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História
Imagens
do Brasil que canta
Uma
esplêndida coleção de fotos que tratam
da MPB e de um país confiante e promissor

João
Gabriel de Lima
Reprodução
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CENAS
DE TIETAGEM
Chico Buarque é cercado pelas fãs em 1966.
O assédio lembra o das admiradoras de Cauby Peixoto anos
antes, que aparece em outra foto do livro |
Pode-se
contar a história americana pelo cinema, a francesa a partir
de sua literatura e a espanhola usando exemplos de sua pintura.
O Brasil, que não tem tradição em nenhuma dessas
áreas, possui apenas uma expressão cultural forte:
a música popular. É ela que faz a crônica do
país desde que Ernesto dos Santos, o Donga, gravou o primeiro
samba em território nacional, Pelo Telefone, em 1917.
Brasil, Rito e Ritmo (Aprazível Edições;
237 páginas; 180 reais), lançado na semana passada,
faz mais do que narrar, em quatro ensaios competentíssimos,
como a música popular se tornou a arte do Brasil (existe
também um quinto ensaio dedicado à música clássica).
Acima de tudo, o livro mostra como isso aconteceu. São
193 imagens garimpadas em 23 arquivos públicos, privados
e pessoais, num dos mais impressionantes conjuntos de fotos já
reunidos numa publicação do gênero. "Em outros
livros sobre o tema, dá-se muita importância ao texto,
ficando as fotos em segundo plano. Nós nos esforçamos
para mudar isso", diz o jornalista Leonel Kaz, editor de Brasil,
Rito e Ritmo. O resultado é uma obra que se lê
como quem assiste a um documentário no cinema. Não
falta nem a trilha sonora. O livro inclui dois CDs que reúnem
uma espécie de cânone da música brasileira.
Há raridades como o clássico Conversa de Botequim,
de Noel Rosa, cantado pelo próprio autor numa
das poucas vezes em que o sambista de Vila Isabel se dignou a mostrar,
na prática, o que queria dizer com o termo bossa,
popularizado por ele.
Fotos Reprodução
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Reprodução
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MENINO
DO RIO
Caetano Veloso, em 1965, recém-chegado ao Rio de Janeiro.
Na época ele não era famoso. Viera fazer companhia
à irmã, Maria Bethânia, que cantava no show
Opinião |
A
"COROAÇÃO" DO REI
Roberto Carlos praticamente inventou o rock nacional com a jovem
guarda. Na foto, ele é "coroado" por sua mãe,
"lady" Laura |
Mais
do que fotos de artistas, as imagens do livro são retratos
de épocas. Vinicius de Moraes e Tom Jobim na cobertura do
poeta, tendo como companhia discos, o pôster de uma mulher
nua e uma garrafa de vodca, formam um estandarte da boemia ipanemense.
Da mesma forma, nada é mais jovem guarda do que Roberto Carlos
sendo coroado rei pela mãe, "lady" Laura. A era do rádio
está representada pela foto de Ângela Maria, bastante
à vontade, dentro de um estúdio, falando com um ouvinte.
Algumas fotos mostram como a música popular efetivamente
tomou parte na vida do país. Um exemplo é a imagem
de um baile em homenagem a Getúlio Vargas, datada de 1941,
na qual aparece ao fundo uma enorme foto do ditador, lembrando os
clichês da propaganda nazi-fascista. Getúlio, que nos
comícios se dirigia aos "trabalhadores do Brasil", não
gostava de músicas que enaltecessem a malandragem e estimulava
os sambistas a exaltar o esforço para ganhar o pão.
Data dessa época a famosa O Bonde São Januário
("Leva mais um operário, sou eu que vou trabalhar"),
de Wilson Batista e Ataulfo Alves. Outra imagem emblemática
é a que mostra Edu Lobo, Chico Buarque, Caetano Veloso, o
hoje ministro Gilberto Gil e outros artistas protestando contra
o regime militar na famosa passeata dos Cem Mil, em 1968.
Fotos Reprodução
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ESTANDARTE
DA BOSSA NOVA
Tom Jobim e Vinicius de Moraes conversam e bebem vodca na cobertura
do poeta, no Jardim Botânico. A parceria criou vários
dos clássicos que tornaram a música brasileira
conhecida no exterior |
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TRINCA
DE ASES
Pixinguinha é um dos fundadores da música instrumental
brasileira. No retrato, ele está ao lado de Lamartine
Babo e do cantor e trompetista americano Louis Armstrong |
Uma
idéia comum perpassa os textos incluídos no livro.
A música popular teria se tornado a arte por excelência
do Brasil por ser a melhor tradução daquilo que o
país escolheu para ser a sua identidade cultural: a mestiçagem.
Durante as três primeiras décadas do século
XX o país tinha vergonha da mistura de raças. Foi
preciso que Gilberto Freyre publicasse seu Casa-Grande &
Senzala, em 1933, para que o Brasil não apenas sentisse
orgulho de ser mestiço, mas também passasse a considerar
isso o principal traço definidor da nacionalidade. Não
por acaso, foi exatamente nessa época, a década de
30, que começou a chamada "era de ouro" da MPB, com compositores
como Noel Rosa, Lamartine Babo, Pixinguinha e Ary Barroso. A maior
parte das fotos do livro, aliás, remete a dois períodos:
os anos 30/40 e os anos 60, quando explodiram os movimentos musicais
da bossa nova, jovem guarda e tropicalismo. São os dois auges
da música popular brasileira. No filme As Invasões
Bárbaras, o diretor canadense Denys Arcand lança
a tese de que há épocas em que, por razões
aleatórias, existe maior quantidade de talento e inteligência.
Essa teoria se verifica na prática na MPB, que nunca mais
atingiu o mesmo patamar de vigor e criatividade. Talvez se pudesse
acrescentar que, nessas fases de florescimento, a música
brasileira foi mais do que apenas música, e projetou para
o mundo a idéia de um país vivo, confiante, promissor.
Também por isso as fotos do livro são importantes
elas registram a vibração daqueles tempos.
Brasil, Rito e Ritmo não é uma obra passadista.
Mas, ao ver, em preto-e-branco, as imagens de Chico Buarque cercado
de fãs, Tom e Vinicius criando suas obras-primas e Roberto
Carlos inventando o rock nacional na jovem guarda, é inevitável
sentir saudade.
Reprodução
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SAPOTI
AO TELEFONE
Ângela Maria, a "Sapoti", conversa com
um ouvinte dentro dos estúdios da Rádio Nacional,
no Rio de Janeiro. A foto foi feita na década de 50 |
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