|
|
Em
foco: Sérgio Abranches
O
fator Tocqueville
"Para
que a representação política responda
aos cidadãos é preciso existir um mínimo
de ação direta independente. Há ocasiões
em que nada substitui um panelaço"
Dos
500 indivíduos, aproximadamente, da espécie dos muriquis
do norte, os maiores primatas da América do Sul, metade está
em uma reserva particular do patrimônio natural (RPPN), no
município de Caratinga, em Minas Gerais. Foram salvos pela
ação individual do proprietário, Feliciano
Abdalla, que se encheu de encantos pelos macacos, impedia a caça
e preservou a mata, 60% da propriedade. A família criou a
RPPN, e o neto de Feliciano, Ramiro Passos, cuida da ONG que a administra,
a Preserve Muriqui. Ela conta com o apoio da Conservation International.
É um oásis: para chegar lá, passa-se por áreas
inteiramente degradadas.
Caratinga
e seu entorno têm ainda as marcas de duas trágicas
enchentes, em grande medida resultantes de construções
irregulares às margens do rio. Viu oito de seus distritos
serem transformados em municípios, sem viabilidade socioeconômica,
mas com prefeitos, vereadores, burocratas e prestadores de serviços
disputando a mesma fatia de impostos. Não se nota indignação
com o abandono, a feiúra progressiva das cidades nem a devastação.
Ilustração Ale Setti
 |
A algumas horas de Caratinga, fica outro oásis: o Parque
Estadual do Rio Doce, uma reserva de mata atlântica com mais
de quarenta lagoas naturais. Elas são, ao todo, 163, a maioria
fora da reserva. É um parque de muita beleza, ameaçado
por todos os lados pela expansão urbana, sem planejamento
nem cuidado. O caminho para o parque corta quilômetros de
plantações de eucalipto ou de terra desolada pelo
mau uso e pelo desflorestamento. A reserva resiste graças
à ação de seu gerente, Marcus Vinícius
de Freitas, um mobilizador que usa de muita criatividade para convencer
as comunidades a abraçar a causa do parque.
O
Rio de Janeiro vê o governo do Estado brincando com as estatísticas
da violência, enquanto as balas das guerras privadas entre
quadrilhas matam inocentes. Suas praias são inúteis
paisagens, impróprias para o uso. A cidade vai ficando cada
vez mais feia, e os padrões estéticos são adaptados
para níveis mais baixos de exigência. Perdem-se dinheiro,
encanto e, principalmente, vidas. Não há reação
proporcional à devastação nem ao desmando.
Os
exemplos se multiplicam. Nem vou falar da chacina de Rondônia,
da barbárie no presídio de Porto Velho, de invasões
de terras produtivas. Eles ressaltam três questões.
O Estado está em crise aguda, por omissão, inépcia,
desgoverno e falta de compromisso público. Não existem
manifestações espontâneas, livres e independentes
da população, de revolta com a evidente deterioração
das condições de vida nem com o mau comportamento
das autoridades públicas. O que se salva freqüentemente
depende da ação individual, quase sempre sem apoio
público nem estatal.
Das
três, a pergunta que me inquietou mais nesse feriado, quando
visitava essas reservas, é: por que as ruas não se
enchem de povo indignado? Por que esse quietismo, esse silêncio,
diante do prefeito corrupto, do vereador imprestável, do
governador que mente, da natureza que morre, da feiúra que
domina?
Alexis
de Tocqueville, falando sobre a democracia nos Estados Unidos, destaca
a ação coletiva voluntária, que mitiga o individualismo
naquela sociedade até hoje. É ela que faz as pessoas
se reunirem em um parque de sua cidade, num domingo, para discutir
a conveniência de um novo shopping e suas conseqüências.
Estão lá como citadinos, não como democratas
ou republicanos, sindicalistas ou membros de igreja. Claro que há
aparelhamento na mobilização da sociedade estadunidense.
Mas, como é forte a cultura da participação
independente e voluntária dos cidadãos, ele não
inibe a ação espontânea. No Brasil, o Estado
e os movimentos sociais substituíram a ação
cidadã. Os movimentos são confundidos com o povo,
mas quase todos são máquinas de mobilização
ou de advocacia de interesses específicos. Movem-se mais
sob o comando de seus grupos dirigentes que sob a inspiração
das necessidades daqueles que mobilizam. Quase não existe
ação cidadã no Brasil, embora haja muitas organizações
em ação na sociedade civil. Continuamos uma sociedade
assentada nas corporações de todo tipo.
Para
que a representação política responda aos cidadãos
é preciso existir um mínimo de ação
direta independente. Há ocasiões em que nada substitui
um panelaço. Aqui, a ação que se diz popular
é comandada por elites, cuja formação educacional
e cujo status ocupacional às vezes pouco têm a ver
com a vida concreta daqueles que mobilizam. É esse aparelhamento
da sociedade que tolhe as manifestações espontâneas,
inibe o povo, coopta os necessitados e promove esse misto trágico
de quietismo da maioria e violência e afronta ao primado da
lei pela minoria dirigente.
Sérgio
Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
|