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Brasil

Marcelo Carneiro
A ordem para a quebra
Nilton Fukuda/AE
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Rose Brasil/ABR
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O
ALERTA NA JUSTIÇA
O advogado Malheiros (à esq.) e o secretário
Goldberg, ao lado do ministro Thomaz Bastos: eles alertaram
Palocci sobre as ilegalidades da operação |
O presidente Lula consumou, na
terça-feira passada, a mais significativa troca de comando
em um ministério desde o início do governo. Depois
de uma semana tentando esconder sua participação na
operação de violação do sigilo do caseiro
Francenildo Costa, Antonio Palocci não resistiu à
revelação dos fatos e foi demitido. Lula perdeu seu
ministro da Fazenda, a quem chamou de "irmão" na cerimônia
de transmissão do cargo, agora ocupado pelo economista Guido
Mantega. Palocci começou a ser apeado de seu posto na tarde
do dia anterior, quando o presidente da Caixa Econômica Federal,
Jorge Mattoso, depôs na Polícia Federal e confessou
ter dado uma ordem para acessar as contas que Francenildo tem no
banco. Mattoso revelou ainda ter entregado pessoalmente o extrato
do caseiro a Palocci, mas em momento algum disse que a ordem de
violação tinha partido do ministro. Na semana passada,
VEJA reconstituiu os bastidores da operação. A revista
obteve informações sobre a estratégia montada
pelo governo para tentar, até o último minuto, que
Palocci não fosse responsabilizado pela quebra do sigilo.
A partir do que foi apurado, é possível afirmar que:
Jorge Mattoso recebeu pessoalmente de Antonio Palocci a ordem para
quebrar o sigilo do caseiro. No momento em que a determinação
foi dada, Palocci ocupava uma sala no Palácio do Planalto,
ao lado do gabinete do presidente Lula.
Ao chegar à residência de Palocci para entregar o documento
exigido, Mattoso encontrou outros dois integrantes do governo: o
assessor de imprensa do Ministério da Fazenda, Marcelo Netto,
e o secretário de Direito Econômico, Daniel Goldberg.
Subordinado ao Ministério da Justiça, Goldberg é
o braço-direito do ministro Márcio Thomaz Bastos.
O governo tentou convencer Jorge Mattoso e sua equipe na Caixa a
assumir a total responsabilidade pela violação.
Na quinta-feira 23, Mattoso voltou à residência de
Palocci. Lá encontrou o advogado Arnaldo Malheiros, amigo
do ministro Márcio Thomaz Bastos. Surgiu então a mais
desesperada e indecorosa das propostas. Durante a conversa, circulou
a idéia de oferecer dinheiro vivo a algum funcionário
da Caixa que se dispusesse a assumir a culpa pela quebra do sigilo.
Os senhores presentes concordaram que por 1 milhão de reais
poderiam comprar alguma consciência. Não se sabe se
a proposta teve andamento prático.
O empresário Eurípedes Soares da Silva, o suposto
pai biológico de Francenildo, também teve seus sigilos
fiscal e bancário violados.
A crônica policial que
enredou o governo na sua mais grave crise desde o início
do escândalo do mensalão teve início em 14 de
março, uma terça-feira. Nesse dia apareceu a primeira
reportagem em que o caseiro Francenildo Costa dizia ter visto Palocci
na famosa mansão da República de Ribeirão Preto.
Na tarde do mesmo dia, o senador Tião Viana (PT-AC) já
circulava pelo Senado dizendo que havia uma testemunha capaz de
explicar as reais motivações para o depoimento do
caseiro. Viana se referia a um jardineiro, vizinho da casa do Lago
Sul onde o caseiro Nildo trabalhava quando a turma de Palocci freqüentava
o local. O jardineiro teria ouvido o caseiro dizer que havia ganho
um bom dinheiro e pretendia comprar um terreno ou uma casa. Na noite
do dia seguinte, quarta-feira, a informação já
circulava também entre a cúpula palaciana. Três
ministros com gabinete no Planalto (Luiz Dulci, Dilma Rousseff e
Jaques Wagner) reuniam-se em um restaurante na Asa Sul, em Brasília.
