Edição 1852 . 5 de maio de 2004

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Europa
Todos querem ser europeus

A União Européia faz sua maior ampliação
em mais de quarenta anos, com a adesão
de dez países ex-comunistas da Europa pobre


Diogo Schelp



AP
Dupla identidade: com as bandeiras da União Européia e da República Checa


A entrada de dez novos países na União Européia, no sábado 1º, cria um bloco de 25 países e 450 milhões de habitantes que revoluciona a forma com que nações cooperam entre si na economia, na política, na cultura e na área social. Até o conceito de o que é ser europeu está mudando. Desde o surgimento como um reles acordo em torno de carvão e aço nos anos 50, a organização foi privativa de países da Europa Ocidental, liderados por Alemanha, França e Itália, que são algumas das nações mais ricas do planeta. A nova turma destoa nesse conjunto. Eslovênia, Hungria, Eslováquia, República Checa e Polônia pertencem à Europa do Leste e Central e foram comunistas até o fim da década de 80. Lituânia, Letônia e Estônia faziam parte da União Soviética. Chipre e Malta são duas ilhas mediterrâneas. A renda per capita desses novos membros é menos da metade da dos antigos integrantes. A soma de suas economias equivale a não mais que 5% do PIB da Europa Ocidental. Mas são países que avançam a passos largos no caminho do desenvolvimento.

O maior prêmio para o país que entra na União Européia é o acesso a um enorme mercado único para produtos e capitais. Nesse sentido, o Brasil enfrenta agora um novo grupo de competidores no esforço para atrair investimentos e conquistar os ricos compradores da Europa Ocidental. A estratégia vitoriosa dos dez novatos da União Européia foi dar prioridade a alianças com economias fortes. "Desde a década de 90, os países do Leste Europeu vêm mantendo um olho na União Européia, que pela localização geográfica é seu parceiro comercial natural, e outro nos Estados Unidos, com os quais têm estreitado os laços comerciais e políticos", disse a VEJA o economista inglês Iain Begg, pesquisador do Instituto Europeu da London School of Economics. Para serem aceitos no clube dos vizinhos ricos, os ex-comunistas foram obrigados a desenvolver instituições democráticas e mergulharam de cabeça na economia de mercado. As estatais foram privatizadas e a dívida pública foi combatida. Diferentemente do que ocorre no Brasil, países como a Estônia e a Eslováquia achataram os impostos e reduziram a burocracia necessária para montar um negócio. Isso, aliado a uma mão-de-obra barata e uma população mais educada que a média dos países em desenvolvimento, atraiu os investimentos externos.

Ajudou o fato de que as barreiras comerciais com a União Européia começaram a ser eliminadas já há mais de dez anos. Isso significou a possibilidade de produzir mais barato e vender livremente a grandes mercados consumidores, como a Alemanha e a França. Polônia, Hungria, República Checa e Eslováquia já abocanharam 10% das importações da União Européia. Com essa vantagem competitiva, as principais montadoras de automóveis do mundo construíram fábricas no Leste Europeu. "O Brasil pode tirar proveito da integração se as negociações do Mercosul com a União Européia avançarem", diz o economista Antônio Corrêa de Lacerda, professor da Pontifícia Universidade Católica, de São Paulo. "Neste caso teríamos um crescimento nos negócios com 25 países, em vez de quinze, como era antes."

Desde que foi criada por seis países, em 1957, a União Européia passou por quatro ampliações. Essa é a quinta e mais ambiciosa, porque integra de uma vez uma dezena de países pobres e com democracias recentes. A preocupação é que a crescente babel européia torne as decisões políticas cada vez mais complexas. A União passa a ter vinte idiomas oficiais, contra onze antes de 1º de maio, e a sede em Bruxelas, na Bélgica, terá de contratar um batalhão de mais de 2.000 tradutores. Atentos às vantagens comerciais e aos 25 bilhões de dólares de subsídios que os novos membros vão receber em três anos, outros países pobres da região sonham em se juntar à União Européia. Incluindo alguns que os geógrafos não chamariam de europeus, como Israel e Marrocos. E uma das condições para pleitear a inclusão na União Européia é ser europeu. O que isso significa, nem os representantes do parlamento em Bruxelas sabem definir com unanimidade. Se para ser europeu um país precisa estar na Europa, então a Turquia, cuja candidatura já foi aceita, estaria fora, porque a maior parte de seu território fica na Ásia. Se o critério for cultural, qualquer aspirante com população muçulmana, como a Bósnia e a própria Turquia, teria de ser recusado. Há algumas ex-colônias de países europeus, como a Argélia, que também estão tentadas a se candidatar. Nessas horas, todos querem ser europeus.

 

Com reportagem de Ruth Costas

 





 
 
 
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