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Entrevista:
Andréa
Salgado
"Não
adianta chorar"
Seis
meses após ter as
pernas decepadas,
a
professora dá os primeiros passos com
próteses e mantém o otimismo

Ariel
Kostman
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Oscar Cabral

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"Como
não posso voltar atrás, tenho de dar a volta por cima.
Quando vejo que estou ficando triste, digo a mim mesma:
'Levanta essa cabeça' " |
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No
fim de outubro do ano passado, uma lancha colidiu com o banana boat
em que passeava a carioca Andréa Salgado numa praia do litoral
fluminense. Aos 33 anos, Andréa teve ambas as pernas amputadas
pelas pás do motor da embarcação. Na época,
ela surpreendeu a todos com a força de vontade e o otimismo
com que encarou a situação. Meio ano depois, ela demonstra
a mesma energia. Faz fisioterapia diariamente e já está
começando a andar com as pernas artificiais. No último
Carnaval, ainda de cadeira de rodas, desfilou na escola de samba
Tradição. A motivação para manter a
serenidade, diz ela, são o marido, o bancário Orlando
Salgado Jr., e os dois filhos, Letícia, de 4 anos, e Orlando,
de 7. Os responsáveis pelo acidente, no qual morreu o estudante
Gabriel Borges da Silva, de 16 anos, não foram punidos. Se
um médico de Sorocaba não tivesse lhe doado as próteses,
Andréa, que é professora de pré-escola e está
desempregada, não teria condições financeiras
de comprá-las. Andréa recebeu VEJA em sua casa no
bairro de Vila Isabel, na Zona Norte do Rio de Janeiro, para esta
entrevista.
Veja
Muita gente se surpreende com o otimismo que a senhora
demonstrou logo após o acidente. Como conseguiu isso?
Andréa
Diferentemente do que as pessoas pensam, eu fiquei chocada
e triste. Não foi uma perna só, foram as duas. Sou
forte, tenho vontade de viver, mas foi muito difícil. Foi
como se tivessem me violentado. Tiraram um pedaço bem grande.
Faz muita falta. É óbvio que se eu pudesse escolher
não gostaria de estar nesta situação. Acontece
que tenho um marido e dois filhos pequenos para cuidar. Como é
certo que não terei minhas pernas de volta, não adianta
ficar na cama chorando. Tenho de ficar boa para cuidar da minha
família. Tento usar minha energia para mudar o enredo dessa
história.
Veja
Qual
é seu objetivo imediato?
Andréa
Minha
vontade agora é ficar independente. Poder ter metade da minha
vida de volta. Porque inteira eu sei que não vou ter nunca
mais. Muita gente diz que a ficha não caiu, que eu ainda
não me dei conta do que aconteceu, ainda não caí
na real. Mas a ficha já caiu há muito tempo, desde
o dia do acidente. Eu vi tudo, vi como minha perna estava. Eu dizia
o tempo todo: Deus, tira minha perna, mas não tira a minha
vida. E Ele me atendeu. O que eu quero é voltar a andar e
estou bem animada com a fisioterapia. Hoje preciso de alguém
para me ajudar a fazer as coisas porque sozinha não dá.
Veja
De onde vem esse ânimo?
Andréa
Eu mesma não esperava que fosse ter essa força toda.
Acho que é Deus, e minha família também. Desde
o início, eu é que dei força para meu marido
e meus filhos. Todo mundo estava arrasado. Logo depois do acidente,
a primeira coisa que eu disse ao meu marido foi para não
se prender ao que eu perdi, mas sim ao fato de eu estar viva. Mesmo
sem poder andar, estou viva. E estou me virando bem. Já subo
e desço escada de muletas.
Veja
O que foi mais difícil superar?
Andréa
Andar é o mais difícil pensei que fosse mais
fácil. Sinto um pouco de dor na perna direita, que foi muito
castigada no acidente. Às vezes o músculo se solta
do osso. Preciso fazer muita fisioterapia para fortalecê-lo.
Vou ter de aprender a andar de novo, desta vez com a prótese.
Veja
Como é esse processo?
Andréa
É uma batalha, mas acredito que vou vencer. Estou
progredindo rápido. Ainda não consigo me levantar
sozinha, mas se alguém me ajuda eu consigo ficar de pé
por alguns momentos. E caio bastante, também. Parece videocassetada.
Outro dia em casa eu desci da escada, pulei para a almofada, a almofada
virou e fui de cara para o chão. No aeroporto, já
caí de joelho no chão. Não dói, eu não
sinto nada, mas não consigo me levantar sozinha.
Veja
A senhora se lembra exatamente do que aconteceu no
dia do acidente?
