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Governo
Pelo
sim, pelo
não
O
custo da ambigüidade
Até
quando decide com maturidade, como
no caso do salário mínimo, o governo manda
mensagens contraditórias e a conta disso,
só em abril, ficou perto de 1 bilhão de reais

Leandra
Peres
Claudio Rossi
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Desde
que chegou ao Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva tem sido absolutamente rigoroso e constante numa questão
o respeito ao equilíbrio das contas públicas.
Nesses dezesseis meses, o governo não tomou uma só
medida que colocasse em risco a política econômica.
Na semana passada, o zelo do governo pelo ajuste fiscal foi reafirmado
com a decisão de aumentar o valor do salário mínimo
para 260 reais, ficando no limite do suportável para as contas
públicas. O mínimo é um tema caro ao coração
do presidente e faz parte das reivindicações históricas
do PT. Com o reajuste de apenas 20 reais, o governo mais uma vez
se recusou a fazer populismo à custa das contas públicas.
Em pleno ano eleitoral, a opção foi ainda mais dolorosa
para o presidente. Será que, de agora em diante, o governo
do PT não terá mais de provar sua maioridade econômica
e o país deixará de pagar o custo da desconfiança?
Infelizmente, não. E por sua própria culpa. Enquanto
o governo não parar de emitir sinais ambíguos e mensagens
contraditórias, que sempre passam a impressão de que
lhe falta convicção, a dúvida encontrará
espaço nas manchetes da imprensa.
Mesmo
na definição do novo valor do salário mínimo
o governo conseguiu desorientar a opinião pública
e o mercado. Fez seis reuniões em duas semanas, totalizando
vinte horas de debates em encontros que, em alguns casos, chegaram
a reunir nada menos que nove ministros. Além disso, o governo
fez sucessivos adiamentos do anúncio do novo valor. Foi tamanha
a embromação sobre o assunto que, na quarta-feira,
o mercado, já agitado com a possibilidade de aumento na taxa
de juros dos Estados Unidos, começou a exibir sinais de nervosismo,
pois já não sabia se podia confiar na capacidade do
ministro da Fazenda, Antonio Palocci, de convencer o presidente
Lula a manter o reajuste salarial dentro do razoável para
as contas públicas. Com tantas reuniões e adiamentos,
o governo desidratou a mensagem de que seu compromisso fiscal é
para valer. "Mesmo com a turbulência internacional poderíamos
estar colhendo muito mais resultados se a credibilidade acumulada
pelo governo no ano passado não fosse colocada em xeque a
todo instante", analisa um alto integrante do governo.
AP
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| O
ministro Palocci, com o secretário do Tesouro americano:
a conversa com o FMI produziu afoiteza quase infantil de ministros
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As
divergências públicas entre membros do governo são
o sinal mais eloqüente dessa ambigüidade, que costuma
cobrar um preço alto. Agora em abril, por exemplo, a desconfiança
dos investidores em relação à administração
petista custou quase 1 bilhão de reais ao país. Os
especialistas calculam que, levando em conta os resultados da economia
brasileira, expurgando qualquer interferência política,
o risco Brasil deveria ficar apenas 500 pontos acima do que o governo
americano paga de juros em seus títulos públicos.
Em vez disso, o risco Brasil está em quase 600 pontos. A
diferença de 100 pontos é o preço da desconfiança
do mercado em relação a um governo que não
consegue deixar de expor suas contradições publicamente.
O acréscimo de 1 bilhão de reais na dívida
pública em abril pode ser computado a essa fraqueza do governo
Lula. No ano passado, a administração do PT teve um
inegável sucesso na estabilização da economia.
Em 2002, o risco Brasil ficou 76% acima da média do risco
dos países emergentes. No ano passado, o primeiro sob administração
petista, o risco Brasil ficou apenas 49% acima. Neste ano, porém,
a média voltou a subir.
Antonio Milena
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| Mercadante:
de onde ele tirou a mudança na meta de inflação?
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"O problema é que o governo Lula é como um bolero:
são dois para lá e dois para cá", diz o ex-presidente
do Banco Central Gustavo Loyola. "Obviamente, esse não é
o ritmo apropriado para sinalizar o compromisso do governo com a
estabilidade das regras." Há três semanas, por exemplo,
o senador Aloizio Mercadante, do PT paulista, chegou a dizer que
havia "forte consenso" no governo sobre a elevação
da meta inflacionária do ano que vem de 4,5% para 5,5%
medida que teria impacto imediato nas expectativas do mercado. Ninguém
sabe de onde saiu a informação, pois desde então
o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, e o presidente do Banco
Central, Henrique Meirelles, vêm repetindo à exaustão
que a meta inflacionária não sofrerá nenhum
tipo de revisão. Mercadante já protagonizou outros
espetáculos do gênero, como quando aventou a possibilidade
de que o país adotaria o controle de capitais, mas está
longe de ser o único. Até o ministro Guido Mantega,
do Planejamento, produziu suas marolas, anunciando mudanças
nunca aplicadas no superávit primário ou divergindo
da equipe econômica sobre os índices de crescimento
do PIB.
