Edição 1852 . 5 de maio de 2004

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Entrevista: Andréa Salgado
"Não adianta chorar"

Seis meses após ter as pernas decepadas,
a professora dá os primeiros passos com
próteses e mantém o otimismo


Ariel Kostman

 

Oscar Cabral

"Como não posso voltar atrás, tenho de dar a volta por cima. Quando vejo que estou ficando triste, digo a mim mesma: 'Levanta essa cabeça' "

No fim de outubro do ano passado, uma lancha colidiu com o banana boat em que passeava a carioca Andréa Salgado numa praia do litoral fluminense. Aos 33 anos, Andréa teve ambas as pernas amputadas pelas pás do motor da embarcação. Na época, ela surpreendeu a todos com a força de vontade e o otimismo com que encarou a situação. Meio ano depois, ela demonstra a mesma energia. Faz fisioterapia diariamente e já está começando a andar com as pernas artificiais. No último Carnaval, ainda de cadeira de rodas, desfilou na escola de samba Tradição. A motivação para manter a serenidade, diz ela, são o marido, o bancário Orlando Salgado Jr., e os dois filhos, Letícia, de 4 anos, e Orlando, de 7. Os responsáveis pelo acidente, no qual morreu o estudante Gabriel Borges da Silva, de 16 anos, não foram punidos. Se um médico de Sorocaba não tivesse lhe doado as próteses, Andréa, que é professora de pré-escola e está desempregada, não teria condições financeiras de comprá-las. Andréa recebeu VEJA em sua casa no bairro de Vila Isabel, na Zona Norte do Rio de Janeiro, para esta entrevista.

Veja – Muita gente se surpreende com o otimismo que a senhora demonstrou logo após o acidente. Como conseguiu isso?
Andréa – Diferentemente do que as pessoas pensam, eu fiquei chocada e triste. Não foi uma perna só, foram as duas. Sou forte, tenho vontade de viver, mas foi muito difícil. Foi como se tivessem me violentado. Tiraram um pedaço bem grande. Faz muita falta. É óbvio que se eu pudesse escolher não gostaria de estar nesta situação. Acontece que tenho um marido e dois filhos pequenos para cuidar. Como é certo que não terei minhas pernas de volta, não adianta ficar na cama chorando. Tenho de ficar boa para cuidar da minha família. Tento usar minha energia para mudar o enredo dessa história.

Veja – Qual é seu objetivo imediato?
Andréa – Minha vontade agora é ficar independente. Poder ter metade da minha vida de volta. Porque inteira eu sei que não vou ter nunca mais. Muita gente diz que a ficha não caiu, que eu ainda não me dei conta do que aconteceu, ainda não caí na real. Mas a ficha já caiu há muito tempo, desde o dia do acidente. Eu vi tudo, vi como minha perna estava. Eu dizia o tempo todo: Deus, tira minha perna, mas não tira a minha vida. E Ele me atendeu. O que eu quero é voltar a andar e estou bem animada com a fisioterapia. Hoje preciso de alguém para me ajudar a fazer as coisas porque sozinha não dá.  

Veja – De onde vem esse ânimo?
Andréa – Eu mesma não esperava que fosse ter essa força toda. Acho que é Deus, e minha família também. Desde o início, eu é que dei força para meu marido e meus filhos. Todo mundo estava arrasado. Logo depois do acidente, a primeira coisa que eu disse ao meu marido foi para não se prender ao que eu perdi, mas sim ao fato de eu estar viva. Mesmo sem poder andar, estou viva. E estou me virando bem. Já subo e desço escada de muletas.  

Veja – O que foi mais difícil superar?
Andréa – Andar é o mais difícil – pensei que fosse mais fácil. Sinto um pouco de dor na perna direita, que foi muito castigada no acidente. Às vezes o músculo se solta do osso. Preciso fazer muita fisioterapia para fortalecê-lo. Vou ter de aprender a andar de novo, desta vez com a prótese.  

Veja – Como é esse processo?
Andréa – É uma batalha, mas acredito que vou vencer. Estou progredindo rápido. Ainda não consigo me levantar sozinha, mas se alguém me ajuda eu consigo ficar de pé por alguns momentos. E caio bastante, também. Parece videocassetada. Outro dia em casa eu desci da escada, pulei para a almofada, a almofada virou e fui de cara para o chão. No aeroporto, já caí de joelho no chão. Não dói, eu não sinto nada, mas não consigo me levantar sozinha.  

