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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Sobre mulheres
e homens
O argumento extremo da Guadagnin,
a ministra Ellen Gracie, a diva
Sarah Bernhardt e um defensor
da masculinidade
A deputada Angela Guadagnin gastou seu mais desesperado
cartucho, na semana passada, ao puxar do fundo do baú, em
discurso na tribuna da Câmara, o argumento estético.
"Porque sou gorda, porque não pinto os cabelos...", disse
ela e, num crescendo de indignação: "Porque
sou do PT..." Seria por isso que foi tão censurada pela dança
com que comemorou a absolvição do colega João
Magno, um dos beneficiários do valerioduto. O argumento pretende
cortar fundo. Para testá-lo, imaginemos a contraprova de
uma bonitona, magrinha, e que não tem cabelos grisalhos na
mesma cena. Por exemplo, a ex-deputada Rita Camata, que além
de tudo ainda conta com o fato de não ser do PT, para citar
outra das desvantagens que, segundo a Guadagnin, somaram em seu
desfavor. Imaginemos Rita a evoluir entre as cadeiras do plenário,
bracinho para cá e bracinho para lá, sorriso nos lábios,
quadris requebrando, depois da absolvição de um colega
de partido que tivesse encaçapado uma bolada de obscura origem.
Pensando bem... Não. Não há
razão para imaginar que a situação lhe fosse
mais favorável do que foi à deputada Guadagnin. Podia
ser até pior: lá vai ela, essa Rita, esbanjando alegria
quando devia ficar quieta, e ainda por cima com essa empáfia
de gente bonita, esse exibicionismo... Não, deputada Guadagnin.
A gordura e os cabelos grisalhos até funcionaram a seu favor.
Deram um ar de despretensão à dancinha, no plano artístico.
Funcionaram como atenuantes.
A visita da ministra Ellen Gracie Northfleet, do
Supremo Tribunal Federal, à Comissão de Justiça
do Senado, onde seria sabatinada antes de assumir a presidência
do Conselho Nacional de Justiça, foi mais ou menos como a
visita de Sarah Bernhardt a São Paulo, em 1886. Tanto entusiasmo
a diva francesa provocou nos estudantes da Faculdade de Direito
que eles desatrelavam os cavalos e puxavam, eles próprios,
a carruagem em que ela se deslocava pela cidade. "Ouvi falar muito
de sua competência, de seu conhecimento jurídico e
de sua intelectualidade, mas meu voto leva ainda em conta a beleza
e o charme", disse à ministra Gracie o senador Wellington
Salgado. Outro senador, Mozarildo Cavalcanti, invocou a privilegiada
perspectiva que lhe confere sua especialidade profissional para,
na pessoa da ministra, estender uma homenagem a todas as mulheres:
"Como ginecologista, aprendi a lidar de perto com as mulheres, a
entender muito profundamente a sensibilidade feminina".
A propósito da visita da Bernhardt, Eça
de Queiroz, que não perdoava essas coisas, escreveu que dali
para a frente as divas em visita a São Paulo diriam aos criados,
antes de sair do hotel: "Estou pronta. Mande atrelar os estudantes".
Ellen Gracie, na próxima visita ao Congresso, poderá
exigir uma carruagem. Dirá, antes de deixar o Supremo: "Estou
pronta. Mande atrelar os senadores". Ellen Gracie assumirá
agora a presidência do Supremo Tribunal. Imagine-se o que
está por vir. Ficará provado não que as mulheres
não estejam preparadas para presidir o Supremo, mas que o
Brasil não está preparado para ter uma mulher à
frente do Supremo.
Harvey C. Mansfield é um eminente professor
de ciência política em Harvard, tradutor para o inglês
de Maquiavel e Tocqueville, ideologicamente alinhado com os neoconservadores
que se incumbem da forragem intelectual do governo Bush. Mansfield,
fugindo de seus temas habituais, lançou um livro intitulado
Manliness (Masculinidade), algo que, a seu ver, se encontra
em via de desaparecimento. O professor foi entrevistado recentemente
pela jornalista Deborah Solomon, do New York Times, que começou
por lhe perguntar o que seria a masculinidade. Resposta: "Numa rápida
definição, é ter confiança numa situação
de risco". Mas a tecnologia não diminuiu muito as situações
de risco, especialmente as de risco físico?, volta a jornalista.
Mansfield diz que sim, mas "masculinidade é mais uma qualidade
da alma".
Segue a entrevista, em águas mais ou menos
turbulentas. A certa altura, para provar que "certas coisas não
mudam", o professor argumenta que "98% dos porteiros de Nova York
são homens". A jornalista contra-argumenta que cada vez menos
profissões dependem de força física, e replica:
"Quando foi a última vez que o senhor fez algo que precisava
de força física?" Mansfield: "É verdade que
nada em minha carreira dependeu de força física, mas
minhas relações com as mulheres, sim". Em que tipo
de situação?, quis saber a jornalista. "Levantando
coisas, abrindo coisas. Minha mulher é muito pequena", responde
Mansfield. "O que o senhor levanta?", insiste a jornalista. Mansfield:
"Móveis. Não toda noite, mas rotineiramente". E eis
como um defensor da masculinidade acaba por reduzir os homens a
levantadores de cadeiras e mesas, camas e criados-mudos, meros reprodutores
do mudo ofício das alavancas, simples alternativas, nos melhores
casos, ao útil trabalho dos macacos hidráulicos.
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