O encontro era para comemorar o aniversário do então
ministro de Relações Institucionais, Jaques Wagner,
e ali se comentou abertamente a suspeita de que o caseiro recebera
dinheiro para fazer as denúncias contra Palocci. Nesse encontro
estavam também presentes dois assessores que trabalham diretamente
com o presidente Lula Clara Ant e Gilberto Carvalho.
Convocação no
Planalto
Carla Romero/Valor Econômico/Ag.
O Globo
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O PEDIDO
Schumann: o consultor recebeu ordem direta de Mattoso
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A essa altura, a informação
já havia chegado aos ouvidos de Palocci. Na tarde do dia
seguinte, uma quinta-feira, o caseiro foi ouvido pela CPI dos Bingos.
Mas seu depoimento foi interrompido graças a uma liminar
obtida no STF pelo diligente senador Tião Viana. Naquele
momento, o ministro da Fazenda estava em uma sala, no 3º andar
do Palácio do Planalto, ao lado do gabinete do presidente
Lula. Palocci assistia pela televisão à fala de Francenildo
quando convocou o presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge
Mattoso. No Palácio, o ministro relatou a Mattoso ter obtido
dados do próprio governo que indicavam movimentação
suspeita em uma conta do caseiro. Palocci não explicou a
seu subordinado como havia conseguido essas informações,
mas, por simples suposição, elas só poderiam
ter saído da Receita Federal ou do Serpro, dois órgãos
ligados à Fazenda. Exemplo: os indícios apontavam
para picos de recolhimento de CPMF incompatíveis com o salário
de um simples caseiro. É certo, porém, que em um intervalo
de 48 horas entre as inconfidências do senador Tião
Viana nos corredores do Congresso e o depoimento de Francenildo
à CPI a máquina do Estado já havia sido
colocada em ação para investigar a situação
fiscal e bancária do caseiro.
Após a conversa com o
ministro, Mattoso voltou para a Caixa Econômica. Assim que
chegou, pediu que o consultor da presidência, o engenheiro
Ricardo Schumann, viesse à sua sala. Também sem entrar
em detalhes, determinou ao consultor que investigasse supostas irregularidades
na conta de Francenildo. Schumann, que não tem acesso direto
a informações desse tipo, telefonou para a superintendente
nacional de Gestão de Pessoas, Sueli Aparecida Mascarenhas,
que trabalha no mesmo prédio, e disse que tinha um assunto
que deveria ser tratado pessoalmente. Os dois se trancaram em uma
sala de reuniões e Schumann explicou que precisava dos dados
da conta de Francenildo. Sueli disse ao consultor que também
não tinha senha de acesso às contas, mas que procuraria
um funcionário de sua confiança. Lembrou-se de Jeter
Ribeiro de Souza, com quem já havia trabalhado em uma agência
da Caixa em Campinas. Jeter, a pedido de Sueli, acessou o sistema,
imprimiu o extrato e entregou à superintendente cinco folhas
com os dados bancários do caseiro do mês de
setembro de 2005 e do período entre janeiro e março
de 2006. Quinze minutos depois, o documento já estava nas
mãos de Ricardo Schumann, que o colocou num envelope, que
fez chegar às mãos de Mattoso. Às 23h30 Mattoso
chegou à casa de Palocci, no Lago Sul. Naquele momento, além
do então ministro, estavam na casa seu assessor Marcelo Netto
e o secretário de Direito Econômico, Daniel Goldberg
um dos principais auxiliares do ministro da Justiça,
Márcio Thomaz Bastos. Pouco antes, deixara a casa de Palocci
o chefe-de-gabinete do ministro Bastos, Cláudio Alencar,
que tinha outro compromisso.
A comemoração
de Palocci
Beto Barata/AE
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Joedson Alves/AE
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PAI
E FILHO
Eurípedes, o suposto pai, e o caseiro Francenildo:
ambos tiveram suas contas violadas |
Mattoso chegou num carro oficial,
entregou o envelope ao ministro no escritório da casa e saiu
minutos depois. Palocci saiu do escritório radiante repetindo
uma mesma frase diversas vezes: "Como é bom ser caseiro do
Antero... Como é bom ser caseiro do Antero..." Ele fazia
referência ao senador Antero Paes de Barros, do PSDB, responsável
pelo aparecimento do caseiro Francenildo. Não se sabe ao
certo se Palocci mostrou o extrato aos presentes na sala, mas estava
muito satisfeito e convencido de que o documento que lhe fora entregue
por Mattoso seria uma prova devastadora contra o caseiro, capaz
de desfazer o que seria uma trama contra ele. Houve uma pequena
comemoração, e todos foram dormir contentes. Palocci
ouviu ali mesmo de um dos presentes que, embora o documento pudesse
incriminar o caseiro, sua obtenção fraudulenta abria
um enorme telhado de vidro sobre toda a operação.
