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Entrevista:
Luca Cordero di Montezemolo
O capitão da Itália
Política italiana, investimentos
no Brasil,
o sonho de dirigir uma Ferrari, elogios ao
piloto Felipe Massa e uma estocada em
Rubens Barrichello. Eis uma amostra
do que pensa o presidente da Fiat

Mario Sabino
O bolonhês Luca Cordero
di Montezemolo, de 58 anos, presidente mundial da Fiat, é
o homem mais poderoso da Itália, entre aqueles que não
têm mandato político não só pela
posição que ocupa, como pelo prestígio que
angariou nos últimos trinta anos no comando de diversas empresas.
Na presidência da Fiat há menos de dois anos, ele tirou
a montadora do buraco, aumentando consideravelmente suas margens
de lucro e reduzindo sua dívida de 9,5 bilhões de
euros para um terço disso. Presidente da Confindustria, a
confederação de empresários italianos, ele
esteve no Brasil na semana passada, à frente de uma comitiva
de 250 empreendedores. A intenção é estabelecer
parcerias e reforçar os investimentos italianos no país.
Antes de comparecer a um coquetel promovido em São Paulo
pela Ferrari da qual Montezemolo também é presidente
, ele deu a seguinte entrevista a VEJA.
Veja A Itália
chega a mais uma eleição profundamente dividida entre
direita e esquerda. Não lhe parece um anacronismo?
Montezemolo Sim, é um grande anacronismo. Especialmente
porque a Itália precisa com urgência de reformas estruturais.
Nos últimos quinze anos, à exceção da
adoção do euro, não se fez nenhuma reforma
verdadeiramente profunda no país. Precisamos de uma universidade
que funcione nos moldes americanos, centrada na pesquisa e na parceria
com a iniciativa privada. Precisamos que as empresas sejam desobrigadas
de pagar tantos impostos, para que se tornem mais fortes e competitivas.
Precisamos de uma política energética consistente
hoje pagamos 30% a mais por energia do que os nossos concorrentes
europeus. E, talvez o mais importante, precisamos de uma mudança
radical na administração pública, porque as
exigências burocráticas são pesadas e penalizam
sobretudo a pequena empresa. Pois bem, a contraposição
excessiva entre direita e esquerda coloca em risco a possibilidade
de que essas reformas se concretizem. Para que ocorram, é
fundamental o apoio das duas facções. Temos de seguir
o exemplo da Inglaterra, onde o interesse nacional passou a prevalecer
sobre o aspecto ideológico. No pós-guerra, a mediação
política permitiu que se chegasse a acordos na Itália.
Hoje, com essa polarização exagerada, as coisas estão
mais difíceis. Além disso, mesmo no interior da direita
e da esquerda falta coesão política; ambas as coalizões
têm muitas divergências internas. A agência de
classificação de risco americana Standard & Poor's
disse que o problema da Itália é a governabilidade.
Concordo plenamente.
Veja A esquerda
italiana culpa o primeiro-ministro Silvio Berlusconi por tudo de
ruim que ocorre na Itália. Ela está certa?
Montezemolo Acho errado personalizar em demasia
os problemas italianos. Mas o fato é que, em 2001, quando
Berlusconi assumiu, ele estava à frente de um governo que
contava com uma grande maioria parlamentar, algo que jamais houve
na Itália do pós-guerra. Um governo que reunia condições
de continuidade temporal e que poderia finalmente mudar o país
por meio de reformas. Embora algumas delas tenham sido feitas, como
a que flexibilizou um pouco a legislação trabalhista,
creio que o governo Berlusconi é o governo das ocasiões
perdidas.
Veja O que faltaria
tanto à direita quanto à esquerda italianas?
Montezemolo Cultura industrial. Com isso quero
dizer que é necessário recolocar as empresas no centro
das preocupações políticas. Foram as empresas
que, numa Itália destruída pela II Guerra, sem matérias-primas
importantes, conseguiram fazer com que as coisas prosperassem a
ponto de o país se tornar a sexta potência econômica
mundial. São as empresas que fazem uma nação
crescer e proporcionam bem-estar à população.
