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Ponto
de vista: Lya Luft
Os meninos do tráfico
"Nós todos somos culpados
de que
eles tenham existido, sofrido, matado
e morrido, sem nenhuma possibilidade
de vida, de esperança e dignidade"
O documentário sobre
crianças no tráfico, recentemente visto em todo o
país, não é de provocar opiniões mas
de dilacerar o coração, que anda de sobressalto em
sobressalto. Além da tentativa de desviar a atenção
perseguindo inocentes, nossos representantes no Parlamento deram
para executar danças constrangedoras, comemorando a absolvição
de culpados confessos: é a derrocada final da decência
brasileira.
Ilustração Atômica
Studio
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Mas hoje, aqui, me interessa o filme sobre aqueles meninos do tráfico
de nossas favelas: eles são nossos meninos. Nada há
para discutir ou explicar. Promessas serão um insulto. O
documentário não uma ficção,
mas dura realidade é um tapa na nossa cara, esta cara-de-pau,
cara de bunda, cara cínica ou alienada, cara de santo fingido,
cara de uma omissão vergonhosa. Cara num riso alvar? Assisti
ao documentário encolhida, e tantos dias depois ainda não
consegui me sentir inteira. Nunca mais serei a mesma, depois de
testemunhar aquilo, e não sei de documentário mais
importante neste mundo de Deus. Aqueles meninos banguelas, aquelas
meninas magrelas, aquelas vozes arrastadas de sono e droga, aqueles
rostos ocultos de medo ou enfrentando impassíveis, aqueles
olhares pedintes ou ferozes, mas muito mais pedintes, feriram como
mil punhais qualquer pessoa que não estivesse demais embotada.
Espero que essa ferida seja para sempre.
Desejo que nunca, nem um dia, a gente esqueça. Eu não
quero esquecer, pois, sem usar drogas nem conviver com traficantes,
indiretamente, como todo brasileiro, fui responsável pela
vida e pela morte deles, pois todos, menos um, já morreram.
Nós os matamos.
Muito mais existe do que isso que foi
mostrado. Pior: muita gente poderosa, de rabo solenemente preso,
vive daquela desgraça; muita cumplicidade perversa promove
e mantém aquilo; tudo prolifera e floresce com muito arranjo
sinistro como sinistra, disse um daqueles meninos, era a
sua vida: "a vida da gente aqui é sinistra e louca", ele
disse com sua voz fraquinha. Vou pensar todos os dias que continuam
morrendo crianças iguais àquelas, que poderiam ser
meus filhos, teus filhos, nossos filhos. Eram nossos, aqueles meninos
e meninas, sonados, ferozes ou tristíssimos, que a gente
tem vontade de botar no colo e confortar. Mas confortar com o quê?
E aquela arma, e aquelas drogas, e aquela infelicidade, e aquela
desesperança? Fazer o quê?
Devolver-lhes o pai morto, entregar-lhes
a mãe saudável e menos desesperada, com menos sepulturas
de crianças mortas a visitar? Proporcionar-lhes escola, comida,
casa, família, vida tudo isso que para sempre lhes
devemos e lhes foi roubado antes mesmo de serem concebidos? Idealmente,
romanticamente, se a gente colocasse nas favelas e nos morros do
país inteiro uma infra-estrutura minimamente decente, policiamento
honrado, escolas em funcionamento, clínicas, locais de lazer
e atendimento efetivos, antes acabando com a matança entre
"bandidos" e "mocinhos ", alguma coisa iria melhorar.
Mas não há soluções
à vista: só palavras e ímpetos de indignação,
tudo cheirando a uma certa hipocrisia e a flor murcha em
velório. "Quando eu morrer vou descansar", disse com uma
simplicidade arrepiante um menino, tão pequeno que não
podia ter mais de 10 anos. Ele morreu, e morrerão muitos
mais, porque nada de verdade, efetivamente, é feito, nada
muda. Todo aquele entre nós que usa drogas para imitar, para
fazer parte, para relaxar, para fugir de problemas que não
são tragédias, são apenas problemas, empurrou
um pouco mais para a sua tristíssima e imerecida morte aqueles
meninos e meninas, que eram nossos. Nós todos somos culpados
de que eles tenham existido, sofrido, matado e morrido, sem nenhuma
possibilidade de vida, de esperança e dignidade.
Espero que essa ferida e essa vergonha
nos dêem alguma idéia salvadora e nos levem a uma postura
determinada, que gere ações efetivas, eficientes,
reais. Não promessas, não seminários com sociólogos,
religiosos, psicólogos e antropólogos, médicos
e, quem sabe, policiais. Não entrevistas comovidas e comoventes
em televisão e jornais, mas atitudes e ações.
Não acredito que elas aconteçam: deixamos que o problema
se alastrasse demais, permitimos a guerra civil. Nos assustamos
um pouco, aqui e ali interrompemos a dança insensata e nos
emocionamos, mas nada além disso. A ferida aberta pelo documentário
e pela realidade talvez continue incomodando. Contra ela só
há dois remédios: agir, ou alienar-se mais. Desejo
que ela nos machuque feito brasa ardente, até o fim da nossa
miserável vida.
Lya Luft é escritora
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