Veja – A senhora se lembra exatamente do que aconteceu no dia do acidente?
Andréa – Sim, fiquei lúcida o tempo todo. Estava no banana boat e vi a lancha já bem em cima. Foi o tempo de olhar e pular na água para tentar me salvar. Lembro que dei uma braçada e, quando fui dar a segunda, a lancha passou por cima das minhas pernas. Senti uma dor muito grande, uma queimação. Quando olhei, vi que a perna direita estava muito ruim. Na outra, o pé foi para trás e ficou ao lado do meu rosto. Eu me preocupei com as crianças. Elas estavam na beira do mar e eu não queria que me vissem. Fui colocada num bote e uma enfermeira me socorreu, fez um torniquete e fui levada de lancha até a Capitania dos Portos. Eu me apeguei a Deus como uma tábua de salvação. Não vi nenhuma luz, nada disso. Só agarrava na mão da enfermeira e pedia para ficar viva. Eles me deram alguns remédios contra dor até chegar o helicóptero. Na ambulância ouvi dizerem que eu não chegaria viva ao Rio. O tempo todo eu só pedia: "Deus, leva minhas pernas, mas me deixa viva".  

Veja – A senhora ficou consciente o tempo todo?
Andréa – Sim, dentro do helicóptero estava consciente e cheguei ao hospital lúcida. O médico conteve a hemorragia, depois me levaram para a sala de cirurgia e só aí fiquei tonta e não lembro de mais nada. Quando acordei, ninguém me falou que tinham amputado minhas pernas. Parecia que estavam engessadas. Eu as sentia duras e bem esticadas. O médico demorou para falar comigo, aí eu mesma, sozinha, coloquei a mão e descobri que tinha perdido as pernas. Quando o médico veio me falar, eu já sabia.
 

Veja – Como foi a reação de seu marido e de seus filhos?
Andréa – Meu filho mais velho, que viu a cena, ficou muito agitado, está gaguejando até hoje. A mais nova também viu, mas ela não entende tanto. Meu marido ficou arrasado. Mas, quando eles viram que eu estava bem, ficaram mais tranqüilos. Acho que agora meus filhos estão bem. Brincam, falam que têm uma mãe biônica. Outro dia minha filha sentou na escada e subiu apoiada só nas mãos, do jeito que eu faço. E falava assim: "Perdi as pernas, igual a minha mãe". Acho que todos aceitaram a situação, porque eu também aceitei. Se eu estivesse triste, deprimida, eles estariam arrasados.  

Veja – Como está o relacionamento com seu marido?
Andréa – O relacionamento está até melhor do que antes. Orlando tem sido muito paciente e carinhoso comigo. Estamos mais amigos, namoramos mais...
 

Veja – De que forma a senhora é tratada pelas outras pessoas?
Andréa – Alguns olham com pena. Muita gente faz aquela cara: "Oh, coitada, tão nova". Pena é o pior sentimento que alguém pode ter por mim.  

Veja – Isso a incomoda?
Andréa – Antes eu ficava muito brava com isso, mas me acostumei. Sei que as pessoas não fazem por maldade, então nem ligo mais.  

Veja – Mas a senhora não tem momentos de tristeza?
Andréa – Às vezes, mas não entro em depressão. Se pudesse voltar atrás, eu voltaria. Como não posso, tenho de dar a volta por cima e tocar a bola para a frente. Não me deixo abater. Quando vejo que estou ficando triste eu digo a mim mesma: "Levanta essa cabeça".  

Veja – E o que faz para espantar a tristeza?
Andréa – Eu sempre gostei muito de viver. Sou alegre, espontânea e guerreira, sempre fui. O acidente me deixou com algumas limitações. Mas estou aprendendo a conviver com elas e aceitando bem. Gosto de ler, cuidar dos meus filhos, da minha casa. Isso me distrai. Tenho lido muitos livros kardecistas, livros com mensagens de otimismo. Sou católica, mas depois do acidente encontrei muitas respostas no espiritismo. Aprendi que nada acontece por acaso.  

Veja – A senhora acredita que o acidente não aconteceu por acaso?
Andréa – Acho que não. Penso que já estava escrito, estava programado. Tinha de acontecer. Sempre tive medo de andar de banana boat. Naquele dia, decidi andar na última hora. Encaro como se tivesse recebido uma missão, uma missão de ajudar as pessoas.  

Veja – O que aconteceu com os responsáveis pelo acidente?
Andréa – Nada. Ninguém foi preso, detido, nada. Nem o cara que pilotava a lancha e estava embriagado. Eu acho que ele tinha de estar preso, já que foi pego em flagrante. O delegado da Capitania dos Portos nem sequer foi afastado. A Marinha não deu nem um telefonema para saber se eu preciso de alguma coisa. Quando fui depor na Marinha, eles insinuaram que a culpa era minha. Disseram que banana boat é proibido e que eu chamei o azar. Por isso, não acredito no inquérito deles. São coisas com as quais não concordo, acho que a lei não funciona.  

Veja – A senhora perdoou essas pessoas?
Andréa – Quem tem de perdoar é Deus, não eu. Não tenho ódio, mas queria que elas fossem punidas, sim. Nunca mais encontrei nenhuma dessas pessoas. Nem gostaria.  

