Edição 1852 . 5 de maio de 2004

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Internacional
Os porões dos EUA

Imagens de torturas praticadas por
soldados americanos no Iraque chocam
o mundo e podem mudar o curso da
guerra, cada dia mais impopular


José Eduardo Barella

Conheça o país: EUA

A derrota moral mais devastadora que os americanos tiveram no Vietnã foi a revelação de que um jovem tenente de infantaria chamado William Calley comandara na aldeia de My Lai um massacre em que 500 civis vietnamitas foram mortos. O crime ocorreu em 1968, mas Calley só foi à corte marcial dois anos depois, quando, então, foram revelados os detalhes pavorosos da história. O mais chocante dava conta que um bebê saiu engatinhando de uma pilha de cadáveres no centro da aldeia. Calley tirou sua pistola, encostou-a na cabeça do bebê, disparou e o jogou de volta ao amontoado de corpos. O tenente foi condenado a dez anos de prisão, dos quais cumpriu apenas quatro, sendo colocado em liberdade condicional em 1974. Para muitos analistas, o episódio de My Lai foi a gota d'água no front interno, onde a administração já vinha perdendo a guerra havia vários anos. Na semana passada, a opinião pública americana foi apresentada a um episódio que, embora menos cruento, pode ter sobre a avaliação da guerra no Iraque o mesmo efeito produzido pelo massacre no Vietnã. A rede de televisão americana CBS exibiu em horário nobre imagens de prisioneiros iraquianos sendo torturados e humilhados por soldados americanos.

As imagens foram feitas em novembro e dezembro no presídio de Abu Ghraib, em Bagdá. O impacto de ver soldados americanos, entre eles oficiais mulheres, foi ainda maior por causa do cenário do crime. Abu Ghraib é a cadeia-símbolo da crueldade do regime do ditador deposto Saddam Hussein. Nas semanas que se seguiram à tomada de Bagdá, no ano passado, os americanos trataram de expor ao mundo os horrores ocorridos no Iraque durante duas décadas de ditadura de Saddam Hussein. Filmadas e fotografadas em detalhes, as cicatrizes deixadas pelas sessões de tortura nos sobreviventes e as valas coletivas com os corpos dos assassinados nas prisões serviram como provas convincentes de que os Estados Unidos tinham libertado o povo iraquiano de um pesadelo. Em Abu Ghraib, Saddam executava anualmente cerca de 6.000 presos, em alguns casos com a utilização de métodos de uma perversidade aterradora. Incluíam uma máquina trituradora e a imersão em óleo fervente. Em setembro do ano passado, o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Donald Rumsfeld, visitou Abu Ghraib para ver com os próprios olhos as câmaras de tortura. O complexo nos arredores de Bagdá tinha então se tornado local de detenção para iraquianos capturados pelas tropas americanas.

As fotografias divulgadas na semana passada mostram prisioneiros iraquianos quase sempre nus, exceto por um capuz enfiado na cabeça. Numa foto, um iraquiano é mantido em pé sobre uma lata, com fios atados em suas mãos. É um método conhecido de tortura, que em pouco tempo provoca dores terríveis nos braços e nas pernas. De acordo com a CBS, o preso permaneceu por um longo tempo sobre a lata, avisado que seria eletrocutado se colocasse os pés no chão. Fotos e gravações em vídeo mostram prisioneiros nus ajoelhados uns sobre os outros para formar uma pirâmide humana. Outra imagem é a de iraquianos obrigados a simular que estão fazendo sexo oral em colegas. Muitas fotos mostram guardas americanos rindo despreocupadamente. Uma soldada ironiza os detentos nus apontando sarcasticamente para seus genitais. Em outra imagem um cão de guarda ataca um preso iraquiano.

 
AFP
SOB O NARIZ DA GENERAL
A general americana Janice Karpinski vistoria a prisão de Abu Ghraib, em 2003: seis americanos vão enfrentar a corte marcial

A divulgação das imagens de torturas praticadas por soldados americanos foi devastadora para a Casa Branca. Desde que se comprovou que as armas de destruição em massa que Saddam teria simplesmente não foram encontradas, o governo americano se agarrou na justificativa de que a invasão do Iraque serviu para libertar o povo iraquiano da repressão desumana de Saddam Hussein. É difícil sustentar essa tese quando as tropas de ocupação enfrentam uma rebelião popular em várias cidades iraquianas e surgem evidências de que os libertadores torturam e humilham prisioneiros. "O tratamento dado aos prisioneiros não reflete a natureza do povo americano. Não é assim que fazemos as coisas nos Estados Unidos", disse o presidente George W. Bush, que se disse "profundamente desgostoso e desapontado" com a revelação. O general-brigadeiro Mark Kimmitt, comandante do teatro de operações no Iraque, sentiu-se traído: "Que eu tenha colegas de farda capazes de fazer essas coisas me deixa arrasado. Eles violaram todos os códigos de ética e dignidade dos verdadeiros combatentes americanos".

