dispostos a correr mais riscos. Uma pesquisa realizada na Alemanha pela revista Der Spiegel concluiu que dois terços dos entrevistados aceitam abdicar de uma parcela de sua privacidade em favor do combate ao terror. O fanatismo islâmico já conseguiu transformar o mundo num lugar sombrio, mais parecido com o califado do medo que Osama bin Laden sonha impor à humanidade.

 

AS VÍTIMAS BRASILEIRAS DO TERROR

 
Firdia Lisnawati/AO
EM MISSÃO DE PAZ DA ONU
Em agosto de 2003, Sérgio Vieira de Mello morreu ajudando a reconstruir o Iraque

É comum ouvir que o Brasil é um país de sorte, pois aqui não há ataques terroristas. É fantasia imaginar que estejamos a salvo. Desde 11 de setembro de 2001, pelo menos oito brasileiros foram mortos em ataques terroristas de grandes proporções no exterior. O último deles foi o paranaense Sérgio dos Santos Silva, de 27 anos, dilacerado pelas bombas que mataram duas centenas de pessoas em Madri, em 11 de março. Silva estava na Espanha havia cinco meses, trabalhando como mestre-de-obras. Pretendia ficar no exterior até o fim do ano para juntar o suficiente para comprar um casa em São Tomé, cidade de 5 000 habitantes, onde havia deixado a mulher, Sara, 21 anos, e o filho Miquéias, de 4. Como explicar ao menino que o pai foi assassinado longe de casa por fanáticos movidos por furor religioso? "Cada vez que passava um avião, o menino apontava e dizia 'Mamãe, vou assobiar para o papai me ver aqui embaixo'", conta Isabel Alves, sogra de Silva.


Álbum de família
Celso Junior/AE
SEM CONHECER O FILHO
Alexandre Watake foi morto no atentado que matou 200 pessoas em Bali, em 2002. Ele morreu aos 33 anos, pouco antes de voltar ao Brasil para conhecer o filho
DE LONDRES PARA NOVA YORK
A paulista Anne Marie Ferreira morreu aos 29 anos no World Trade Center. Anne, que tinha morado em Londres, estava há poucos meses em Nova York

As mortes lamentáveis e injustificadas mostram que é ingênua a idéia de que o Brasil pode ficar de fora da guerra ao terror. Quatro brasileiros morreram nas torres gêmeas do World Trade Center, em 11 de setembro de 2001. A mineira Sandra Fajardo Smith, morta aos 37 anos, vivendo nos Estados Unidos desde 1991, era contadora na corretora Marsh Inc., no 98º andar. Os paulistas Ivan Kyrillos Barbosa, morto aos 30 anos, e Anne Marie Ferreira, de 29, trabalhavam na corretora Cantor Fitzgerald, no 105º andar. Ivan Barbosa havia sido contratado dois anos antes, quando se mudou para Nova York com a mulher, Valéria. Anne tinha conseguido o emprego poucos meses antes, ao trocar Londres por Nova York, com o marido, Alexandre. A família de Ivan Barbosa ainda não superou a perda. "Passados mais de dois anos, continuo com medo de aglomerados, fico imaginando que podemos ser alvos de um ataque", diz o médico Ivan Barbosa, pai de Ivan Kyrillos Barbosa. O engenheiro capixaba Nilton Fernão Cunha, que morreu aos 41 anos, estava no prédio por acaso. Ele havia ido ao WTC para tratar de negócios com uma empresa japonesa no 108º andar. Cunha era despachante de importações e sempre viajava para os Estados Unidos a trabalho.


Reprodução AE
Álbum de família
RUMO AO TRABALHO
O paranaense Sérgio dos Santos Silva foi morto quando ia para o trabalho em Madri. Tinha 27 anos
CARREIRA NO EXTERIOR
Sandra Fajardo Smith começou a trabalhar como garçonete, estudou e conseguiu emprego em uma corretora no WTC. Tinha 37 anos

Não se pode dizer que os mortos eram brasileiros que, por azar, estavam no lugar errado na hora errada. Isso não existe. Eles exerciam o direito de viver, passear e buscar livremente uma vida melhor longe de casa e só morreram por que está em curso uma ofensiva de morte contra valores que os brasileiros compartilham com outros povos igualmente vítimas do terror. A democracia e a liberdade de escolher como viver ou qual religião seguir. O paulista Alexandre Watake, massagista, e o gaúcho Marco Antônio Farias, sargento do Exército, foram mortos no ataque que devastou bares no balneário de Bali, na Indonésia, em outubro de 2002, em que morreram 200 pessoas. Watake, que morreu aos 33 anos, deixou o Brasil em 2001, com a mulher grávida, Mônica. "Ele queria juntar dinheiro para acabar a faculdade de direito e ajudar a criar nosso filho", diz a viúva. Ele trabalhou como massagista no Japão durante um ano e meio e, de lá, foi dar aulas de shiatsu num resort em Bali, onde deveria ficar apenas dois meses. "Faltavam apenas duas semanas para ele voltar ao Brasil e conhecer o filho", conta Mônica.

Álbum de família
RETORNO AO BRASIL
Ivan Kyrillos Barbosa trabalhava no 105º andar do WTC. Pretendia voltar a São Paulo com a mulher em dois anos


O sargento Marco Antônio Farias tinha 24 anos e era estudante de física da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), no Rio Grande do Sul. Quatro meses antes de morrer, deixou a faculdade e a namorada, Aline da Silva Moura, de 25 anos, para servir nas forças de paz da ONU no Timor Leste. No momento do atentado, estava de folga em Bali. "Às vezes tenho a sensação de que ele vai voltar a qualquer momento, é muito difícil acreditar no que aconteceu", diz Aline. O brasileiro mais conhecido morto pelo terror foi Sérgio Vieira de Mello, chefe da representação das Nações Unidas no Iraque. Um caminhão-bomba lançado contra a sede da missão diplomática da ONU em Bagdá em agosto de 2003 matou o brasileiro, aos 55 anos, e outras 22 pessoas. Nos dois últimos meses de vida, Vieira de Mello ajudou a melhorar a vida dos iraquianos. Entre 1999 e 2002, ele praticamente criou do zero as instituições de um novo país, o Timor Leste. Era chefe do Alto Comissariado de Direitos Humanos, com sede em Genebra, quando foi convocado pelo secretário-geral Kofi Annan – a quem tinha boas chances de um dia substituir como secretário-geral – e foi para Bagdá com a namorada, a argentina Carolina Larriera, de 30 anos. Depois da tragédia, a mãe de Vieira de Mello, Gilda, de 84 anos, parou de acompanhar o noticiário. A irmã, Sônia, entrou em depressão. O sobrinho, André Simões, começou a resgatar e a analisar todos os discursos de Vieira de Mello. "Cresci ouvindo histórias de meu tio sobre as viagens que fazia pelo mundo enfrentando situações de perigo para ajudar as pessoas", diz ele.

 

 
 
 
 
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