Como fazer para encobrir a quebra do sigilo? Surgiu e prosperou
a idéia de produzir uma reclamação contra o
caseiro no âmbito do Conselho de Controle de Atividades Financeiras
(Coaf). Seria colocada para circular a versão de que os funcionários
do Coaf teriam notado havia tempos "anormalidades" na conta do caseiro.
A estratégia não resolveria todos os problemas, mas
daria a impressão de que existia uma investigação
legítima. Mas Palocci e seu assessor Marcelo Netto não
tiveram paciência. Divulgaram o extrato logo no dia seguinte,
antes mesmo de "esquentá-lo" com a farsa no Coaf.
Naquela noite, Goldberg e Alencar
haviam sido chamados por Palocci. O objetivo do ministro era deflagrar,
a partir do recebimento do extrato bancário do caseiro, uma
operação da PF subordinada ao Ministério
da Justiça capaz de desbaratar o que se acreditava
ser uma armação política contra o ministro.
Os alvos eram o caseiro Francenildo e o senador Antero. Apesar de
perceber que faltava a mínima base legal para a farsa, Alencar
mandou um pedido formal de diligência policial sobre o caso.
Um policial federal veterano da cúpula da corporação
recebeu o pedido, examinou-o e respondeu que aquilo levaria quinze
dias para produzir algum efeito prático.
Na manhã de sexta-feira,
sem saber que o front policial estava parado, Palocci fez o seguinte
comentário a um ministro: "Vamos ter uma notícia boa
hoje". No início da tarde, além de Palocci, outras
autoridades do governo já tinham visto cópias do extrato
de Francenildo Costa. O jornalista Matheus Leitão, repórter
da Época e filho do assessor Marcelo Netto, circulava
pela CPI dos Bingos tentando confirmar se o número do CPF
que aparecia no extrato retirado na Caixa Econômica Federal
era o mesmo do caseiro Francenildo Costa. Por ele ter deposto na
CPI, informações como o número do CPF e do
RG são registradas pela comissão.
"Guerra é guerra"
Roberto Castro/AE
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ELE QUERIA MAIS
Marcelo Netto: o assessor de Palocci pediu ao presidente
da Caixa para ampliar a quebra de sigilo do caseiro, mas não
foi atendido |
Enquanto isso, Marcelo Netto dava telefonemas para o celular de
Mattoso. Ele queria que o presidente da Caixa fizesse uma segunda
busca na conta do caseiro dessa vez incluindo a movimentação
bancária dos meses de outubro, novembro e dezembro. Marcelo
Netto alegou ter certeza da existência de depósitos
suspeitos também nesses outros meses. Mattoso negou-se. Respondeu
que o sistema não permitia tal acesso sem deixar rastros
ainda mais visíveis. O assessor de Palocci zangou-se, disse
que "guerra é guerra". Argumentou que, depois que o caseiro
fosse desmoralizado, ninguém daria importância para
os tais rastros. Todas essas chamadas ficaram registradas. Algumas
delas, testemunhadas dos dois lados. Palocci determinou também
ao secretário executivo do Ministério da Fazenda,
Murilo Portugal, que coordenasse uma ofensiva contra o caseiro Francenildo,
a partir do Coaf e da Receita Federal. Portugal negou-se e cogitou
demitir-se imediatamente.
A operação despiste
Beto Barata/AE
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NO PLANALTO
Gilberto Carvalho: o secretário de Lula também
sabia sobre os depósitos na conta do caseiro |
À noite após as 18h30 o presidente Lula
estava em viagem em Santa Catarina. Durante o vôo em um helicóptero
da FAB entre Laguna e Florianópolis, Lula foi informado por
um assessor que a revista Época publicaria a matéria
com base no extrato bancário de Francenildo Costa. Um pouco
mais tarde, o ministro Márcio Thomaz Bastos, que vinha de
uma viagem a Rondônia, fez um pouso na base aérea de
Brasília, antes de decolar para São Paulo, e recebeu
uma cópia da notícia que saíra no blog.