Veja Uma sucessão
de escândalos atingiu o capitalismo italiano nos últimos
anos. Isso não teria contribuído para estigmatizar
os empresários do país?
Montezemolo Creio que não. Inclusive porque,
em tais momentos, os representantes mais avançados do capitalismo
italiano tomaram posições firmes sobre a necessidade
de respeito às normas e ao mercado. Os escândalos nasceram
de um país sem regras e, se algumas operações
ilícitas não foram adiante, isso ocorreu graças
também à forte reação do moderno establishment
italiano.
Veja Por que
nos países latinos os empresários têm uma imagem
mais negativa do que positiva?
Montezemolo Acho que a admiração pelos
empresários vem aumentando. A percepção de
que as empresas produzem crescimento e bem-estar está mais
clara. Na Itália, diante dos escândalos, das ocasiões
perdidas, da grande preocupação sobre a agenda da
centro-esquerda, creio que os empresários adquiriram mais
importância e credibilidade.
Veja O senhor
acredita que o empresariado, seja na Itália, seja em outros
países, teria de desempenhar um papel político mais
explícito?
Montezemolo Sou de opinião de que cada um deve
fazer o seu trabalho: empresários e políticos. No
caso da Itália, a esperança do empresariado é
que o novo governo esteja disposto a tomar decisões antes
de obter consenso social a respeito delas, e não o contrário.
De qualquer forma, fico satisfeito com o fato de que temas lançados
pela Confindustria, como o custo exagerado do trabalho e a necessidade
de imprimir maior capacidade de concorrência e inovação
à economia italiana, tenham se tornado centrais na campanha
eleitoral.
Veja Muitos
na Itália acham que o senhor, tido como um herói do
empresariado do país e considerado um dos cinqüenta
empresários mais importantes do mundo pelo jornal inglês
Financial Times, cultiva ambições políticas.
Montezemolo Há quem acredite que eu pudesse
encabeçar uma coalizão de centro, mas não tenho
a menor vontade de fazer política. O que me dá prazer
na vida é a organização empresarial e tudo
o que diz respeito a esse universo o produto, o cliente,
o marketing. Como sou presidente da Confindustria, da Fiat e da
Ferrari, é natural que achem que eu posso cultivar também
ambições políticas. Na verdade, procuro apenas
estimular o país. Meu papel, como presidente da confederação
de empresários da Itália, é dar um empurrão
em direção à modernização, ainda
que isso aborreça alguns industriais, que gostariam de mais
protecionismo.
Veja Entre as
grandes nações industrializadas, a Itália é
a que conta com o maior número de pequenas empresas. É
o país do "small is beautiful". Até agora, essa característica
impediu os italianos de aproveitar melhor as oportunidades oferecidas
pela globalização. Por não dar conta dessa
necessidade, as pequenas empresas italianas estariam destinadas
à extinção nas próximas décadas?
Montezemolo Nesta missão ao Brasil, a Confindustria
trouxe 250 pequenos empresários, uma quantidade respeitável,
visto que o Brasil não é a Alemanha ou a França,
não está logo ali na esquina para os italianos. Antes
de virmos para cá, fomos à Índia, à
China, à Turquia e à Bulgária. O motivo dessas
missões é simples: para que consigam sobreviver, é
fundamental que as pequenas empresas não só se especializem
mais e mais como façam joint ventures no exterior. No caso
das empresas italianas, elas podem fornecer know-how e marcas, enquanto
seus parceiros estrangeiros podem entrar com capitais locais e conexões.
