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Cinema
B de Bobagem Com
V de Vingança, os irmãos Wachowski ilustram a ignorância
que a cultura pop cultiva sobre o "sistema"

Isabela Boscov
Fotos divulgação  |
| O mascarado V, com o ditador interpretado por John Hurt:
afinal, quem aqui é o Grande Irmão? |
Num dos filmes mais antigos de James Bond,
do fim dos anos 70, há uma cena que fazia a delícia das platéias
brasileiras: o 007 entrava com sua lancha por um rio da Amazônia e saía,
sem mais, pelas cataratas do Iguaçu. Menos a diversão, é
assim também que seguem os raciocínios de V de Vingança
(V for Vendetta, Estados Unidos, 2006), que estréia nesta sexta-feira
no país o ponto de partida não tem nenhum parentesco com
o ponto de chegada, e o caminho que se percorreu de um ao outro é um mistério.
Exemplo: o mascarado V (Hugo Weaving), em luta solitária e secreta contra
o regime totalitário que domina a Inglaterra de 2020, ensina à sua
pupila Evey (Natalie Portman) que os homens não precisam de edifícios,
e sim de idéias. Donde, conclui ele num salto de imaginação
ainda mais acrobático que o da lancha de James Bond, mandar o Parlamento
pelos ares certamente irá encher de idéias a cabeça de seus
contemporâneos. Nem vale a pena gastar espaço argumentando sobre
a falta de modos de um filme que tem como herói um terrorista carregado
de explosivos. O que chama atenção em V de Vingança
são sua ignorância obstinada e a afiliação irrefletida
ao pensamento de que o "sistema", seja ele qual for, é corrupto e nocivo.
Ainda mais curiosa que a lógica de V, por
exemplo, é o homem que ele imita na vestimenta e na máscara: Guy
Fawkes, um católico que, em 1605, planejou dizimar a aristocracia protestante
explodindo a Câmara dos Lordes. Fawkes foi flagrado nos porões do
Parlamento com 36 barris de pólvora e enforcado, proporcionando aos ingleses
uma brincadeira parecida com a malhação de Judas. Todo 5 de novembro,
data da chamada Conspiração da Pólvora, bonecos de Fawkes
são enforcados e queimados e fogos de artifício pipocam por toda
a Inglaterra. Que, em 2006 ou 2020, alguém ache Fawkes uma figura inspiradora
é intrigante. Quatrocentos anos atrás, o edifício do Parlamento
era um símbolo do absolutismo. Hoje, ao contrário, ele representa
outro tipo de "sistema" o constitucionalismo, e numa de suas versões
mais bem-sucedidas. É difícil também imaginar que, em 2400,
americanos venham a se divertir malhando efígies de Osama bin Laden. Se
Fawkes se presta a brincadeiras é porque não teve a competência
de sua contrapartida saudita para cometer um assassinato em massa. Mas bem que
tentou. Grande antídoto seu exemplo poderia ser, então, contra o
regime de crise permanente instituído pelo ditador e "big brother" Adam
Sutler (que, numa escolha que os produtores devem ter achado o supra-sumo da ironia,
é interpretado por John Hurt, justamente o protagonista e vítima
do Grande Irmão em 1984).
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| Natalie, como a protegida de V: raciocínios sem
pé nem cabeça | Os
irmãos Andy e Larry Wachowski, de Matrix, escreveram e produziram
V de Vingança (a direção foi entregue a um subalterno
deles, um certo James McTeigue), e respondem pela maior parte das tolices que
se vêem em cena. Mas a idéia não partiu deles, e sim do quadrinista
inglês Alan Moore, um ídolo do gênero (que, aliás, exigiu
que não houvesse menção ao seu nome nos créditos do
filme). Moore e o ilustrador David Lloyd começaram a publicar a série
V de Vingança no primeiro mandato de Margaret Thatcher e encerraram-na
no terceiro e último termo da primeira-ministra. Os quadrinhos V de
Vingança transbordam o sentimento de violência e violação
com que boa parte dos britânicos atravessou a desconstrução
thatcherista e transpiram também um certo obscurantismo. Ninguém
acusaria Thatcher de ser um doce-de-coco, mas o que ela fez não foi concentrar
o poder do Estado, e sim enxugá-lo e estimular os ingleses (ainda que com
aquela truculência que lhe era peculiar) a cuidar de sua própria
vida. Quanto mais um cidadão depende do Estado financeiramente ou do ponto
de vista das decisões, mais sujeito estará a ter de beijar a mão
que o alimenta. A liberdade econômica é, assim, um requisito para
outras liberdades mais valorizadas, como a política, a social e a de costumes.
A pegadinha é que, até hoje, o único ambiente em que ela
floresceu de fato é o capitalista. E, até por uma questão
de cultura e de décadas de fantasia marxista, é mais comum enxergar-se
no capitalismo um "sistema" destinado a criar e propagar injustiça do que
um regime regulado, de maneira em grande parte espontânea, pela mútua
vantagem e dependência. A cultura pop e V de Vingança
é um exemplar legítimo dela prefere simplesmente partir do
pressuposto de que esse sistema é ruim; se se interessasse em debatê-lo,
ela talvez se visse diante da constatação desconcertante de que
não tem alternativas a propor (e bombardear o Parlamento ou assassinar
primeiros-ministros não são alternativas).
Felizmente, nem todo Estado é assim tão desafeito ao debate, e alguns
deles, como o próprio inglês e os escandinavos, desenvolveram instrumentos
eficazes para minimizar as injustiças que, sim, são da natureza
do capitalismo. E felizmente também nem todos os cineastas que abordam
esse tema vivem tão satisfeitos com sua própria ignorância
quanto os irmãos Wachowski. Descontadas algumas simplificações,
filmes como Wall Street, O Jardineiro Fiel, Syriana, O Informante ou mesmo
Robocop oferecem opiniões pertinentes e sagazes sobre o mundo do
qual se originaram. Uma coisa, porém, eles têm em comum com V
de Vingança: todos eles, os bons e os ruins, foram feitos do jeito
que seus produtores bem entenderam, sem interferência de Estados ou governos.
É tentar repetir o feito em Cuba ou na China para entender, em primeira
mão, o que é verdadeiramente um regime totalitário.
| A culpa é do "sistema"
Como o cinema vê o capitalismo
WALL STREET (1987) Gordon Gekko
(Michael Douglas), um tubarão do mercado financeiro, prega que "a ganância
é boa". No filme de Oliver Stone, Gekko personifica o capitalismo: seu
apetite por dinheiro e poder é insaciável e nenhum meio é
sórdido demais para satisfazê-lo
O JARDINEIRO FIEL (2005) Ao investigar o assassinato
de sua mulher, o diplomata Justin Quayle (Ralph Fiennes) depara com uma pergunta:
qual o preço que o Terceiro Mundo paga pelo conforto dos países
ricos? O filme de Fernando Meirelles retoma uma visão clássica do
capitalismo a de que ele depende da divisão do mundo em centro e
periferia SYRIANA (2005)
O roteirista Stephen Gaghan aplica ao fluxo mundial dos petrodólares a
mesma ótica que utilizara em Traffic: a de que o combustível
que move o capitalismo é a corrupção. A tese é "demonstrada"
por meio de uma figura irreal: o príncipe Nasir (Alexander Siddig), que
paga com a vida por suas aspirações democráticas
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