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Copa
O efeito futebol
Ganhar o Mundial é bom
para a economia mas nem
sempre para os políticos que
tentam tirar proveito

André Fontenelle
Se é difícil medir
o impacto da conquista da Copa do Mundo na política de um
país, já há pelo menos um estudo que investiga
a relação entre futebol e crescimento econômico.
O relatório "Soccernomics", do banco holandês ABN-Amro,
analisou a evolução da economia dos países
que ganham e perdem o Mundial. Constatou que, no ano da conquista,
o país campeão cresce em média 0,7 ponto porcentual
a mais que no ano anterior e, no seguinte, o crescimento
continua (veja
o quadro). O país vice-campeão, por
sua vez, perde 0,3 ponto porcentual do crescimento do produto interno
bruto no ano da derrota. Isso se explicaria pela euforia que a conquista
desperta nos consumidores.
Foram analisadas as Copas disputadas
desde 1970. Os autores do estudo chegam a indicar qual país
deveria ganhar a Copa deste ano: a Itália. Explicam que a
economia italiana, que atravessa um período moroso, seria
a mais beneficiada. "Isso despertaria a confiança dos produtores,
gerando gastos e investimentos, e estimularia o consumo", diz o
economista Charles Kalshoven, um dos autores do relatório.
Logo após a vitória sobre o Brasil no Mundial de 1998,
a França viu o índice de confiança do consumidor
atingir o nível mais alto em uma década. A vitória
na Copa também melhora a imagem do país, o que teoricamente
valoriza os produtos de exportação.
O trabalho não tem a pretensão
de desvendar as causas da aparente relação entre Copa
e progresso, mas é uma tentativa de quantificar o que até
hoje é apenas uma impressão difusa. Sabe-se que o
evento estimula setores específicos da economia aumenta
a venda de televisores e agita o mercado publicitário, por
exemplo. Há quem veja também efeitos maléficos,
como as faltas ao trabalho para ver os jogos na TV. Nada, porém,
que isoladamente provoque tamanho impacto no PIB.
Thomas Koehler/Pool/Reutes
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| Gerhard Schroeder, então chanceler
da Alemanha, com Franz Beckenbauer: carona no futebol |
Praticamente no mundo todo, quando
o futebol e a economia vão bem, os políticos aproveitam
para tirar uma casquinha. Às vezes nem é preciso ser
campeão. Nos países africanos que neste ano disputam
a Copa pela primeira vez Angola, Costa do Marfim, Gana e
Togo , a simples presença no Mundial já desencadeou
euforia. O presidente do Togo, Faure Gnassingbé, condecorou
o técnico da seleção com a Ordem do Mérito.
Três meses depois, o treinador foi demitido. Na Costa do Marfim,
o presidente Laurent Gbagbo exortou as partes envolvidas na guerra
civil a se unirem "no apoio aos Elefantes", apelido dos integrantes
da seleção que vai à Copa. Isso não
ocorre apenas em países subdesenvolvidos. O primeiro-ministro
da Itália, Silvio Berlusconi, visitou no hospital o principal
jogador da seleção, Francesco Totti, operado depois
de uma lesão em fevereiro. Berlusconi é dono de um
dos times mais populares da Itália, o Milan, e chama seu
ministério de squadra, time de futebol em italiano.
No Brasil, onde ano de Copa sempre
coincide com ano de eleições, tornou-se lugar-comum
dizer que a vitória no gramado ajuda o governo de plantão.
Isso pode ter sido verdade em 1970, quando a Arena massacrou o MDB
nas eleições legislativas, mas a relação
do tetra com a vitória de Fernando Henrique Cardoso em 1994
é menos evidente. Em 2002, quando José Serra distribuiu
camisetas com seu nome e a frase "Brasil campeão", quem acabou
eleito foi Lula que não se acanha em pegar carona
no prestígio da seleção. Em 2004, Lula recebeu
no Planalto o time que derrotou a Argentina na final do campeonato
sul-americano. No mesmo ano, levou a seleção ao Haiti,
ocupado por forças de paz. No mês passado, conversou
com o técnico Carlos Alberto Parreira pelo celular e declarou
apoio ao atacante Ronaldo, em má fase. Parreira nega que
sinta alguma pressão. "Nunca houve interferência",
garante. Em 2002, Fernando Henrique pediu Romário na seleção.
O técnico Felipão ignorou o palpite e voltou com a
taça.
Quando o cenário político
não ajuda, o uso do futebol pode até ter o efeito
inverso ao pretendido. Em setembro passado, em meio à crise,
Lula desistiu de assistir a um jogo do Brasil contra o Chile, em
Brasília, com medo da reação da platéia.
Em 1978, o general Ernesto Geisel levou uma vaia enorme do público
gaúcho, ao comparecer a uma partida da seleção
às vésperas da Copa do Mundo. Até o governo
de Juscelino Kubitschek, o primeiro chefe de Estado a se deixar
fotografar ouvindo jogos da Copa pelo rádio, os presidentes
costumavam ignorar o futebol. Em 1938, Getúlio Vargas anotou
no diário pessoal seu espanto com o interesse despertado
pelo Mundial daquele ano, em que o Brasil foi eliminado pela Itália.
"A perda causou grande decepção e tristeza no espírito
público, como se se tratasse de uma desgraça nacional."
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