Ninguém,
no entanto, rivaliza com o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES), Carlos Lessa, aquele que assumiu
o cargo dizendo que, sob sua gestão, o banco voltaria a ser
um hospital de empresas falidas. O caso mais recente ocorreu em
março passado, quando Lessa anunciou que o banco passaria
a cobrar juros mais elevados de investidores estrangeiros, considerando
que eles costumam ter acesso a linhas de financiamento mais baratas
no exterior. O ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan,
a quem o BNDES é teoricamente subordinado, criticou a decisão
e defendeu que fosse revisada. Não adiantou nada. Lessa só
recuou depois que o ministro José Dirceu, da Casa Civil,
despachou ordens expressas para que a política de juros do
banco não fizesse distinção entre nacionais
e estrangeiros. As confusões e os desencontros de Carlos
Lessa podem parecer apenas folclore, uma inofensiva exposição
museológica de idéias, mas o fato é que o BNDES
tem nada menos que 30 bilhões de reais para gerenciar, uma
montanha de dinheiro.
O
próprio presidente Lula já contribuiu para a cacofonia
do governo. Quando assumiu o comando do Banco Central, Henrique
Meirelles disse que um dos projetos do governo era estudar a independência
do BC. O assunto vagou insepulto durante todo o ano passado até
que, em janeiro último, o presidente Lula disse que o debate
sobre a independência do BC era "inquietação
de tese acadêmica". Como o assunto fora abordado várias
vezes por membros da equipe econômica, restaram duas explicações
possíveis para o caso: ou a equipe econômica falara
por conta própria sem nunca ter consultado o presidente sobre
a independência do BC, ou então o presidente concordara
com o assunto, dera corda para seus auxiliares e, na última
hora, resolvera mudar de idéia. Em novembro do ano passado,
durante uma viagem à África, o presidente Lula disse
que não se divulgaria um acordo com o FMI na sua ausência
do Brasil e, na mesma noite, o ministro Antonio Palocci anunciou
que o país acabara de fechar um novo acordo com a instituição.
Na
semana passada, Palocci esteve em Washington e Nova York, conversou
com dirigentes do FMI e Banco Mundial e fez contato com investidores
estrangeiros e, de novo, produziu-se uma confusão
típica do governo petista. Palocci disse que o FMI aceitou
elaborar um projeto piloto para testar a idéia de excluir
parte dos investimentos em infra-estrutura do cálculo do
superávit primário. Uma penca de ministros, numa afoiteza
quase infantil, saiu a anunciar cifras bilionárias que ficariam
livres para investimentos já neste ano. A ministra Dilma
Rousseff, das Minas e Energia, disse que teria 4 bilhões
de reais para investir. O indefectível Carlos Lessa, do BNDES,
entrou com quase 6 bilhões de reais. O presidente da Petrobras,
José Eduardo Dutra, falou em 7 bilhões de reais. Nada
disso vai acontecer porque se trata de uma idéia embrionária,
que talvez esteja no papel no ano que vem e será aplicada
em alguns países sabe-se lá quando. Esse tipo de comportamento
dos ministros também produz desconfiança: serão
eles ases da demagogia ou simplesmente não entenderam nada
do que foi negociado com o FMI? Em qualquer hipótese, a manifestação
pública das autoridades foi ruim.
Na
semana passada, a presença dos governadores em Brasília,
reunidos para pressionar o governo a liberar o de sempre
mais e mais verbas , foi um sintoma adicional da confusão.
Os governadores, sejam eles governistas, sejam oposicionistas, reclamam
que o governo não cumpre os acordos que faz e tem a desagradável
propensão a empurrar compromissos com a barriga. O governador
da Paraíba, Cássio Cunha Lima, um tucano com boas
relações no Palácio do Planalto, tem uma história
exemplar. Ele conta que, em negociação direta com
o presidente da República, acertou a edição
de uma medida provisória sobre gastos de companhias de gás
nos Estados. A minuta da medida provisória foi escrita pela
equipe do governador e entregue ao Palácio do Planalto no
fim de 2003. Em março deste ano, num encontro com o presidente
em Fortaleza, Cunha Lima ouviu que a MP seria assinada no dia seguinte.
Até agora, nada. "Já falei com o ministro Palocci,
que diz que não mandou retirar a MP da fila. Já falei
com o ministro Ciro Gomes, que diz que é a favor da medida,
e o presidente Lula também", diz ele. Então, o que
está acontecendo? "Não sei, mas parece que ninguém
quer assumir a paternidade desse sumiço", comenta o governador.
São dois pra lá, dois pra cá...
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