O ministro, inicialmente, achou que se tratava de um fato alentador.
Mas mudou de idéia no fim de semana diante da comoção
contra a violação, pelo poder público, do sigilo
bancário do caseiro. Daquele momento em diante, a estratégia
de desacreditar o caseiro foi substituída, dentro do governo,
por uma faxina destinada a apagar as provas do crime e preservar
o então ministro Antonio Palocci e seu assessor Marcelo Netto.
A idéia inicial foi convencer
o presidente da Caixa Econômica, Jorge Mattoso, a assumir
toda a responsabilidade pelo episódio. Caso Mattoso resistisse
a essa idéia o que acabou parcialmente acontecendo
, se encontraria um funcionário de escalão inferior
disposto a "matar a bola no peito", expressão usada várias
vezes durante as negociações. A ação
teve início na quarta-feira 22. Como a reação
da opinião pública foi imediata, o governo viu-se
pressionado a apontar os responsáveis pela violação.
A direção da Caixa anunciou que uma sindicância
teria o prazo de quinze dias para descobrir os autores da quebra
ilegal de sigilo. A oposição e a imprensa deram curso
à versão de que a idéia do governo era ganhar
tempo para eliminar provas que pudessem levar aos violadores e seus
mandantes.
Nada mais falso. A maior preocupação
do Planalto, naquele momento, era encontrar um culpado disposto
a eximir Palocci e seu assessor de responsabilidades. O arremedo
de sindicância montado pela Caixa dava ao governo o tempo
necessário para armar uma farsa. Na quinta-feira 23, desembarcou
em Brasília o advogado Arnaldo Malheiros. Amigo do ministro
Márcio Thomaz Bastos, Malheiros seguiu diretamente para a
casa de Palocci. Lá já o esperavam o ministro da Fazenda
e o presidente da Caixa. Durante a conversa, circulou a idéia
de oferecer 1 milhão de reais a qualquer funcionário
subalterno que se dispusesse a assumir integralmente a responsabilidade
na violação. Uma segunda reunião, desta vez
só com Malheiros, Jorge Mattoso e pelo menos outros três
funcionários da Caixa candidatos potenciais ao "prêmio"
de 1 milhão de reais , aconteceu em outro local, também
em Brasília. Na última sexta-feira, VEJA entrevistou
Arnaldo Malheiros. O advogado confirmou os dois encontros que teve
na cidade, mas jura que nunca se falou em 1 milhão. "Pelo
amor de Deus. Não, de jeito nenhum. Acho que, se alguém
tivesse de levar essa proposta, não haveria de me escolher
para ser porta-voz", diz Malheiros, um dos melhores criminalistas
do país e advogado do ex-tesoureiro do PT Delúbio
Soares e do ex-secretário do partido Silvio "Land Rover"
Pereira. E o que o advogado foi, então, fazer em Brasília?
"Não posso ficar falando de detalhes do exercício
da minha profissão."
Nos últimos dias, o caseiro
Francenildo transformou-se em uma espécie de celebridade.
Recebeu homenagens e, sem a timidez que lhe caracterizava no início
do escândalo, agora é capaz até de fazer brincadeiras
sobre o episódio. Nada indica, até o momento, que
ele tenha recebido dinheiro para contar o que via na embaixada da
República de Ribeirão Preto em Brasília. Isso
deve ser investigado dentro da legalidade. Esse caso já produziu
sua cota de ilegalidades. Outra delas, até agora desconhecida,
foi a quebra do sigilo bancário do suposto pai de Francenildo
Costa, o empresário Eurípedes Soares, do Piauí.
Palocci e seu bando fuçaram a conta de Soares da qual havia
saído o dinheiro para Francenildo. Eles acharam "curioso"
o fato de o empresário ter feito uma operação
triangular para transferir parte do dinheiro enviado ao caseiro.
Não é "curioso" o Brasil ter esse tipo de gente no
governo. É trágico.
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