Andréa
Sim,
fiquei lúcida o tempo todo. Estava no banana boat e vi a
lancha já bem em cima. Foi o tempo de olhar e pular na água
para tentar me salvar. Lembro que dei uma braçada e, quando
fui dar a segunda, a lancha passou por cima das minhas pernas. Senti
uma dor muito grande, uma queimação. Quando olhei,
vi que a perna direita estava muito ruim. Na outra, o pé
foi para trás e ficou ao lado do meu rosto. Eu me preocupei
com as crianças. Elas estavam na beira do mar e eu não
queria que me vissem. Fui colocada num bote e uma enfermeira me
socorreu, fez um torniquete e fui levada de lancha até a
Capitania dos Portos. Eu me apeguei a Deus como uma tábua
de salvação. Não vi nenhuma luz, nada disso.
Só agarrava na mão da enfermeira e pedia para ficar
viva. Eles me deram alguns remédios contra dor até
chegar o helicóptero. Na ambulância ouvi dizerem que
eu não chegaria viva ao Rio. O tempo todo eu só pedia:
"Deus, leva minhas pernas, mas me deixa viva".
Veja
A senhora ficou consciente o tempo todo?
Andréa Sim, dentro do helicóptero
estava consciente e cheguei ao hospital lúcida. O médico
conteve a hemorragia, depois me levaram para a sala de cirurgia
e só aí fiquei tonta e não lembro de mais nada.
Quando acordei, ninguém me falou que tinham amputado minhas
pernas. Parecia que estavam engessadas. Eu as sentia duras e bem
esticadas. O médico demorou para falar comigo, aí
eu mesma, sozinha, coloquei a mão e descobri que tinha perdido
as pernas. Quando o médico veio me falar, eu já sabia.
Veja
Como foi a reação de seu marido e de
seus filhos?
Andréa
Meu filho mais velho, que viu a cena, ficou muito agitado,
está gaguejando até hoje. A mais nova também
viu, mas ela não entende tanto. Meu marido ficou arrasado.
Mas, quando eles viram que eu estava bem, ficaram mais tranqüilos.
Acho que agora meus filhos estão bem. Brincam, falam que
têm uma mãe biônica. Outro dia minha filha sentou
na escada e subiu apoiada só nas mãos, do jeito que
eu faço. E falava assim: "Perdi as pernas, igual a minha
mãe". Acho que todos aceitaram a situação,
porque eu também aceitei. Se eu estivesse triste, deprimida,
eles estariam arrasados.
Veja
Como está o relacionamento com seu marido?
Andréa O relacionamento está até
melhor do que antes. Orlando tem sido muito paciente e carinhoso
comigo. Estamos mais amigos, namoramos mais...
Veja
De que forma a senhora é tratada pelas outras
pessoas?
Andréa
Alguns olham com pena. Muita gente faz aquela cara: "Oh,
coitada, tão nova". Pena é o pior sentimento que alguém
pode ter por mim.
Veja
Isso a incomoda?
Andréa
Antes
eu ficava muito brava com isso, mas me acostumei. Sei que as pessoas
não fazem por maldade, então nem ligo mais.
Veja
Mas a senhora não tem momentos de tristeza?
Andréa
Às vezes, mas não entro em depressão. Se pudesse
voltar atrás, eu voltaria. Como não posso, tenho de
dar a volta por cima e tocar a bola para a frente. Não me
deixo abater. Quando vejo que estou ficando triste eu digo a mim
mesma: "Levanta essa cabeça".
Veja
E o que faz para espantar a tristeza?
Andréa
Eu
sempre gostei muito de viver. Sou alegre, espontânea e guerreira,
sempre fui. O acidente me deixou com algumas limitações.
Mas estou aprendendo a conviver com elas e aceitando bem. Gosto
de ler, cuidar dos meus filhos, da minha casa. Isso me distrai.
Tenho lido muitos livros kardecistas, livros com mensagens de otimismo.
Sou católica, mas depois do acidente encontrei muitas respostas
no espiritismo. Aprendi que nada acontece por acaso.
Veja
A senhora acredita que o acidente não aconteceu
por acaso?
Andréa
Acho
que não. Penso que já estava escrito, estava programado.
Tinha de acontecer. Sempre tive medo de andar de banana boat. Naquele
dia, decidi andar na última hora. Encaro como se tivesse
recebido uma missão, uma missão de ajudar as pessoas.
Veja
O que aconteceu com os responsáveis pelo acidente?
Andréa
Nada.
Ninguém foi preso, detido, nada. Nem o cara que pilotava
a lancha e estava embriagado. Eu acho que ele tinha de estar preso,
já que foi pego em flagrante. O delegado da Capitania dos
Portos nem sequer foi afastado. A Marinha não deu nem um
telefonema para saber se eu preciso de alguma coisa. Quando fui
depor na Marinha, eles insinuaram que a culpa era minha. Disseram
que banana boat é proibido e que eu chamei o azar. Por isso,
não acredito no inquérito deles. São coisas
com as quais não concordo, acho que a lei não funciona.
Veja
A senhora perdoou essas pessoas?
Andréa
Quem tem de perdoar é Deus, não eu. Não tenho
ódio, mas queria que elas fossem punidas, sim. Nunca mais
encontrei nenhuma dessas pessoas. Nem gostaria.