Esse é o caminho. Em relação ao Brasil, por
exemplo, acho que existe a possibilidade de fazer joint ventures
no setor alimentício. A Itália tem marcas fantásticas
quase todas empresas pequenas, que primam pela qualidade
e pela experiência no "food process". No Brasil, por outro
lado, existe grande quantidade de matéria-prima, mas faltam
marcas reconhecidas internacionalmente e uma tecnologia mais sofisticada
no processo de industrialização dos alimentos. A complementaridade
é visível.
Veja Os empresários
italianos perderam terreno no Brasil, principalmente para os espanhóis.
Por quê?
Montezemolo Nos anos 70 e em parte dos anos 80,
tínhamos uma forte presença no Brasil. Mais recentemente,
a Itália entrou com investimentos vultosos no campo das telecomunicações.
Mas faltou atrair as médias e as pequenas empresas italianas.
Acho importante restabelecer laços mais estreitos com o Brasil
por dois motivos básicos. Em primeiro lugar, porque nossa
presença aqui de fato se enfraqueceu, o que é inadmissível
levando-se em conta a enorme potencialidade do mercado brasileiro
como um todo. Em segundo lugar, porque objetivamente temos aspectos
complementares que vão muito além do setor alimentício.
Não é possível ignorar o Brasil. O país
adquiriu alguma estabilidade e está se tornando um líder
na América do Sul. Sua voz agora se faz ouvir em fóruns
importantes, como a Organização Mundial do Comércio.
Em relação ao nosso negócio, as possibilidades
do mercado brasileiro são enormes.
Veja Os carros
são muito caros no Brasil.
Montezemolo O problema é que existem impostos
demais embutidos no preço de compra do automóvel e
relativamente poucos na parte que se refere à sua utilização
combustível, seguro etc. É o contrário
do que deveria ser. Se se conseguisse inverter esse estado de coisas,
diminuindo os impostos sobre a aquisição e, em contrapartida,
aumentando as taxas sobre o uso do automóvel, haveria muitos
e muitos brasileiros que se permitiriam comprar um carro. Na Europa
funciona desse jeito.
Veja Diminuir
impostos no Brasil? Parece impossível.
Montezemolo Sim, e esse é um erro. Porque a
redução dos impostos permitiria não só
à Fiat como a todas as montadoras instaladas no Brasil crescer
mais e, assim, realizar mais investimentos e gerar mais empregos.
Acho que o Brasil é um país que se encontra na metade
do caminho de um grande desafio. Mas sou otimista. Pegue-se o exemplo
de Lula: uma pessoa que tem uma imagem de esquerda e, quando chega
ao governo, monta uma forte equipe econômica e tenta fazer
reformas que vão na direção de mais economia,
mais liberdade.
Veja Nos próximos
três anos, a Fiat investirá 1,5 bilhão de dólares
em sua operação brasileira. Quais serão as
áreas privilegiadas?
Montezemolo Fabricação de novos modelos,
pesquisa de combustíveis alternativos e tecnologia para economia
de consumo. Queremos crescer também no setor de máquinas
agrícolas. O que me dá prazer não é
só o fato de sermos líderes do mercado brasileiro,
algo importantíssimo, e de nossa unidade produzir carros
com um nível máximo de qualidade. Fico satisfeito
porque há uma grande qualidade de vida na nossa fábrica
em Minas Gerais. Fiz uma visita de três horas à unidade
e posso assegurar que, habituado aos estabelecimentos da Ferrari,
que mais parecem showrooms de moda, fiquei impressionado com a limpeza,
com a ordem e com o grau de motivação das pessoas.
Veja A Fiat lançou-se
no Brasil com um carro tosco, que prejudicou bastante a imagem da
montadora.
Montezemolo Para dizer a verdade, se eu tivesse de
falar do passado da Fiat, seria preciso escrever vinte livros. Mas
só olho para o futuro. Além disso, seria pouco generoso
emitir juízos desse tipo. Hoje, porém, tudo é
diferente. O Idea brasileiro, por exemplo, é melhor do que
o europeu. Ele é mais sólido, os seus componentes
internos são mais bem-acabados e o carro é bem silencioso.
