Edição 1852 . 5 de maio de 2004

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Carta ao leitor
Vitória no campo deles

AFP
Reunião da OMC: 9 a 2 para o Brasil


A idéia tolamente acalentada por setores da política brasileira de que os organismos internacionais são hostis aos interesses nacionais não tem sustentação no mundo real. Quase sempre, quando se apresenta com propostas e reivindicações que não violentam as regras internacionais de convivência, o Brasil sai vitorioso nas votações daquelas organizações. Uma breve análise das ações que correm na Organização Mundial do Comércio (OMC) mostra que os negociadores do Itamaraty ganham muito mais do que perdem. Das onze ações decididas recentemente pela OMC, o Brasil saiu-se beneficiado em nove. Os mais notáveis desses triunfos foram obtidos em embates diretos com os Estados Unidos. Na semana passada, um julgamento preliminar feito pela OMC condenou os EUA por darem cerca de 3 bilhões de dólares de subsídios por ano a seus 25.000 plantadores de algodão. A decisão é histórica por ter evidenciado pela primeira vez em foro tão privilegiado que os subsídios agrícolas, da forma como são concedidos pelos americanos e europeus a seus agricultores, não são apenas injustos para com os concorrentes dos países emergentes. Eles podem ser também ilegais.

A reação do mercado, tantas vezes vista aqui como irracional ou mesmo motivada por interesses de especuladores, foi extremamente positiva para o Brasil. Especialistas previram que as vendas externas de algodão dos Estados Unidos podem cair até 41% e que o interesse pelo produto brasileiro cresceria exponencialmente. Editoriais de revistas e jornais econômicos dos EUA e da Europa consideram "sábia" a decisão da OMC. Eles acreditam que daqui para a frente será cada vez mais difícil para a administração americana manter os 19 bilhões de dólares de subsídios com que anualmente aduba as mais diversas plantações do país. Em outra vitória marcante, o Fundo Monetário Internacional (FMI) decidiu começar pelo Brasil uma revolucionária experiência. O Fundo autorizou Brasília a atrair investimentos externos para uso em obras de infra-estrutura sem que os valores sejam computados no cálculo do superávit primário. Ou seja, pela primeira vez o Fundo admite que certos gastos são tão vitais e produtivos para o país que não podem ser contabilizados como despesas correntes, e sim como investimentos. São boas novas para o Brasil – e uma má notícia para quem se acostumou a acreditar que os problemas nacionais vêm todos de fora.

 
 
 
 
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