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Diogo
Mainardi
Os
revoltados a favor
"Marcelo
Coelho costuma atribuir-se
o tom cético de Montaigne. Pobre ceticismo
. Pobre Montaigne. Montaigne não tinha nada
do bom-mocismo conformista e pernóstico
de Marcelo Coelho"
Participo
de um programa de TV, Manhattan Connection. Entrei no lugar
de Arnaldo Jabor. Um amigo meu chamou Arnaldo Jabor de "revoltado
a favor". Antes ele era revoltado a favor de Fernando Henrique.
Agora é revoltado a favor de Lula. Continua revoltado. Continua
a favor.
Pior
que Arnaldo Jabor é Marcelo Coelho. Apesar de viver num "mundo
cultural com pouquíssimos pontos de contato com o da maioria
da população", sendo avesso a "TV, música popular
e futebol", Marcelo Coelho, logo depois das eleições,
encantou-se com o "jeito maroto" de Lula, sua "figura antiépica",
sua "espontaneidade bem no estilo de Rebolo e Pennacchi". Para Marcelo
Coelho, Lula finalmente tinha livrado a política "das teorias,
dos programas, das discussões partidárias". Um ano
depois, ele se desiludiu. Lula passou a encarnar a "didática
pequeno-burguesa, travestida de sabedoria popular, que se desmancha
em lágrimas de pura parvoíce". Lula mudou? Claro que
não. Quem mudou foi Marcelo Coelho. Ele costuma atribuir-se
o tom cético de Montaigne. Pobre ceticismo. Pobre Montaigne.
Montaigne não tinha nada do bom-mocismo conformista e pernóstico
de Marcelo Coelho. De hoje em diante, proíbo-o de citar Montaigne.
Pode citar Habermas, se quiser.
A
releitura do que se publicou na imprensa no período eleitoral
deveria ser matéria obrigatória em todas as faculdades
de jornalismo. Janio de Freitas saudou a eleição de
Lula como um triunfo do humanismo sobre a tecnocracia, abrindo a
esperança de um futuro melhor. Eliane Cantanhêde considerou
a vitória de Lula "um marco de mudança, esperança,
justiça, moralidade e igualdade". O militante petista Luis
Fernando Verissimo comemorou o fim do clientelismo e do fisiologismo
dos tucanos, que se comportavam como "caddies miseráveis
que adotam os hábitos dos ricos para os quais carregam o
saco de golfe". Antonio Candido viu o começo de uma "fase
redentora na vida nacional", em que a utopia se tornaria realidade.
Essa gente acreditou mesmo no PT? Em todos esses anos de convívio
eles nunca desconfiaram da inépcia e da falta de idéias
dos dirigentes do partido? Era tão difícil assim perceber
a impostura?
Quem
também me espanta são esses retardatários que
demoraram mais de um ano para descobrir que Lula é iletrado
e não gosta de ópera. É pouco. É atenuar
o problema. Falta de cultura virou um álibi para a palermice
do governo. E o governo dá provas diárias de palermice.
Na última semana, Lula prometeu diminuir a criminalidade
alistando futuros traficantes nas Forças Armadas. Depois
das cotas para negros nas universidades, ele quer esse outro tipo
de cota nos quartéis. Como o recruta fará para demonstrar
que é um traficante potencial? Basta um antepassado traficante
ou ele próprio precisa ter passagens pela polícia?
Um
dos poucos jornalistas que não se desiludiram com Lula foi
o Ratinho. A recompensa por sua seriedade foi uma entrevista com
o presidente. Eu sou menos sério que o Ratinho, mas também
gostaria de entrevistar Lula. Vou ligar agora mesmo para seu assessor
de imprensa, tentando marcar uma hora.
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