Edição 1852 . 5 de maio de 2004

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Governo
Tudo na base do improviso

Impaciente com a comunicação do
governo, Lula vai ao programa
do Ratinho, atropela assessores,
tropeça no discurso e causa confusão


Thaís Oyama



Ricardo Stuckert/ABR
Lula com Ratinho e Marta (abaixo) no programa de Luciana Gimenez: a diferença entre impulso e estratégia
Divulgação/Rede TV


Notícias diárias sobre o governo Lula

Foi uma coisa assim, de amigo para amigo, na definição de Carlos Massa, o Ratinho. A entrevista-churrasco concedida pelo presidente Lula ao apresentador, e exibida no SBT na última sexta-feira, teve viola, cantoria, cachaça e muita piada de gaúcho. Na parte que foi ao ar, o clima foi de igual cordialidade, já que a idéia era "ajudar o presidente, e não colocá-lo contra a parede", como explicou o apresentador. Em qualquer governo, a ida do presidente da República a um programa popular como o de Ratinho sinalizaria a opção por uma estratégia de comunicação baseada na preocupação de atingir as massas, como a adotada pela prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, desde o início da sua administração. No governo Lula, é diferente. Como muitas das iniciativas presidenciais, a de participar do programa do SBT foi decidida na base do improviso. Compadre Ratinho ligou para o compadre-presidente, que o convidou para um churrasco, que, por sugestão do apresentador, incluiria – por que não? – uma entrevista. Nada que pudesse ser tão incômodo como uma coletiva, claro – apenas uma "entrevista de amigo". Lula topou na hora. O fato de o petista atropelar sua Secretaria de Comunicação, sua agenda e sua assessoria de imprensa para ceder aos seus impulsos, simpatias pessoais e ansiedade por divulgar "boas notícias" seria irrelevante não fosse por um detalhe: o comportamento do presidente anda causando problemas ao governo.

A semana passada trouxe dois exemplos disso. Ao deparar com faixas de protesto contra o imposto de renda na sua chegada à fábrica da Mercedes-Benz, em São Bernardo do Campo (SP), Lula – que, na semana anterior, havia feito quatro discursos de improviso no mesmo dia – decidiu inventar mais um. Em vez de concentrar-se no programa a ser anunciado (a entrega de ambulâncias para um serviço de atendimento de saúde emergencial), resolveu responder às críticas dos metalúrgicos. Conseguiu dois resultados: irritar a categoria (improviso é improviso e, quando o petista se pegou dizendo que sua platéia era "privilegiada" por poder pagar mais imposto, a bobagem já estava dita) e deixar em pânico sua equipe econômica ao dizer que "até sexta-feira" anunciaria a correção da tabela do IR – sendo que o assunto mal começara a ser discutido na Secretaria da Receita Federal. Episódio semelhante ocorreu no Ministério dos Transportes, conforme vazaram parlamentares que, na terça-feira, estiveram com o ministro Alfredo Nascimento (PL). Em um desabafo recheado de impropérios contra o chefe, Nascimento reclamou, entre outras coisas, que Lula havia anunciado um programa de recuperação de rodovias ao custo de 540 milhões de reais, sem atentar para o fato de que, na realidade, sua pasta dispunha de menos de um terço desse valor para a obra. "A impaciência do presidente em divulgar os resultados do governo faz com que ele acabe dando informações incorretas e anunciando projetos que não estão prontos. Isso só aumenta a frustração da sociedade", reclama um de seus assessores. No caso de São Bernardo, a impulsividade presidencial resultou ainda em outro tiro pela culatra: ao eclipsar com o "anúncio" da mudança da tabela do IR (manchete de todos os jornais) a notícia da entrega das ambulâncias (relegada ao pé das páginas), Lula, ele mesmo, torpedeou a tal agenda positiva cuja divulgação tanto cobra. Seus assessores de comunicação tiveram vontade de arrancar os cabelos.

Ultimamente, Lula pouco os tem ouvido. Nem mesmo seu ex-fiel conselheiro, o marqueteiro Duda Mendonça, tem escapado da auto-suficiência presidencial. Depois de desentender-se com o ministro Luiz Gushiken (Comunicação), que vive igual fase de desgraça junto ao chefe, Duda perdeu o livre trânsito que tinha no Planalto. Na propaganda do PT, porém, continua mandando – e, aí, a estratégia é bem mais clara. Ao comparar o governo Lula com o de Fernando Henrique Cardoso, a série que começou a ir ao ar na TV no fim de semana passado pretende desviar a atenção do espectador para a comparação devida: a do governo Lula real, o do desemprego recorde, com o governo Lula prometido, aquele dos 10 milhões de postos de trabalho. Mais do que isso, ela visa a dar troco antecipado aos ataques que o partido de FHC, que o eleitor encara com olhares cada vez mais saudosos, não terá dificuldade em perpetrar contra os candidatos petistas nas eleições municipais – e, em especial, contra uma das estrelas mais brilhantes do partido, a prefeita Marta Suplicy. O horário eleitoral já começou.

 
 
 
 
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