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Internacional
Os porões dos EUA
Imagens
de torturas praticadas por
soldados americanos no Iraque chocam
o mundo e podem mudar o curso da
guerra, cada dia mais impopular

José
Eduardo Barella
A
derrota moral mais devastadora que os americanos tiveram no Vietnã
foi a revelação de que um jovem tenente de infantaria
chamado William Calley comandara na aldeia de My Lai um massacre
em que 500 civis vietnamitas foram mortos. O crime ocorreu em 1968,
mas Calley só foi à corte marcial dois anos depois,
quando, então, foram revelados os detalhes pavorosos da história.
O mais chocante dava conta que um bebê saiu engatinhando de
uma pilha de cadáveres no centro da aldeia. Calley tirou
sua pistola, encostou-a na cabeça do bebê, disparou
e o jogou de volta ao amontoado de corpos. O tenente foi condenado
a dez anos de prisão, dos quais cumpriu apenas quatro, sendo
colocado em liberdade condicional em 1974. Para muitos analistas,
o episódio de My Lai foi a gota d'água no front interno,
onde a administração já vinha perdendo a guerra
havia vários anos. Na semana passada, a opinião pública
americana foi apresentada a um episódio que, embora menos
cruento, pode ter sobre a avaliação da guerra no Iraque
o mesmo efeito produzido pelo massacre no Vietnã. A rede
de televisão americana CBS exibiu em horário nobre
imagens de prisioneiros iraquianos sendo torturados e humilhados
por soldados americanos.
As
imagens foram feitas em novembro e dezembro no presídio de
Abu Ghraib, em Bagdá. O impacto de ver soldados americanos,
entre eles oficiais mulheres, foi ainda maior por causa do cenário
do crime. Abu Ghraib é a cadeia-símbolo da crueldade
do regime do ditador deposto Saddam Hussein. Nas semanas que se
seguiram à tomada de Bagdá, no ano passado, os americanos
trataram de expor ao mundo os horrores ocorridos no Iraque durante
duas décadas de ditadura de Saddam Hussein. Filmadas e fotografadas
em detalhes, as cicatrizes deixadas pelas sessões de tortura
nos sobreviventes e as valas coletivas com os corpos dos assassinados
nas prisões serviram como provas convincentes de que os Estados
Unidos tinham libertado o povo iraquiano de um pesadelo. Em Abu
Ghraib, Saddam executava anualmente cerca de 6.000 presos, em alguns
casos com a utilização de métodos de uma perversidade
aterradora. Incluíam uma máquina trituradora e a imersão
em óleo fervente. Em setembro do ano passado, o secretário
de Defesa dos Estados Unidos, Donald Rumsfeld, visitou Abu Ghraib
para ver com os próprios olhos as câmaras de tortura.
O complexo nos arredores de Bagdá tinha então se tornado
local de detenção para iraquianos capturados pelas
tropas americanas.
As
fotografias divulgadas na semana passada mostram prisioneiros iraquianos
quase sempre nus, exceto por um capuz enfiado na cabeça.
Numa foto, um iraquiano é mantido em pé sobre uma
lata, com fios atados em suas mãos. É um método
conhecido de tortura, que em pouco tempo provoca dores terríveis
nos braços e nas pernas. De acordo com a CBS, o preso permaneceu
por um longo tempo sobre a lata, avisado que seria eletrocutado
se colocasse os pés no chão. Fotos e gravações
em vídeo mostram prisioneiros nus ajoelhados uns sobre os
outros para formar uma pirâmide humana. Outra imagem é
a de iraquianos obrigados a simular que estão fazendo sexo
oral em colegas. Muitas fotos mostram guardas americanos rindo despreocupadamente.
Uma soldada ironiza os detentos nus apontando sarcasticamente para
seus genitais. Em outra imagem um cão de guarda ataca um
preso iraquiano.
AFP
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SOB
O NARIZ DA GENERAL
A general americana Janice Karpinski vistoria a prisão de Abu
Ghraib, em 2003: seis americanos vão enfrentar a corte marcial
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A
divulgação das imagens de torturas praticadas por
soldados americanos foi devastadora para a Casa Branca. Desde que
se comprovou que as armas de destruição em massa que
Saddam teria simplesmente não foram encontradas, o governo
americano se agarrou na justificativa de que a invasão do
Iraque serviu para libertar o povo iraquiano da repressão
desumana de Saddam Hussein. É difícil sustentar essa
tese quando as tropas de ocupação enfrentam uma rebelião
popular em várias cidades iraquianas e surgem evidências
de que os libertadores torturam e humilham prisioneiros. "O tratamento
dado aos prisioneiros não reflete a natureza do povo americano.
