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Europa
Todos
querem ser europeus
A
União Européia faz sua maior ampliação
em mais de quarenta anos, com a adesão
de dez países ex-comunistas da Europa pobre

Diogo Schelp
AP
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| Dupla
identidade: com as bandeiras da União Européia
e da República Checa |
A entrada de dez novos países na União Européia,
no sábado 1º, cria um bloco de 25 países e 450
milhões de habitantes que revoluciona a forma com que nações
cooperam entre si na economia, na política, na cultura e
na área social. Até o conceito de o que é ser
europeu está mudando. Desde o surgimento como um reles acordo
em torno de carvão e aço nos anos 50, a organização
foi privativa de países da Europa Ocidental, liderados por
Alemanha, França e Itália, que são algumas
das nações mais ricas do planeta. A nova turma destoa
nesse conjunto. Eslovênia, Hungria, Eslováquia, República
Checa e Polônia pertencem à Europa do Leste e Central
e foram comunistas até o fim da década de 80. Lituânia,
Letônia e Estônia faziam parte da União Soviética.
Chipre e Malta são duas ilhas mediterrâneas. A renda
per capita desses novos membros é menos da metade da dos
antigos integrantes. A soma de suas economias equivale a não
mais que 5% do PIB da Europa Ocidental. Mas são países
que avançam a passos largos no caminho do desenvolvimento.
O
maior prêmio para o país que entra na União
Européia é o acesso a um enorme mercado único
para produtos e capitais. Nesse sentido, o Brasil enfrenta agora
um novo grupo de competidores no esforço para atrair investimentos
e conquistar os ricos compradores da Europa Ocidental. A estratégia
vitoriosa dos dez novatos da União Européia foi dar
prioridade a alianças com economias fortes. "Desde a década
de 90, os países do Leste Europeu vêm mantendo um olho
na União Européia, que pela localização
geográfica é seu parceiro comercial natural, e outro
nos Estados Unidos, com os quais têm estreitado os laços
comerciais e políticos", disse a VEJA o economista inglês
Iain Begg, pesquisador do Instituto Europeu da London School of
Economics. Para serem aceitos no clube dos vizinhos ricos, os ex-comunistas
foram obrigados a desenvolver instituições democráticas
e mergulharam de cabeça na economia de mercado. As estatais
foram privatizadas e a dívida pública foi combatida.
Diferentemente do que ocorre no Brasil, países como a Estônia
e a Eslováquia achataram os impostos e reduziram a burocracia
necessária para montar um negócio. Isso, aliado a
uma mão-de-obra barata e uma população mais
educada que a média dos países em desenvolvimento,
atraiu os investimentos externos.
Ajudou
o fato de que as barreiras comerciais com a União Européia
começaram a ser eliminadas já há mais de dez
anos. Isso significou a possibilidade de produzir mais barato e
vender livremente a grandes mercados consumidores, como a Alemanha
e a França. Polônia, Hungria, República Checa
e Eslováquia já abocanharam 10% das importações
da União Européia. Com essa vantagem competitiva,
as principais montadoras de automóveis do mundo construíram
fábricas no Leste Europeu. "O Brasil pode tirar proveito
da integração se as negociações do Mercosul
com a União Européia avançarem", diz o economista
Antônio Corrêa de Lacerda, professor da Pontifícia
Universidade Católica, de São Paulo. "Neste caso teríamos
um crescimento nos negócios com 25 países, em vez
de quinze, como era antes."
Desde
que foi criada por seis países, em 1957, a União Européia
passou por quatro ampliações. Essa é a quinta
e mais ambiciosa, porque integra de uma vez uma dezena de países
pobres e com democracias recentes. A preocupação é
que a crescente babel européia torne as decisões políticas
cada vez mais complexas. A União passa a ter vinte idiomas
oficiais, contra onze antes de 1º de maio, e a sede em Bruxelas,
na Bélgica, terá de contratar um batalhão de
mais de 2.000 tradutores. Atentos às
vantagens comerciais e aos 25 bilhões de dólares de
subsídios que os novos membros vão receber em três
anos, outros países pobres da região sonham em se
juntar à União Européia. Incluindo alguns que
os geógrafos não chamariam de europeus, como Israel
e Marrocos. E uma das condições para pleitear a inclusão
na União Européia é ser europeu. O que isso
significa, nem os representantes do parlamento em Bruxelas sabem
definir com unanimidade. Se para ser europeu um país precisa
estar na Europa, então a Turquia, cuja candidatura já
foi aceita, estaria fora, porque a maior parte de seu território
fica na Ásia. Se o critério for cultural, qualquer
aspirante com população muçulmana, como a Bósnia
e a própria Turquia, teria de ser recusado. Há algumas
ex-colônias de países europeus, como a Argélia,
que também estão tentadas a se candidatar. Nessas
horas, todos querem ser europeus.
Com
reportagem de Ruth Costas
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