Edição 1950 . 5 de abril de 2006

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Entrevista: Luca Cordero di Montezemolo
O capitão da Itália

Política italiana, investimentos no Brasil,
o sonho de dirigir uma Ferrari, elogios ao
piloto Felipe Massa e uma estocada em
Rubens Barrichello. Eis uma amostra
do que pensa o presidente da Fiat


Mario Sabino

O bolonhês Luca Cordero di Montezemolo, de 58 anos, presidente mundial da Fiat, é o homem mais poderoso da Itália, entre aqueles que não têm mandato político – não só pela posição que ocupa, como pelo prestígio que angariou nos últimos trinta anos no comando de diversas empresas. Na presidência da Fiat há menos de dois anos, ele tirou a montadora do buraco, aumentando consideravelmente suas margens de lucro e reduzindo sua dívida de 9,5 bilhões de euros para um terço disso. Presidente da Confindustria, a confederação de empresários italianos, ele esteve no Brasil na semana passada, à frente de uma comitiva de 250 empreendedores. A intenção é estabelecer parcerias e reforçar os investimentos italianos no país. Antes de comparecer a um coquetel promovido em São Paulo pela Ferrari – da qual Montezemolo também é presidente –, ele deu a seguinte entrevista a VEJA.

Veja – A Itália chega a mais uma eleição profundamente dividida entre direita e esquerda. Não lhe parece um anacronismo?
Montezemolo – Sim, é um grande anacronismo. Especialmente porque a Itália precisa com urgência de reformas estruturais. Nos últimos quinze anos, à exceção da adoção do euro, não se fez nenhuma reforma verdadeiramente profunda no país. Precisamos de uma universidade que funcione nos moldes americanos, centrada na pesquisa e na parceria com a iniciativa privada. Precisamos que as empresas sejam desobrigadas de pagar tantos impostos, para que se tornem mais fortes e competitivas. Precisamos de uma política energética consistente – hoje pagamos 30% a mais por energia do que os nossos concorrentes europeus. E, talvez o mais importante, precisamos de uma mudança radical na administração pública, porque as exigências burocráticas são pesadas e penalizam sobretudo a pequena empresa. Pois bem, a contraposição excessiva entre direita e esquerda coloca em risco a possibilidade de que essas reformas se concretizem. Para que ocorram, é fundamental o apoio das duas facções. Temos de seguir o exemplo da Inglaterra, onde o interesse nacional passou a prevalecer sobre o aspecto ideológico. No pós-guerra, a mediação política permitiu que se chegasse a acordos na Itália. Hoje, com essa polarização exagerada, as coisas estão mais difíceis. Além disso, mesmo no interior da direita e da esquerda falta coesão política; ambas as coalizões têm muitas divergências internas. A agência de classificação de risco americana Standard & Poor's disse que o problema da Itália é a governabilidade. Concordo plenamente.

Veja – A esquerda italiana culpa o primeiro-ministro Silvio Berlusconi por tudo de ruim que ocorre na Itália. Ela está certa?
Montezemolo – Acho errado personalizar em demasia os problemas italianos. Mas o fato é que, em 2001, quando Berlusconi assumiu, ele estava à frente de um governo que contava com uma grande maioria parlamentar, algo que jamais houve na Itália do pós-guerra. Um governo que reunia condições de continuidade temporal e que poderia finalmente mudar o país por meio de reformas. Embora algumas delas tenham sido feitas, como a que flexibilizou um pouco a legislação trabalhista, creio que o governo Berlusconi é o governo das ocasiões perdidas.

Veja – O que faltaria tanto à direita quanto à esquerda italianas?
Montezemolo – Cultura industrial. Com isso quero dizer que é necessário recolocar as empresas no centro das preocupações políticas. Foram as empresas que, numa Itália destruída pela II Guerra, sem matérias-primas importantes, conseguiram fazer com que as coisas prosperassem a ponto de o país se tornar a sexta potência econômica mundial. São as empresas que fazem uma nação crescer e proporcionam bem-estar à população.

Veja – Uma sucessão de escândalos atingiu o capitalismo italiano nos últimos anos. Isso não teria contribuído para estigmatizar os empresários do país?
Montezemolo – Creio que não. Inclusive porque, em tais momentos, os representantes mais avançados do capitalismo italiano tomaram posições firmes sobre a necessidade de respeito às normas e ao mercado. Os escândalos nasceram de um país sem regras – e, se algumas operações ilícitas não foram adiante, isso ocorreu graças também à forte reação do moderno establishment italiano.

