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André
Petry
Até
maio de 2005
"Não
haverá novidades sobre o salário mínimo
enquanto não for encarada a
discussão de
como evitar que seu aumento exploda com
as contas públicas"
Na
semana passada, ao anunciar o novo valor do salário mínimo,
de 260 reais, o governo reafirmou seu compromisso com a saúde
das contas públicas, ganhou aplausos por seu comportamento
responsável e recebeu as vaias de praxe de aposentados,
sindicalistas, oposicionistas e petistas de esquerda, como o indefectível
senador Paulo Paim, o único brasileiro que subiu na vida
com o salário mínimo. O curioso é que o governo
fez tudo para merecer os aplausos, pois afinal manteve inabalado
seu compromisso fiscal, e mereceu as vaias, porque o teatro promovido
em torno do assunto foi tal e tanto que descambou para um festival
de hipocrisia. Um dos sintomas disso apareceu no ano passado, quando
o governo despachou para o Congresso Nacional sua proposta de orçamento
para 2004. Ali, previa-se que o mínimo subiria para 256 reais
e a única novidade é que ficou 4 reais acima
disso. Desde o ano passado, portanto, o governo sabia que o valor
do mínimo de 2004 seria cozido em banho-maria. O que se viu
na semana passada não foi muito além da encenação.
Todo
mundo sabe, inclusive a oposição, talvez principalmente
ela, que até anteontem era governo, que o salário
mínimo não pode chegar a 280 reais, ou ao equivalente
a 100 dólares, sem arrebentar as contas do governo e de muitas
prefeituras. Todo mundo sabe disso. Sabia ontem. Sabe hoje. Saberá
em maio de 2005, quando chegar a hora de aumentar novamente o mínimo.
Ninguém precisa ler os astros para prever que, no ano que
vem, o país assistirá à reprise do espetáculo
de agora, talvez apenas com variações de intensidade
e troca de alguns protagonistas, mas o enredo será o mesmíssimo:
reunião daqui e dali, depois a definição de
um valor pífio para o salário mínimo, seguida
de aplausos de uns e vaias de outros. Tem sido assim há anos
e assim será enquanto o governo, qualquer governo, tiver
rigor fiscal. Só será diferente se for encarada a
verdadeira discussão: como evitar que o aumento do salário
mínimo exploda com as contas públicas?
Há
quem defenda que o governo deveria desvincular o reajuste do mínimo
do cálculo das aposentadorias e pensões, para evitar
o rombo previdenciário. Outros acham que o país deveria
estabelecer salários mínimos regionais, levando-se
em conta a gritante diferença entre o ambiente econômico
de São Paulo e o do Piauí, evitando que minúsculas
prefeituras sejam regidas pela mesma regra que enormidades como
a prefeitura paulistana. Em vez de ficar vinte horas fazendo reuniões
ministeriais de olho em contas que não mudam com o olhar,
o governo deveria enfrentar essa questão central, se realmente
quer recuperar o valor do salário mínimo. O Congresso
Nacional, em vez de ficar gritando contra o governo, que não
é sádico nem suicida para definir um salário
propositalmente baixo, também poderia propor essa discussão.
Talvez daí surgisse uma saída sensata que liberasse
o salário mínimo de sua camisa-de-força.
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