Não é assim que fazemos as coisas nos Estados Unidos",
disse o presidente George W. Bush, que se disse "profundamente desgostoso
e desapontado" com a revelação. O general-brigadeiro
Mark Kimmitt, comandante do teatro de operações no
Iraque, sentiu-se traído: "Que eu tenha colegas de farda
capazes de fazer essas coisas me deixa arrasado. Eles violaram todos
os códigos de ética e dignidade dos verdadeiros combatentes
americanos".
As
denúncias de torturas em Abu Ghraib são antigas, mas
foi preciso aparecerem as imagens para o governo americano se sentir
na obrigação de fazer alguma coisa para deter os torturadores.
Ex-detentos, libertados no ano passado, reclamaram de espancamentos
e punições, como a permanência de horas sob
o sol e tortura psicológica que incluía ouvir música
em volume elevado dia e noite. As investigações mostram
a falta de regras claras para os soldados americanos destacados
para cuidar dos presos em Abu Ghraib e também inesperadas
falhas na escala de comando. A rede de televisão CBS admitiu
que relutou em divulgar as imagens porque sofreu muita pressão
do Pentágono para não fazê-lo. A denúncia
surgiu num momento em que o apoio à guerra está em
queda e confirma um fenômeno já bem estudado: a guerra
pode despertar os melhores sentimentos de um ser humano. Em geral,
contudo, o que se vê é a eclosão do lado negro
da soldadesca. A diferença é que quando isso ocorre
numa democracia o sistema se eleva acima das diferenças e
do poder militar e age para punir os responsáveis e encontrar
fórmulas de evitar que a tortura se repita. Do ponto de vista
formal, o Pentágono agiu com correção. Seis
soldados vão enfrentar a corte marcial por maus-tratos a
prisioneiros. Outros quatro receberão uma punição
disciplinar. Sete oficiais vão receber o mesmo tratamento,
porque os soldados em questão informaram que o tratamento
dispensado aos prisioneiros recebia o apoio dos oficiais. A general
Janice Karpinski, que comandava a polícia militar e era responsável
pelos centros de detenção, foi despachada de volta
aos Estados Unidos, mas o dano na opinião pública
não se dissipará pela mera punição dos
envolvidos.
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No
estilo Dr. Fantástico
Uma
década depois do fim da Guerra Fria,
Bush acelera a corrida armamentista
para
assegurar a hegemonia nuclear americana
Os Estados Unidos têm soldados em dois conflitos
armados, no Iraque e no Afeganistão, e ainda
travam uma guerra sem fronteiras contra o terrorismo.
Essas três frentes são prioridade na estratégia
de defesa da superpotência desde os atentados
de 11 de setembro de 2001. Nem por isso o governo de
George W. Bush descuidou-se do arsenal nuclear americano.
Só neste ano, os gastos com manutenção,
modernização, pesquisa e produção
de ogivas e mísseis nucleares chegam a 6,5 bilhões
de dólares. O valor parece pequeno diante do
orçamento anual do Pentágono, de 420 bilhões
de dólares, mas representa 55% mais que os gastos
médios anuais dos Estados Unidos durante a Guerra
Fria. Para 2005, o presidente George W. Bush solicitou
ao Congresso um aumento dessa verba para 6,8 bilhões
de dólares. Os dados constam de um relatório
divulgado na semana passada por Christopher Paine, especialista
em armas nucleares do Conselho de Defesa dos Recursos
Naturais, com sede em Nova York.
A
pergunta óbvia é por que os Estados Unidos
gastam agora com armas nucleares mais do que o presidente
Ronald Reagan na década de 80, na Guerra Fria?
Seria de esperar que a corrida nuclear tivesse o ritmo
abrandado com o fim da União Soviética,
em 1991. "Ao continuar investindo no arsenal, Bush criou
um novo conceito de dissuasão: intimidar os países
que mantêm grandes arsenais nucleares e que, em
tese, representam um risco para os Estados Unidos, como
a Rússia e a China", disse Paine a VEJA. A pressão
também serve para conter os inimigos menores
que desenvolvem tecnologia nuclear, como a Coréia
do Norte e o Irã. A atual gastança com
o arsenal não inclui o projeto do escudo antimíssil.
O programa prevê a criação de um
sistema de defesa interligado por satélites cujo
objetivo é detectar e destruir os mísseis
inimigos no ar, antes que possam causar dano. O projeto,
ainda em fase inicial, pode custar 300 bilhões
de dólares nos próximos dez anos.
AP
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Os
Estados Unidos vão gastar neste ano 6,5 bilhões
de dólares em armas nucleares. É bem mais do que
os 4,2 bilhões de dólares anuais gastos durante
a Guerra Fria
*Valores médios corrigidos pela inflação no período
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