Edição 1950 . 5 de abril de 2006

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Música
Racional, eu?

Trinta anos depois, os herdeiros
de Tim Maia lançam o disco da
fase mística que ele renegou


Sérgio Martins

 

Divulgação
Tim Maia: ele foi devoto da seita Universo em Desencanto, e depois ficou com vergonha

DA INTERNET
Ouça Imunização Racional

Em outubro de 1974, o cantor Tim Maia protagonizou a primeira das inúmeras confusões que marcariam sua carreira. Principal atração de um programa de TV, ele surgiu vestido de branco dos pés à cabeça e anunciou que não cantaria seus sucessos radiofônicos. Em vez disso, apresentaria músicas novas, que falavam de um certo mundo racional – uma dimensão mística revelada pela seita Universo em Desencanto, à qual Tim Maia acabava de se converter. O surto esotérico durou pouco mais de um ano e rendeu dois álbuns, Tim Maia Racional Volumes 1 & 2. O primeiro desses discos volta agora às lojas, graças a um acordo entre os herdeiros do cantor e a gravadora Trama. Seria um relançamento normal, não fosse o fato de Tim Maia haver renegado até morrer, em 1998, as músicas desse período.

A Universo em Desencanto surgiu no Rio de Janeiro, em 1935. Seu guru, Manuel Jacintho Coelho (1903-1991), dizia ter recebido um "chamado" de forças superiores e serviria como intérprete de seres de outro planeta. Em entrevistas que concedeu na época de sua conversão, Tim Maia disse que, depois de enxergar uma luz forte num quarto de hotel, uma voz lhe ordenou que conhecesse a seita. Em seus primeiros meses na Universo em Desencanto, Tim Maia largou as drogas e fez pregação em favelas. Mas o encanto não durou. Para usar uma expressão do biólogo Richard Dawkins a respeito das religiões, Tim Maia passou a ver as doutrinas da seita esotérica como um "vírus da mente" – os sintomas da infecção eram a perda da lógica e a crença em disparates. O cantor ficou com vergonha de suas canções "racionais".

Se lançar obras póstumas de qualquer artista é uma decisão complicada, passar por cima de uma rejeição explícita é mais problemático ainda. "Tenho o aval dos herdeiros, e isso basta", diz João Marcello Bôscoli, presidente da Trama. O argumento não é bom. Se os herdeiros e a gravadora sempre ganham um trocado nesses casos, o contrário tende a acontecer com a reputação do artista – o mais provável é que ela fique arranhada. Mas no caso de Tim Maia há muitas atenuantes. Embora nunca mais tenha cantado as músicas de Racional, o músico não proibiu que outros as apresentassem. Marisa Monte incluiu Imunização Racional (Que Beleza) na turnê do disco Barulhinho Bom, de 1996. Dois anos depois, Gal Costa a gravou no álbum Aquele Frexo Axé. Há cópias antigas do disco em vinil nos sebos (vendidas por até 500 reais) e cópias em CD no mercado pirata. Na verdade, existe até um culto justificado em torno dos dois volumes de Racional. Nada a ver com a religião. Tim Maia estava certo em querer esquecer suas letras malucas. Mas não tinha por que se envergonhar de seus funks e baladas soul: ele estava com a cabeça perfeitamente no lugar na hora de criar sua poderosa mistura musical.

 
 
 
 
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