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Governo
Tudo
na base do improviso
Impaciente
com a comunicação do
governo, Lula vai ao programa
do Ratinho, atropela assessores,
tropeça no discurso e causa confusão

Thaís Oyama
Ricardo Stuckert/ABR
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| Lula
com Ratinho e Marta (abaixo) no programa de Luciana Gimenez:
a diferença entre impulso e estratégia
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Divulgação/Rede TV
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Foi
uma coisa assim, de amigo para amigo, na definição
de Carlos Massa, o Ratinho. A entrevista-churrasco concedida pelo
presidente Lula ao apresentador, e exibida no SBT na última
sexta-feira, teve viola, cantoria, cachaça e muita piada
de gaúcho. Na parte que foi ao ar, o clima foi de igual cordialidade,
já que a idéia era "ajudar o presidente, e não
colocá-lo contra a parede", como explicou o apresentador.
Em qualquer governo, a ida do presidente da República a um
programa popular como o de Ratinho sinalizaria a opção
por uma estratégia de comunicação baseada na
preocupação de atingir as massas, como a adotada pela
prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, desde o início
da sua administração. No governo Lula, é diferente.
Como muitas das iniciativas presidenciais, a de participar do programa
do SBT foi decidida na base do improviso. Compadre Ratinho ligou
para o compadre-presidente, que o convidou para um churrasco, que,
por sugestão do apresentador, incluiria por que não?
uma entrevista. Nada que pudesse ser tão incômodo
como uma coletiva, claro apenas uma "entrevista de amigo".
Lula topou na hora. O fato de o petista atropelar sua Secretaria
de Comunicação, sua agenda e sua assessoria de imprensa
para ceder aos seus impulsos, simpatias pessoais e ansiedade por
divulgar "boas notícias" seria irrelevante não fosse
por um detalhe: o comportamento do presidente anda causando problemas
ao governo.
A
semana passada trouxe dois exemplos disso. Ao deparar com faixas
de protesto contra o imposto de renda na sua chegada à fábrica
da Mercedes-Benz, em São Bernardo do Campo (SP), Lula
que, na semana anterior, havia feito quatro discursos de improviso
no mesmo dia decidiu inventar mais um. Em vez de concentrar-se
no programa a ser anunciado (a entrega de ambulâncias para
um serviço de atendimento de saúde emergencial), resolveu
responder às críticas dos metalúrgicos. Conseguiu
dois resultados: irritar a categoria (improviso é improviso
e, quando o petista se pegou dizendo que sua platéia era
"privilegiada" por poder pagar mais imposto, a bobagem já
estava dita) e deixar em pânico sua equipe econômica
ao dizer que "até sexta-feira" anunciaria a correção
da tabela do IR sendo que o assunto mal começara a
ser discutido na Secretaria da Receita Federal. Episódio
semelhante ocorreu no Ministério dos Transportes, conforme
vazaram parlamentares que, na terça-feira, estiveram com
o ministro Alfredo Nascimento (PL). Em um desabafo recheado de impropérios
contra o chefe, Nascimento reclamou, entre outras coisas, que Lula
havia anunciado um programa de recuperação de rodovias
ao custo de 540 milhões de reais, sem atentar para o fato
de que, na realidade, sua pasta dispunha de menos de um terço
desse valor para a obra. "A impaciência do presidente em divulgar
os resultados do governo faz com que ele acabe dando informações
incorretas e anunciando projetos que não estão prontos.
Isso só aumenta a frustração da sociedade",
reclama um de seus assessores. No caso de São Bernardo, a
impulsividade presidencial resultou ainda em outro tiro pela culatra:
ao eclipsar com o "anúncio" da mudança da tabela do
IR (manchete de todos os jornais) a notícia da entrega das
ambulâncias (relegada ao pé das páginas), Lula,
ele mesmo, torpedeou a tal agenda positiva cuja divulgação
tanto cobra. Seus assessores de comunicação tiveram
vontade de arrancar os cabelos.
Ultimamente,
Lula pouco os tem ouvido. Nem mesmo seu ex-fiel conselheiro, o marqueteiro
Duda Mendonça, tem escapado da auto-suficiência presidencial.
Depois de desentender-se com o ministro Luiz Gushiken (Comunicação),
que vive igual fase de desgraça junto ao chefe, Duda perdeu
o livre trânsito que tinha no Planalto. Na propaganda do PT,
porém, continua mandando e, aí, a estratégia
é bem mais clara. Ao comparar o governo Lula com o de Fernando
Henrique Cardoso, a série que começou a ir ao ar na
TV no fim de semana passado pretende desviar a atenção
do espectador para a comparação devida: a do governo
Lula real, o do desemprego recorde, com o governo Lula prometido,
aquele dos 10 milhões de postos de trabalho. Mais do que
isso, ela visa a dar troco antecipado aos ataques que o partido
de FHC, que o eleitor encara com olhares cada vez mais saudosos,
não terá dificuldade em perpetrar contra os candidatos
petistas nas eleições municipais e, em especial,
contra uma das estrelas mais brilhantes do partido, a prefeita Marta
Suplicy. O horário eleitoral já começou.
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