Veja – O acidente mudou sua maneira de encarar a vida?
Andréa – Existem coisas às quais eu dava muito valor e hoje não dou mais. Estou menos apegada a coisas materiais e menos ciumenta. Esta casa é um exemplo. Construímos com o maior sacrifício, pensava em ficar aqui pelo resto da vida. Depois do acidente, se conseguir vender para comprar uma casa sem escadas, vendo na hora. Estou aprendendo muito. Também tenho vontade de ajudar outras pessoas amputadas. Talvez entrar na política para defender os direitos dos deficientes. Ganhei uma bolsa para cursar fisioterapia na Universidade Gama Filho. Acho que em agosto, se eu já estiver andando, dá para começar. Depois, abrir uma clínica, doar próteses a quem não tem condição de pagar. Acho que minha missão é essa. Ajudar as pessoas. Muita gente me procura para dizer que recuperou a vontade de viver depois de conhecer minha história. Isso me deixa contente e me dá mais força ainda para prosseguir.  

Veja – Como é sua rotina hoje?
Andréa – Acordo e vou para a fisioterapia. É igual a uma academia, são três horas diárias, é bem cansativo. Volto, almoço, dou comida para as crianças e vou para a natação com elas. Depois a gente volta, lancha. Por enquanto, não estão podendo fazer mais nada porque eu não posso levar, mas espero conseguir logo. Daí espero meu marido chegar do trabalho, ele me leva para tomar banho. Às vezes fico desanimada, dá vontade de desistir. Mas na mesma hora penso que tenho meus filhos para cuidar. Quero andar de carro, ir ao mercado. Hoje eu dependo muito dos outros. É uma amiga que leva as crianças para a escola, outra amiga que leva para a natação. Eu não gosto. Sempre fui muito independente. Quero ter isso de volta. E com certeza vou conseguir.  

Veja – O que é mais complicado na vida de um deficiente físico?
Andréa – Tenho de me virar porque nosso país não ajuda. Fui ao Corcovado outro dia e não tinha rampa, não tinha banheiro para deficiente, nada. Quer dizer, eu é que tenho de me adaptar. Antes, eu não percebia essas coisas. Agora estou vendo as dificuldades para os deficientes no nosso país. Não tem ônibus, as ruas são esburacadas, não tem rampa. Faltam recursos e assistência médica. Se eu não tivesse ganho a prótese do Nelson Nolé (médico de Sorocaba, no interior de São Paulo), teria de esperar muito mais.  

Veja – A senhora toma remédios para suportar a dor?
Andréa – Não, a dor é suportável. Só tomei um remédio para dormir, mas nem esse mais estou tomando. No início eu tinha muitos pesadelos. Ficava muito ansiosa e não conseguia dormir. Por isso, a psiquiatra me deu o remédio. Mas parei de tomar e estou conseguindo dormir bem. Não tenho mais tido pesadelos.  

Veja – É comum em amputados a sensação de que ainda têm as pernas. A senhora sente isso?
Andréa – Sim, é a chamada sensação fantasma. Sinto fisgadas no pé, o dedo coça. Com a prótese, eu só uso tênis. Eu nunca gostei de usar tênis porque apertavam o meu dedo. O mesmo aperto que eu sentia sinto agora com a prótese, você acredita?

Veja – Dentre as atividades que teve de abandonar, o que mais lhe dá saudade?
Andréa – O que mais me dá saudade é praia. Piscina ainda é possível, mas praia não. Até posso ir, mas nem pensar em rolar na areia, pegar jacaré com as crianças. São coisas de que eu gostava muito. E dançar também. Mas dançar ainda dá. Mexe para um lado, para a frente, dá para brincar.  

Veja – A senhora pretende voltar a trabalhar?
Andréa – Sim, quero voltar a dar aulas. Sei que não será fácil. Se para quem é normal emprego já está difícil, imagine para uma deficiente.  

Veja – A senhora é reconhecida na rua?
Andréa – Todo mundo vem falar comigo na rua, pede para tirar foto, autógrafo. Eu morro de vergonha, não sou artista nem nada. Muita gente vem agradecer, dizer que eu sou exemplo, essas coisas.  

Veja – A senhora é vaidosa?
Andréa – Sempre fui e continuo sendo. Vou ao cabeleireiro uma vez por semana, gosto de fazer escova e as unhas. Já para roupa eu não ligo muito.  

Veja – Como foi desfilar numa escola de samba?
Andréa – Foi ótimo. Assistir ao desfile no Sambódromo era um sonho que eu tinha. Eu assisti e desfilei. Foi muito emocionante. As pessoas na arquibancada gritando meu nome, me dando parabéns. Se a escola me chamar no ano que vem, eu vou.

 
 
 
 
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