Veja – Por que nos países latinos os empresários têm uma imagem mais negativa do que positiva?
Montezemolo – Acho que a admiração pelos empresários vem aumentando. A percepção de que as empresas produzem crescimento e bem-estar está mais clara. Na Itália, diante dos escândalos, das ocasiões perdidas, da grande preocupação sobre a agenda da centro-esquerda, creio que os empresários adquiriram mais importância e credibilidade.

Veja – O senhor acredita que o empresariado, seja na Itália, seja em outros países, teria de desempenhar um papel político mais explícito?
Montezemolo – Sou de opinião de que cada um deve fazer o seu trabalho: empresários e políticos. No caso da Itália, a esperança do empresariado é que o novo governo esteja disposto a tomar decisões antes de obter consenso social a respeito delas, e não o contrário. De qualquer forma, fico satisfeito com o fato de que temas lançados pela Confindustria, como o custo exagerado do trabalho e a necessidade de imprimir maior capacidade de concorrência e inovação à economia italiana, tenham se tornado centrais na campanha eleitoral.

Veja – Muitos na Itália acham que o senhor, tido como um herói do empresariado do país e considerado um dos cinqüenta empresários mais importantes do mundo pelo jornal inglês Financial Times, cultiva ambições políticas.
Montezemolo – Há quem acredite que eu pudesse encabeçar uma coalizão de centro, mas não tenho a menor vontade de fazer política. O que me dá prazer na vida é a organização empresarial e tudo o que diz respeito a esse universo – o produto, o cliente, o marketing. Como sou presidente da Confindustria, da Fiat e da Ferrari, é natural que achem que eu posso cultivar também ambições políticas. Na verdade, procuro apenas estimular o país. Meu papel, como presidente da confederação de empresários da Itália, é dar um empurrão em direção à modernização, ainda que isso aborreça alguns industriais, que gostariam de mais protecionismo.

Veja – Entre as grandes nações industrializadas, a Itália é a que conta com o maior número de pequenas empresas. É o país do "small is beautiful". Até agora, essa característica impediu os italianos de aproveitar melhor as oportunidades oferecidas pela globalização. Por não dar conta dessa necessidade, as pequenas empresas italianas estariam destinadas à extinção nas próximas décadas?
Montezemolo – Nesta missão ao Brasil, a Confindustria trouxe 250 pequenos empresários, uma quantidade respeitável, visto que o Brasil não é a Alemanha ou a França, não está logo ali na esquina para os italianos. Antes de virmos para cá, fomos à Índia, à China, à Turquia e à Bulgária. O motivo dessas missões é simples: para que consigam sobreviver, é fundamental que as pequenas empresas não só se especializem mais e mais como façam joint ventures no exterior. No caso das empresas italianas, elas podem fornecer know-how e marcas, enquanto seus parceiros estrangeiros podem entrar com capitais locais e conexões. Esse é o caminho. Em relação ao Brasil, por exemplo, acho que existe a possibilidade de fazer joint ventures no setor alimentício. A Itália tem marcas fantásticas – quase todas empresas pequenas, que primam pela qualidade e pela experiência no "food process". No Brasil, por outro lado, existe grande quantidade de matéria-prima, mas faltam marcas reconhecidas internacionalmente e uma tecnologia mais sofisticada no processo de industrialização dos alimentos. A complementaridade é visível.

Veja – Os empresários italianos perderam terreno no Brasil, principalmente para os espanhóis. Por quê?
Montezemolo – Nos anos 70 e em parte dos anos 80, tínhamos uma forte presença no Brasil. Mais recentemente, a Itália entrou com investimentos vultosos no campo das telecomunicações. Mas faltou atrair as médias e as pequenas empresas italianas. Acho importante restabelecer laços mais estreitos com o Brasil por dois motivos básicos. Em primeiro lugar, porque nossa presença aqui de fato se enfraqueceu, o que é inadmissível levando-se em conta a enorme potencialidade do mercado brasileiro como um todo. Em segundo lugar, porque objetivamente temos aspectos complementares que vão muito além do setor alimentício. Não é possível ignorar o Brasil. O país adquiriu alguma estabilidade e está se tornando um líder na América do Sul. Sua voz agora se faz ouvir em fóruns importantes, como a Organização Mundial do Comércio. Em relação ao nosso negócio, as possibilidades do mercado brasileiro são enormes.

