|
|
Beleza
Anônimos
com
cara de famosos
Programa
da MTV mostra a transformação
de pessoas que pagam para ficar parecidas
com seus ídolos
Quem
nunca admirou a perfeição do nariz de Sharon Stone,
a sensualidade da barriguinha de Britney Spears ou o fenomenal design
do maxilar de Cameron Diaz? Mais do que admirar, alguns querem imitar.
E, mais do que reproduzir alguma característica específica,
uns poucos sonham copiar por inteiro o modelo representado pelo
ídolo. Pois foi atrás desses que a MTV americana saiu
à procura. Voltou com um programa que mistura reality show
(o acompanhamento da rotina de pessoas comuns) com transformação
do visual, outra fórmula de sucesso do momento e avança
mais um degrau na linha que desperta a pergunta recorrente: "Onde
isso tudo vai parar?". I Want a Famous Face (Quero um Rosto
Famoso) estreou no fim de fevereiro nos Estados Unidos e desde então
se mantém na lista dos dez programas mais vistos no país
por telespectadores de 18 a 34 anos. Seus personagens são
pessoas que se submetem a cirurgias plásticas muitas vezes
radicais e gastam um bocado de dinheiro (ao contrário de
congêneres, a MTV não banca a conta do hospital) com
o propósito de ficar parecidas com alguma celebridade que
admiram.
Um
dos casos mais impressionantes foi o dos gêmeos Michael e
Matthew Schlepp, agraciados pela natureza com dentes tortos, narigão
e acne em profusão, que torraram o equivalente a mais de
100.000 reais e enfrentaram dois meses
de doloridas intervenções estéticas para ficar
parecidos com ninguém menos que Brad Pitt, considerado um
dos homens mais bonitos do planeta. Conseguiram? As fotos acima
demonstram que não. Apesar da impressionante transformação,
o quesito em que mais conseguiram se aproximar do ídolo foi
o cabelo e isso não demandou mais do que um bom corte
e uma tintura comprada em supermercado. Estão satisfeitos?
Muito. "Não eram as feições que nós
queríamos imitar", explica Matt. "Era a estrutura óssea
forte do rosto dele."
O
programa, que deve chegar ao Brasil no começo do segundo
semestre, inevitavelmente vem sendo criticado desde a estréia,
acusado de banalizar a cirurgia plástica e estimular entre
os jovens o desejo de ser outra pessoa. "O programa dá um
sinal de alerta", diz Keith LaFerriere, presidente da Academia Americana
de Plástica Facial e Cirurgia Reconstrutiva. "O objetivo
da plástica é fazer com que a pessoa se sinta bem
consigo mesma, não que se pareça com outra pessoa."
Dar vazão a um desejo secreto como esse é mesmo tão
ruim? "Fazer plástica para ficar parecido com alguém
pode ou não ser doença", afirma Ana Mercês Bahia
Brock, presidente do Conselho Regional de Psicologia de São
Paulo. "Só será doença se a pessoa quiser absorver
também a personalidade do ídolo. Mas, de qualquer
forma, é sintoma de uma desvalorização pessoal
muito grande." A MTV se defende insistindo que seu programa tem
mais de documentário do que de incentivo às clonagens
estéticas. "O objetivo da série é documentar
as tendências que percebemos entre os jovens", justifica o
produtor Mar-shall Eisen. "Grande parte da cultura atual é
voltada à obsessão por celebridades e por boa aparência,
e as duas coisas estão se cruzando de uma forma que não
podemos ignorar." Eisen ressalta que os programas mostram claramente
"a tensão, os riscos e a dificuldade de recuperação".
Alguns episódios, inclusive, incluem um segmento chamado
Another Story (Outra História), com o depoimento de
pacientes de plásticas malsucedidas. Um deles mostra o drama
de Kacey Long, que cismou de ficar com o saliente par de seios de
Julia Roberts no filme Erin Brockovich (que a própria
atriz só conseguiu por intermédio de sutiãs
do tipo "esprema para explodir"), gastou o equivalente a 13.000
reais em implantes, teve complicações e pagou mais
18.000 reais para tirar tudo. Nada que
assustasse Sha Ross, texana de 19 anos decidida a ter uma comissão
de frente nas proporções titânicas de Pamela
Anderson ("Imagine saber que todos os homens do mundo sonham com
você!"). Transformada numa espécie de mulher-míssil,
Sha adorou o resultado e o fato de ser escolhida para posar em uma
edição especial da Playboy. Já Michael
Tito, transexual de Chicago que atende por Jessica e queria ser
Jennifer Lopez, ficou frustrado achou que pôs muito
pouco.
A
MTV conseguiu seus personagens entre pessoas que já estavam
com cirurgias marcadas para se transformar em seus ídolos
e concordaram em ser filmadas durante o processo. Segundo o cirurgião
Leonard Bannet, da Clínica Santé, de São Paulo,
é raríssimo um candidato a plástica pedir para
ficar parecido com alguém. "Acho que demonstra uma fraqueza
que eles não gostam de manifestar", avalia. Por outro lado,
é comum que usem artistas para explicar o nariz, a boca ou
a cintura que almejam conquistar. "Para nós, é uma
orientação, embora exista sempre a preocupação
de manter a proporção das feições",
diz Bannet. Cada época, inclusive, tem seu ranking de preferências.
No momento, entre as mulheres, a mais citada nos consultórios,
no quesito conjunto da obra, é Deborah Secco, exemplo de
quem deseja mudar o nariz, ou a boca, ou os seios, ou a barriga.
Já no detalhe, as preferências se dividem: em cintura,
ganha a de Gisele Bündchen; em boca, disparada, vence a de
Angelina Jolie.
|