As denúncias de torturas em Abu Ghraib são antigas, mas foi preciso aparecerem as imagens para o governo americano se sentir na obrigação de fazer alguma coisa para deter os torturadores. Ex-detentos, libertados no ano passado, reclamaram de espancamentos e punições, como a permanência de horas sob o sol e tortura psicológica que incluía ouvir música em volume elevado dia e noite. As investigações mostram a falta de regras claras para os soldados americanos destacados para cuidar dos presos em Abu Ghraib e também inesperadas falhas na escala de comando. A rede de televisão CBS admitiu que relutou em divulgar as imagens porque sofreu muita pressão do Pentágono para não fazê-lo. A denúncia surgiu num momento em que o apoio à guerra está em queda e confirma um fenômeno já bem estudado: a guerra pode despertar os melhores sentimentos de um ser humano. Em geral, contudo, o que se vê é a eclosão do lado negro da soldadesca. A diferença é que quando isso ocorre numa democracia o sistema se eleva acima das diferenças e do poder militar e age para punir os responsáveis e encontrar fórmulas de evitar que a tortura se repita. Do ponto de vista formal, o Pentágono agiu com correção. Seis soldados vão enfrentar a corte marcial por maus-tratos a prisioneiros. Outros quatro receberão uma punição disciplinar. Sete oficiais vão receber o mesmo tratamento, porque os soldados em questão informaram que o tratamento dispensado aos prisioneiros recebia o apoio dos oficiais. A general Janice Karpinski, que comandava a polícia militar e era responsável pelos centros de detenção, foi despachada de volta aos Estados Unidos, mas o dano na opinião pública não se dissipará pela mera punição dos envolvidos.

 

 

No estilo Dr. Fantástico 

Uma década depois do fim da Guerra Fria,
Bush acelera a corrida
armamentista para
assegurar a hegemonia nuclear americana

Os Estados Unidos têm soldados em dois conflitos armados, no Iraque e no Afeganistão, e ainda travam uma guerra sem fronteiras contra o terrorismo. Essas três frentes são prioridade na estratégia de defesa da superpotência desde os atentados de 11 de setembro de 2001. Nem por isso o governo de George W. Bush descuidou-se do arsenal nuclear americano. Só neste ano, os gastos com manutenção, modernização, pesquisa e produção de ogivas e mísseis nucleares chegam a 6,5 bilhões de dólares. O valor parece pequeno diante do orçamento anual do Pentágono, de 420 bilhões de dólares, mas representa 55% mais que os gastos médios anuais dos Estados Unidos durante a Guerra Fria. Para 2005, o presidente George W. Bush solicitou ao Congresso um aumento dessa verba para 6,8 bilhões de dólares. Os dados constam de um relatório divulgado na semana passada por Christopher Paine, especialista em armas nucleares do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais, com sede em Nova York.

A pergunta óbvia é por que os Estados Unidos gastam agora com armas nucleares mais do que o presidente Ronald Reagan na década de 80, na Guerra Fria? Seria de esperar que a corrida nuclear tivesse o ritmo abrandado com o fim da União Soviética, em 1991. "Ao continuar investindo no arsenal, Bush criou um novo conceito de dissuasão: intimidar os países que mantêm grandes arsenais nucleares e que, em tese, representam um risco para os Estados Unidos, como a Rússia e a China", disse Paine a VEJA. A pressão também serve para conter os inimigos menores que desenvolvem tecnologia nuclear, como a Coréia do Norte e o Irã. A atual gastança com o arsenal não inclui o projeto do escudo antimíssil. O programa prevê a criação de um sistema de defesa interligado por satélites cujo objetivo é detectar e destruir os mísseis inimigos no ar, antes que possam causar dano. O projeto, ainda em fase inicial, pode custar 300 bilhões de dólares nos próximos dez anos.

 
AP
Os Estados Unidos vão gastar neste ano 6,5 bilhões de dólares em armas nucleares. É bem mais do que os 4,2 bilhões de dólares anuais gastos durante a Guerra Fria

*Valores médios corrigidos pela inflação no período

 

 
 
 
 
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