Veja A Ferrari
tem um bom mercado no Brasil?
Montezemolo Muito bom. Vendemos cinqüenta unidades
por ano, e olhe que no Brasil os carros custam o dobro do que na
Europa, por causa das taxas de importação. Isso faz
com que, por aqui, uma Ferrari tenha preços próximos
aos de um helicóptero. O Brasil é um dos três
países que mais visitam o site internacional da Ferrari.
Acho que, se não existissem tantas taxas, nós venderíamos
uma quantidade ainda maior de carros.
Veja O senhor
não se sentiria constrangido em dirigir uma Ferrari nas ruas
brasileiras, cheias de pessoas pobres?
Montezemolo Pode ser um problema, admito, mas acho
que a Ferrari é mais do que um carro esportivo de luxo. É
um sonho, um misto de tecnologia e design. Na Itália, quando
você deixa uma Ferrari estacionada na rua, ninguém
a toca. Fizemos o Tour da China, uma aventura incrível, com
milhares de quilômetros, e temos fotografias que mostram as
pessoas admirando a Ferrari como se fosse uma obra de arte. Não
temos nem mesmo concorrentes. Os compradores esperam dois anos,
em média, para receber os carros que encomendaram. Dois anos,
imagine! Em dois anos, você pode se casar, se divorciar
é como se fossem vinte anos. Veja: os grandes diretores de
cinema, os grandes maestros têm uma relação
especial com a Ferrari. No filme Perfume de Mulher, para
ficar num exemplo, Al Pacino fazia o papel de um cego que, entre
tantos desejos, tinha aquele de dirigir não qualquer carro,
mas uma Ferrari. Eu disse que os chineses admiravam a Ferrari como
se fosse uma obra de arte, e o carro se transformou exatamente nisso.
Tanto que um deles está exposto no Museu de Arte Moderna
de Nova York.
Veja Por que
a Ferrari perdeu a supremacia na Fórmula 1?
Montezemolo Nós fizemos o que ninguém
jamais havia feito na história do automobilismo: ganhamos
seis campeonatos do mundo seguidos. No esporte, é claro que
você não pode vencer o tempo todo até
porque não teria graça. Existe, no entanto, uma explicação
objetiva para o fato de termos perdido as últimas competições:
houve quatro mudanças de regulamento nos últimos três
anos, justamente para limitar a supremacia da Ferrari, que as pessoas
já estavam achando entediante. Quando se muda tanto assim,
mesmo que você esteja no topo, tudo deve recomeçar
do zero. Muda o motor, muda a aerodinâmica, mudam os pneus
no ano passado, o regulamento da Fórmula 1 transformou-se
num campeonato de pneus, fundamentalmente. E os nossos pneus eram
inferiores. Você tinha de colocar os pneus no sábado
de manhã, realizar todos os treinos do dia com eles, inclusive
os da pole position, e no domingo fazer a corrida sem trocá-los.
Um ano antes, você podia trocar até dez vezes os pneus
num Grande Prêmio. Além de não termos pneus
competitivos, erramos também na interpretação
do regulamento no que se refere aos carros. Neste ano, estamos nos
recuperando.
Veja E a Ferrari
agora conta, para os mais críticos, com a vantagem de não
ter Rubens Barrichello como seu piloto...
Montezemolo Temos agora um piloto muito bom: Felipe
Massa. Ele é corajoso e não se lamenta de nada, pelo
menos até agora. Barrichello tinha uma relação
excessivamente crítica com o carro e talvez consigo mesmo.
Massa é muito veloz e, se conseguir suportar bem a pressão
de pilotar uma Ferrari, terá um grande futuro. O dado curioso
é que ele parece mais jovem do que é. Tanto que minha
mãe, quando o vê, sempre pergunta: "Mas ele tem carta
de motorista?". Massa tem tudo para se tornar popular: é
simpático, não reclama. É um combatente.
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