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Música
Racional, eu? Trinta anos depois,
os herdeiros de Tim Maia lançam o disco da fase mística
que ele renegou 
Sérgio Martins
Divulgação  |
| Tim Maia: ele foi devoto
da seita Universo em Desencanto, e depois ficou com vergonha |
Em outubro de 1974, o cantor Tim Maia
protagonizou a primeira das inúmeras confusões que marcariam sua
carreira. Principal atração de um programa de TV, ele surgiu vestido
de branco dos pés à cabeça e anunciou que não cantaria
seus sucessos radiofônicos. Em vez disso, apresentaria músicas novas,
que falavam de um certo mundo racional uma dimensão mística
revelada pela seita Universo em Desencanto, à qual Tim Maia acabava de
se converter. O surto esotérico durou pouco mais de um ano e rendeu dois
álbuns, Tim Maia Racional Volumes 1 & 2. O primeiro desses discos
volta agora às lojas, graças a um acordo entre os herdeiros do cantor
e a gravadora Trama. Seria um relançamento normal, não fosse o fato
de Tim Maia haver renegado até morrer, em 1998, as músicas desse
período. A Universo em Desencanto surgiu no Rio de Janeiro,
em 1935. Seu guru, Manuel Jacintho Coelho (1903-1991), dizia ter recebido um "chamado"
de forças superiores e serviria como intérprete de seres de outro
planeta. Em entrevistas que concedeu na época de sua conversão,
Tim Maia disse que, depois de enxergar uma luz forte num quarto de hotel, uma
voz lhe ordenou que conhecesse a seita. Em seus primeiros meses na Universo em
Desencanto, Tim Maia largou as drogas e fez pregação em favelas.
Mas o encanto não durou. Para usar uma expressão do biólogo
Richard Dawkins a respeito das religiões, Tim Maia passou a ver as doutrinas
da seita esotérica como um "vírus da mente" os sintomas da
infecção eram a perda da lógica e a crença em disparates.
O cantor ficou com vergonha de suas canções "racionais".
Se lançar obras póstumas de qualquer artista é uma decisão
complicada, passar por cima de uma rejeição explícita é
mais problemático ainda. "Tenho o aval dos herdeiros, e isso basta", diz
João Marcello Bôscoli, presidente da Trama. O argumento não
é bom. Se os herdeiros e a gravadora sempre ganham um trocado nesses casos,
o contrário tende a acontecer com a reputação do artista
o mais provável é que ela fique arranhada. Mas no caso de
Tim Maia há muitas atenuantes. Embora nunca mais tenha cantado as músicas
de Racional, o músico não proibiu que outros as apresentassem.
Marisa Monte incluiu Imunização Racional (Que Beleza) na
turnê do disco Barulhinho Bom, de 1996. Dois anos depois, Gal Costa
a gravou no álbum Aquele Frexo Axé. Há cópias
antigas do disco em vinil nos sebos (vendidas por até 500 reais) e cópias
em CD no mercado pirata. Na verdade, existe até um culto justificado em
torno dos dois volumes de Racional. Nada a ver com a religião. Tim
Maia estava certo em querer esquecer suas letras malucas. Mas não tinha
por que se envergonhar de seus funks e baladas soul: ele estava com a cabeça
perfeitamente no lugar na hora de criar sua poderosa mistura musical.
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