Edição 1852 . 5 de maio de 2004

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Beleza
Anônimos com
cara de famosos

Programa da MTV mostra a transformação
de pessoas que pagam para ficar parecidas
com seus ídolos

Em Profundidade:
Beleza e Boa Forma

Quem nunca admirou a perfeição do nariz de Sharon Stone, a sensualidade da barriguinha de Britney Spears ou o fenomenal design do maxilar de Cameron Diaz? Mais do que admirar, alguns querem imitar. E, mais do que reproduzir alguma característica específica, uns poucos sonham copiar por inteiro o modelo representado pelo ídolo. Pois foi atrás desses que a MTV americana saiu à procura. Voltou com um programa que mistura reality show (o acompanhamento da rotina de pessoas comuns) com transformação do visual, outra fórmula de sucesso do momento – e avança mais um degrau na linha que desperta a pergunta recorrente: "Onde isso tudo vai parar?". I Want a Famous Face (Quero um Rosto Famoso) estreou no fim de fevereiro nos Estados Unidos e desde então se mantém na lista dos dez programas mais vistos no país por telespectadores de 18 a 34 anos. Seus personagens são pessoas que se submetem a cirurgias plásticas muitas vezes radicais e gastam um bocado de dinheiro (ao contrário de congêneres, a MTV não banca a conta do hospital) com o propósito de ficar parecidas com alguma celebridade que admiram.

Um dos casos mais impressionantes foi o dos gêmeos Michael e Matthew Schlepp, agraciados pela natureza com dentes tortos, narigão e acne em profusão, que torraram o equivalente a mais de 100.000 reais e enfrentaram dois meses de doloridas intervenções estéticas para ficar parecidos com ninguém menos que Brad Pitt, considerado um dos homens mais bonitos do planeta. Conseguiram? As fotos acima demonstram que não. Apesar da impressionante transformação, o quesito em que mais conseguiram se aproximar do ídolo foi o cabelo – e isso não demandou mais do que um bom corte e uma tintura comprada em supermercado. Estão satisfeitos? Muito. "Não eram as feições que nós queríamos imitar", explica Matt. "Era a estrutura óssea forte do rosto dele."

O programa, que deve chegar ao Brasil no começo do segundo semestre, inevitavelmente vem sendo criticado desde a estréia, acusado de banalizar a cirurgia plástica e estimular entre os jovens o desejo de ser outra pessoa. "O programa dá um sinal de alerta", diz Keith LaFerriere, presidente da Academia Americana de Plástica Facial e Cirurgia Reconstrutiva. "O objetivo da plástica é fazer com que a pessoa se sinta bem consigo mesma, não que se pareça com outra pessoa." Dar vazão a um desejo secreto como esse é mesmo tão ruim? "Fazer plástica para ficar parecido com alguém pode ou não ser doença", afirma Ana Mercês Bahia Brock, presidente do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo. "Só será doença se a pessoa quiser absorver também a personalidade do ídolo. Mas, de qualquer forma, é sintoma de uma desvalorização pessoal muito grande." A MTV se defende insistindo que seu programa tem mais de documentário do que de incentivo às clonagens estéticas. "O objetivo da série é documentar as tendências que percebemos entre os jovens", justifica o produtor Mar-shall Eisen. "Grande parte da cultura atual é voltada à obsessão por celebridades e por boa aparência, e as duas coisas estão se cruzando de uma forma que não podemos ignorar." Eisen ressalta que os programas mostram claramente "a tensão, os riscos e a dificuldade de recuperação". Alguns episódios, inclusive, incluem um segmento chamado Another Story (Outra História), com o depoimento de pacientes de plásticas malsucedidas. Um deles mostra o drama de Kacey Long, que cismou de ficar com o saliente par de seios de Julia Roberts no filme Erin Brockovich (que a própria atriz só conseguiu por intermédio de sutiãs do tipo "esprema para explodir"), gastou o equivalente a 13.000 reais em implantes, teve complicações e pagou mais 18.000 reais para tirar tudo. Nada que assustasse Sha Ross, texana de 19 anos decidida a ter uma comissão de frente nas proporções titânicas de Pamela Anderson ("Imagine saber que todos os homens do mundo sonham com você!"). Transformada numa espécie de mulher-míssil, Sha adorou o resultado e o fato de ser escolhida para posar em uma edição especial da Playboy. Já Michael Tito, transexual de Chicago que atende por Jessica e queria ser Jennifer Lopez, ficou frustrado – achou que pôs muito pouco.

A MTV conseguiu seus personagens entre pessoas que já estavam com cirurgias marcadas para se transformar em seus ídolos e concordaram em ser filmadas durante o processo. Segundo o cirurgião Leonard Bannet, da Clínica Santé, de São Paulo, é raríssimo um candidato a plástica pedir para ficar parecido com alguém. "Acho que demonstra uma fraqueza que eles não gostam de manifestar", avalia. Por outro lado, é comum que usem artistas para explicar o nariz, a boca ou a cintura que almejam conquistar. "Para nós, é uma orientação, embora exista sempre a preocupação de manter a proporção das feições", diz Bannet. Cada época, inclusive, tem seu ranking de preferências. No momento, entre as mulheres, a mais citada nos consultórios, no quesito conjunto da obra, é Deborah Secco, exemplo de quem deseja mudar o nariz, ou a boca, ou os seios, ou a barriga. Já no detalhe, as preferências se dividem: em cintura, ganha a de Gisele Bündchen; em boca, disparada, vence a de Angelina Jolie.

 
 
 
 
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