Edição 1852 . 5 de maio de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Claudio de Moura Castro
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

História
Imagens do Brasil que canta

Uma esplêndida coleção de fotos que tratam
da MPB – e de um país confiante e promissor


João Gabriel de Lima


Reprodução
CENAS DE TIETAGEM
Chico Buarque é cercado pelas fãs em 1966. O assédio lembra o das admiradoras de Cauby Peixoto anos antes, que aparece em outra foto do livro


Galeria de fotos

Pode-se contar a história americana pelo cinema, a francesa a partir de sua literatura e a espanhola usando exemplos de sua pintura. O Brasil, que não tem tradição em nenhuma dessas áreas, possui apenas uma expressão cultural forte: a música popular. É ela que faz a crônica do país desde que Ernesto dos Santos, o Donga, gravou o primeiro samba em território nacional, Pelo Telefone, em 1917. Brasil, Rito e Ritmo (Aprazível Edições; 237 páginas; 180 reais), lançado na semana passada, faz mais do que narrar, em quatro ensaios competentíssimos, como a música popular se tornou a arte do Brasil (existe também um quinto ensaio dedicado à música clássica). Acima de tudo, o livro mostra como isso aconteceu. São 193 imagens garimpadas em 23 arquivos públicos, privados e pessoais, num dos mais impressionantes conjuntos de fotos já reunidos numa publicação do gênero. "Em outros livros sobre o tema, dá-se muita importância ao texto, ficando as fotos em segundo plano. Nós nos esforçamos para mudar isso", diz o jornalista Leonel Kaz, editor de Brasil, Rito e Ritmo. O resultado é uma obra que se lê como quem assiste a um documentário no cinema. Não falta nem a trilha sonora. O livro inclui dois CDs que reúnem uma espécie de cânone da música brasileira. Há raridades como o clássico Conversa de Botequim, de Noel Rosa, cantado pelo próprio autor – numa das poucas vezes em que o sambista de Vila Isabel se dignou a mostrar, na prática, o que queria dizer com o termo bossa, popularizado por ele.


Fotos Reprodução
Reprodução
MENINO DO RIO
Caetano Veloso, em 1965, recém-chegado ao Rio de Janeiro. Na época ele não era famoso. Viera fazer companhia à irmã, Maria Bethânia, que cantava no show Opinião
A "COROAÇÃO" DO REI
Roberto Carlos praticamente inventou o rock nacional com a jovem guarda. Na foto, ele é "coroado" por sua mãe, "lady" Laura

Mais do que fotos de artistas, as imagens do livro são retratos de épocas. Vinicius de Moraes e Tom Jobim na cobertura do poeta, tendo como companhia discos, o pôster de uma mulher nua e uma garrafa de vodca, formam um estandarte da boemia ipanemense. Da mesma forma, nada é mais jovem guarda do que Roberto Carlos sendo coroado rei pela mãe, "lady" Laura. A era do rádio está representada pela foto de Ângela Maria, bastante à vontade, dentro de um estúdio, falando com um ouvinte. Algumas fotos mostram como a música popular efetivamente tomou parte na vida do país. Um exemplo é a imagem de um baile em homenagem a Getúlio Vargas, datada de 1941, na qual aparece ao fundo uma enorme foto do ditador, lembrando os clichês da propaganda nazi-fascista. Getúlio, que nos comícios se dirigia aos "trabalhadores do Brasil", não gostava de músicas que enaltecessem a malandragem e estimulava os sambistas a exaltar o esforço para ganhar o pão. Data dessa época a famosa O Bonde São Januário ("Leva mais um operário, sou eu que vou trabalhar"), de Wilson Batista e Ataulfo Alves. Outra imagem emblemática é a que mostra Edu Lobo, Chico Buarque, Caetano Veloso, o hoje ministro Gilberto Gil e outros artistas protestando contra o regime militar na famosa passeata dos Cem Mil, em 1968.


Fotos Reprodução
ESTANDARTE DA BOSSA NOVA
Tom Jobim e Vinicius de Moraes conversam e bebem vodca na cobertura do poeta, no Jardim Botânico. A parceria criou vários dos clássicos que tornaram a música brasileira conhecida no exterior
TRINCA DE ASES
Pixinguinha é um dos fundadores da música instrumental brasileira. No retrato, ele está ao lado de Lamartine Babo e do cantor e trompetista americano Louis Armstrong

Uma idéia comum perpassa os textos incluídos no livro. A música popular teria se tornado a arte por excelência do Brasil por ser a melhor tradução daquilo que o país escolheu para ser a sua identidade cultural: a mestiçagem. Durante as três primeiras décadas do século XX o país tinha vergonha da mistura de raças. Foi preciso que Gilberto Freyre publicasse seu Casa-Grande & Senzala, em 1933, para que o Brasil não apenas sentisse orgulho de ser mestiço, mas também passasse a considerar isso o principal traço definidor da nacionalidade. Não por acaso, foi exatamente nessa época, a década de 30, que começou a chamada "era de ouro" da MPB, com compositores como Noel Rosa, Lamartine Babo, Pixinguinha e Ary Barroso. A maior parte das fotos do livro, aliás, remete a dois períodos: os anos 30/40 e os anos 60, quando explodiram os movimentos musicais da bossa nova, jovem guarda e tropicalismo. São os dois auges da música popular brasileira. No filme As Invasões Bárbaras, o diretor canadense Denys Arcand lança a tese de que há épocas em que, por razões aleatórias, existe maior quantidade de talento e inteligência. Essa teoria se verifica na prática na MPB, que nunca mais atingiu o mesmo patamar de vigor e criatividade. Talvez se pudesse acrescentar que, nessas fases de florescimento, a música brasileira foi mais do que apenas música, e projetou para o mundo a idéia de um país vivo, confiante, promissor. Também por isso as fotos do livro são importantes – elas registram a vibração daqueles tempos. Brasil, Rito e Ritmo não é uma obra passadista. Mas, ao ver, em preto-e-branco, as imagens de Chico Buarque cercado de fãs, Tom e Vinicius criando suas obras-primas e Roberto Carlos inventando o rock nacional na jovem guarda, é inevitável sentir saudade.


Reprodução
SAPOTI AO TELEFONE
Ângela Maria, a "Sapoti", conversa com um ouvinte dentro dos estúdios da Rádio Nacional, no Rio de Janeiro. A foto foi feita na década de 50

 
 
 
 
topo voltar