Veja
O acidente mudou sua maneira de encarar a vida?
Andréa
Existem
coisas às quais eu dava muito valor e hoje não dou
mais. Estou menos apegada a coisas materiais e menos ciumenta. Esta
casa é um exemplo. Construímos com o maior sacrifício,
pensava em ficar aqui pelo resto da vida. Depois do acidente, se
conseguir vender para comprar uma casa sem escadas, vendo na hora.
Estou aprendendo muito. Também tenho vontade de ajudar outras
pessoas amputadas. Talvez entrar na política para defender
os direitos dos deficientes. Ganhei uma bolsa para cursar fisioterapia
na Universidade Gama Filho. Acho que em agosto, se eu já
estiver andando, dá para começar. Depois, abrir uma
clínica, doar próteses a quem não tem condição
de pagar. Acho que minha missão é essa. Ajudar as
pessoas. Muita gente me procura para dizer que recuperou a vontade
de viver depois de conhecer minha história. Isso me deixa
contente e me dá mais força ainda para prosseguir.
Veja
Como é sua rotina hoje?
Andréa
Acordo e vou para a fisioterapia. É igual a uma academia,
são três horas diárias, é bem cansativo.
Volto, almoço, dou comida para as crianças e vou para
a natação com elas. Depois a gente volta, lancha.
Por enquanto, não estão podendo fazer mais nada porque
eu não posso levar, mas espero conseguir logo. Daí
espero meu marido chegar do trabalho, ele me leva para tomar banho.
Às vezes fico desanimada, dá vontade de desistir.
Mas na mesma hora penso que tenho meus filhos para cuidar. Quero
andar de carro, ir ao mercado. Hoje eu dependo muito dos outros.
É uma amiga que leva as crianças para a escola, outra
amiga que leva para a natação. Eu não gosto.
Sempre fui muito independente. Quero ter isso de volta. E com certeza
vou conseguir.
Veja
O que é mais complicado na vida de um deficiente
físico?
Andréa
Tenho de me virar porque nosso país não ajuda. Fui
ao Corcovado outro dia e não tinha rampa, não tinha
banheiro para deficiente, nada. Quer dizer, eu é que tenho
de me adaptar. Antes, eu não percebia essas coisas. Agora
estou vendo as dificuldades para os deficientes no nosso país.
Não tem ônibus, as ruas são esburacadas, não
tem rampa. Faltam recursos e assistência médica. Se
eu não tivesse ganho a prótese do Nelson Nolé
(médico de Sorocaba, no interior de São Paulo),
teria de esperar muito mais.
Veja
A senhora toma remédios para suportar a dor?
Andréa
Não, a dor é suportável. Só tomei um
remédio para dormir, mas nem esse mais estou tomando. No
início eu tinha muitos pesadelos. Ficava muito ansiosa e
não conseguia dormir. Por isso, a psiquiatra me deu o remédio.
Mas parei de tomar e estou conseguindo dormir bem. Não tenho
mais tido pesadelos.
Veja
É comum em amputados a sensação
de que ainda têm as pernas. A senhora sente isso?
Andréa
Sim,
é a chamada sensação fantasma. Sinto fisgadas
no pé, o dedo coça. Com a prótese, eu só
uso tênis. Eu nunca gostei de usar tênis porque apertavam
o meu dedo. O mesmo aperto que eu sentia sinto agora com a prótese,
você acredita?
Veja
Dentre as atividades que teve de abandonar, o que
mais lhe dá saudade?
Andréa
O que mais me dá saudade é praia. Piscina ainda é
possível, mas praia não. Até posso ir, mas
nem pensar em rolar na areia, pegar jacaré com as crianças.
São coisas de que eu gostava muito. E dançar também.
Mas dançar ainda dá. Mexe para um lado, para a frente,
dá para brincar.
Veja
A senhora pretende voltar a trabalhar?
Andréa
Sim, quero voltar a dar aulas. Sei que não será fácil.
Se para quem é normal emprego já está difícil,
imagine para uma deficiente.
Veja
A senhora é reconhecida na rua?
Andréa
Todo
mundo vem falar comigo na rua, pede para tirar foto, autógrafo.
Eu morro de vergonha, não sou artista nem nada. Muita gente
vem agradecer, dizer que eu sou exemplo, essas coisas.
Veja
A senhora é vaidosa?
Andréa
Sempre fui e continuo sendo. Vou ao cabeleireiro uma vez por semana,
gosto de fazer escova e as unhas. Já para roupa eu não
ligo muito.
Veja
Como foi desfilar numa escola de samba?
Andréa
Foi ótimo. Assistir ao desfile no Sambódromo era um
sonho que eu tinha. Eu assisti e desfilei. Foi muito emocionante.
As pessoas na arquibancada gritando meu nome, me dando parabéns.
Se a escola me chamar no ano que vem, eu vou.
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