Edição 1950 . 5 de abril de 2006

Índice
Millôr
Lya Luft
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Veja essa
Gente
Auto-retrato
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Copa
O efeito futebol

Ganhar o Mundial é bom
para a economia – mas nem
sempre para os políticos que
tentam tirar proveito


André Fontenelle

NESTA REPORTAGEM
Gráfico: O PIB dos campeões

Se é difícil medir o impacto da conquista da Copa do Mundo na política de um país, já há pelo menos um estudo que investiga a relação entre futebol e crescimento econômico. O relatório "Soccernomics", do banco holandês ABN-Amro, analisou a evolução da economia dos países que ganham e perdem o Mundial. Constatou que, no ano da conquista, o país campeão cresce em média 0,7 ponto porcentual a mais que no ano anterior – e, no seguinte, o crescimento continua (veja o quadro). O país vice-campeão, por sua vez, perde 0,3 ponto porcentual do crescimento do produto interno bruto no ano da derrota. Isso se explicaria pela euforia que a conquista desperta nos consumidores.

Foram analisadas as Copas disputadas desde 1970. Os autores do estudo chegam a indicar qual país deveria ganhar a Copa deste ano: a Itália. Explicam que a economia italiana, que atravessa um período moroso, seria a mais beneficiada. "Isso despertaria a confiança dos produtores, gerando gastos e investimentos, e estimularia o consumo", diz o economista Charles Kalshoven, um dos autores do relatório. Logo após a vitória sobre o Brasil no Mundial de 1998, a França viu o índice de confiança do consumidor atingir o nível mais alto em uma década. A vitória na Copa também melhora a imagem do país, o que teoricamente valoriza os produtos de exportação.

O trabalho não tem a pretensão de desvendar as causas da aparente relação entre Copa e progresso, mas é uma tentativa de quantificar o que até hoje é apenas uma impressão difusa. Sabe-se que o evento estimula setores específicos da economia – aumenta a venda de televisores e agita o mercado publicitário, por exemplo. Há quem veja também efeitos maléficos, como as faltas ao trabalho para ver os jogos na TV. Nada, porém, que isoladamente provoque tamanho impacto no PIB.


Thomas Koehler/Pool/Reutes
Gerhard Schroeder, então chanceler da Alemanha, com Franz Beckenbauer: carona no futebol

Praticamente no mundo todo, quando o futebol e a economia vão bem, os políticos aproveitam para tirar uma casquinha. Às vezes nem é preciso ser campeão. Nos países africanos que neste ano disputam a Copa pela primeira vez – Angola, Costa do Marfim, Gana e Togo –, a simples presença no Mundial já desencadeou euforia. O presidente do Togo, Faure Gnassingbé, condecorou o técnico da seleção com a Ordem do Mérito. Três meses depois, o treinador foi demitido. Na Costa do Marfim, o presidente Laurent Gbagbo exortou as partes envolvidas na guerra civil a se unirem "no apoio aos Elefantes", apelido dos integrantes da seleção que vai à Copa. Isso não ocorre apenas em países subdesenvolvidos. O primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, visitou no hospital o principal jogador da seleção, Francesco Totti, operado depois de uma lesão em fevereiro. Berlusconi é dono de um dos times mais populares da Itália, o Milan, e chama seu ministério de squadra, time de futebol em italiano.

No Brasil, onde ano de Copa sempre coincide com ano de eleições, tornou-se lugar-comum dizer que a vitória no gramado ajuda o governo de plantão. Isso pode ter sido verdade em 1970, quando a Arena massacrou o MDB nas eleições legislativas, mas a relação do tetra com a vitória de Fernando Henrique Cardoso em 1994 é menos evidente. Em 2002, quando José Serra distribuiu camisetas com seu nome e a frase "Brasil campeão", quem acabou eleito foi Lula – que não se acanha em pegar carona no prestígio da seleção. Em 2004, Lula recebeu no Planalto o time que derrotou a Argentina na final do campeonato sul-americano. No mesmo ano, levou a seleção ao Haiti, ocupado por forças de paz. No mês passado, conversou com o técnico Carlos Alberto Parreira pelo celular e declarou apoio ao atacante Ronaldo, em má fase. Parreira nega que sinta alguma pressão. "Nunca houve interferência", garante. Em 2002, Fernando Henrique pediu Romário na seleção. O técnico Felipão ignorou o palpite e voltou com a taça.

Quando o cenário político não ajuda, o uso do futebol pode até ter o efeito inverso ao pretendido. Em setembro passado, em meio à crise, Lula desistiu de assistir a um jogo do Brasil contra o Chile, em Brasília, com medo da reação da platéia. Em 1978, o general Ernesto Geisel levou uma vaia enorme do público gaúcho, ao comparecer a uma partida da seleção às vésperas da Copa do Mundo. Até o governo de Juscelino Kubitschek, o primeiro chefe de Estado a se deixar fotografar ouvindo jogos da Copa pelo rádio, os presidentes costumavam ignorar o futebol. Em 1938, Getúlio Vargas anotou no diário pessoal seu espanto com o interesse despertado pelo Mundial daquele ano, em que o Brasil foi eliminado pela Itália. "A perda causou grande decepção e tristeza no espírito público, como se se tratasse de uma desgraça nacional."

 
 
 
 
topovoltar