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Sociedade
País
com parada gay
não é homofóbico
Apesar
disso, os
americanos já
deram
asilo a mais de cinqüenta homossexuais
brasileiros que se
disseram perseguidos

Sandra Brasil
Juca Varella/Folha Imagem
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Divulgação
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| A
parada gay, em São Paulo, no ano passado, com 1 milhão
de participantes, e o ex-militar Flávio Alves, que ajuda
brasileiros a obter asilo: e então, qual é o babado
mais forte? |
O
ex-militar Flávio Alves ficou conhecido no Brasil em 1997,
ao lançar um livro autobiográfico em que defendia
a presença de homossexuais nas Forças Armadas. Diante
da má repercussão da obra junto aos militares, ele,
que já havia decidido largar a farda, resolveu trocar de
país e profissão. Hoje, o ex-cabo da Marinha vive
nos Estados Unidos na qualidade de "asilado vítima de perseguição
por sua orientação sexual" e ganha a vida atuando
como uma espécie de "despachante" para homossexuais que pleiteiam
asilo lá com base no mesmo argumento: o de que são
perseguidos em seu país pelo fato de ser gays. Nos últimos
seis anos, 56 brasileiros clientes de Alves tiveram seu pedido aceito
pelo governo americano.
Os
Estados Unidos parecem estar convencidos de que o Brasil é
uma espécie de versão tropical do Irã, que
pune com a pena de morte os "acusados" de homossexualismo. No ano
passado, uma revista americana de turismo destinada ao público
GLS listou o Brasil como um dos doze países mais homofóbicos
do mundo. Ativistas gays brasileiros foram os primeiros a protestar
e a publicação acabou se retratando. A visão
de que o Brasil persegue seus homossexuais, no entanto, não
só parece estar se disseminando nos Estados Unidos como dá
mostras de estar institucionalizada. O Departamento de Estado americano
produz anualmente um relatório sobre a situação
dos direitos humanos no mundo. No capítulo referente ao Brasil,
a última versão do documento concluiu com base
em relatos de que "gangues de skinheads, neonazistas e machistas"
teriam atacado gays nas principais capitais brasileiras que
"a violência contra os homossexuais no país está
generalizada". Como era de esperar, o relatório virou peça
obrigatória nos kits que Alves encaminha às autoridades
americanas para tentar convencê-las a conceder asilo aos seus
clientes.
Se
há um evidente exagero no texto do Departamento de Estado
americano, também existe um claro oportunismo por parte de
alguns gays que se valem dessa falsa impressão para melhorar
sua situação nos Estados Unidos (o asilo por orientação
sexual só pode ser concedido para aqueles que já estão
no país). Hoje, 800.000 brasileiros vivem lá clandestinamente.
Nessa condição, não conseguem emprego legal
e estão sujeitos à deportação a qualquer
momento. O status de asilado, além de dar ao seu portador
o direito de permanecer e trabalhar legalmente nos Estados Unidos,
garante benefícios como assistência médica e
ajuda mensal de 300 dólares nos primeiros oito meses seguintes
à concessão do asilo período que, supõe-se,
levará para conseguir um emprego. Há, ainda, a possibilidade
de ele vir a tornar-se, a médio prazo, um cidadão
americano com todos os direitos extensivos à condição.
Alves afirma que não aceita processos que cheirem a oportunismo.
"Já recusei casos em que, por exemplo, um rapaz pretendia
pedir asilo porque a mãe o pegou beijando o namorado e o
de outro que dizia não ter conseguido emprego no Brasil por
ser gay", afirma.
Homofobia
é algo que vai muito além do preconceito. No Brasil,
ela já produziu casos dramáticos, como o ocorrido
em 2000, quando uma gangue de carecas agrediu e matou Edson Neris
da Silva pelo simples fato de vê-lo passeando de mãos
dadas com seu namorado na Praça da República, em São
Paulo. Esse comportamento, no entanto, está longe de ser
generalizado, como acredita ingenuamente o Departamento de Estado
americano. Certamente não é homofóbico um país
cuja maior cidade, São Paulo, organiza uma vez por ano uma
parada gay em sua principal via, a Avenida Paulista, da qual participam
1 milhão de homossexuais e manifestantes simpáticos
à causa. E que traz uma atração extra: a prefeita
Marta Suplicy. Nos últimos anos, os homossexuais brasileiros
não conquistaram apenas visibilidade, mas direitos legais.
Leis estaduais, como uma em vigor no Rio Grande do Sul, estabelecem
que é crime discriminar funcionários públicos
por sua orientação sexual. Além disso, grandes
empresas privadas passaram a aceitar como dependentes os parceiros
de funcionários homossexuais. Desde 2000, também por
iniciativa do Rio Grande do Sul, o direito à pensão
do INSS em caso de morte do parceiro passou a ser extensivo aos
casais homossexuais. Embora considere que o Brasil tem "traços
fortes de homofobia", a desembargadora gaúcha Maria Berenice
Dias, autora do primeiro livro que tratou das questões jurídicas
relativas aos homossexuais, é da opinião de que nada
justifica a atitude dos que pedem asilo no exterior. "Não
vivemos em guerra contra os gays", diz.
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