Veja – Os carros são muito caros no Brasil.
Montezemolo – O problema é que existem impostos demais embutidos no preço de compra do automóvel e relativamente poucos na parte que se refere à sua utilização – combustível, seguro etc. É o contrário do que deveria ser. Se se conseguisse inverter esse estado de coisas, diminuindo os impostos sobre a aquisição e, em contrapartida, aumentando as taxas sobre o uso do automóvel, haveria muitos e muitos brasileiros que se permitiriam comprar um carro. Na Europa funciona desse jeito.

Veja – Diminuir impostos no Brasil? Parece impossível.
Montezemolo – Sim, e esse é um erro. Porque a redução dos impostos permitiria não só à Fiat como a todas as montadoras instaladas no Brasil crescer mais e, assim, realizar mais investimentos e gerar mais empregos. Acho que o Brasil é um país que se encontra na metade do caminho de um grande desafio. Mas sou otimista. Pegue-se o exemplo de Lula: uma pessoa que tem uma imagem de esquerda e, quando chega ao governo, monta uma forte equipe econômica e tenta fazer reformas que vão na direção de mais economia, mais liberdade.

Veja – Nos próximos três anos, a Fiat investirá 1,5 bilhão de dólares em sua operação brasileira. Quais serão as áreas privilegiadas?
Montezemolo – Fabricação de novos modelos, pesquisa de combustíveis alternativos e tecnologia para economia de consumo. Queremos crescer também no setor de máquinas agrícolas. O que me dá prazer não é só o fato de sermos líderes do mercado brasileiro, algo importantíssimo, e de nossa unidade produzir carros com um nível máximo de qualidade. Fico satisfeito porque há uma grande qualidade de vida na nossa fábrica em Minas Gerais. Fiz uma visita de três horas à unidade e posso assegurar que, habituado aos estabelecimentos da Ferrari, que mais parecem showrooms de moda, fiquei impressionado com a limpeza, com a ordem e com o grau de motivação das pessoas.

Veja – A Fiat lançou-se no Brasil com um carro tosco, que prejudicou bastante a imagem da montadora.
Montezemolo – Para dizer a verdade, se eu tivesse de falar do passado da Fiat, seria preciso escrever vinte livros. Mas só olho para o futuro. Além disso, seria pouco generoso emitir juízos desse tipo. Hoje, porém, tudo é diferente. O Idea brasileiro, por exemplo, é melhor do que o europeu. Ele é mais sólido, os seus componentes internos são mais bem-acabados e o carro é bem silencioso.

Veja – A Ferrari tem um bom mercado no Brasil?
Montezemolo – Muito bom. Vendemos cinqüenta unidades por ano, e olhe que no Brasil os carros custam o dobro do que na Europa, por causa das taxas de importação. Isso faz com que, por aqui, uma Ferrari tenha preços próximos aos de um helicóptero. O Brasil é um dos três países que mais visitam o site internacional da Ferrari. Acho que, se não existissem tantas taxas, nós venderíamos uma quantidade ainda maior de carros.

Veja – O senhor não se sentiria constrangido em dirigir uma Ferrari nas ruas brasileiras, cheias de pessoas pobres?
Montezemolo – Pode ser um problema, admito, mas acho que a Ferrari é mais do que um carro esportivo de luxo. É um sonho, um misto de tecnologia e design. Na Itália, quando você deixa uma Ferrari estacionada na rua, ninguém a toca. Fizemos o Tour da China, uma aventura incrível, com milhares de quilômetros, e temos fotografias que mostram as pessoas admirando a Ferrari como se fosse uma obra de arte. Não temos nem mesmo concorrentes. Os compradores esperam dois anos, em média, para receber os carros que encomendaram. Dois anos, imagine! Em dois anos, você pode se casar, se divorciar – é como se fossem vinte anos. Veja: os grandes diretores de cinema, os grandes maestros têm uma relação especial com a Ferrari. No filme Perfume de Mulher, para ficar num exemplo, Al Pacino fazia o papel de um cego que, entre tantos desejos, tinha aquele de dirigir não qualquer carro, mas uma Ferrari. Eu disse que os chineses admiravam a Ferrari como se fosse uma obra de arte, e o carro se transformou exatamente nisso. Tanto que um deles está exposto no Museu de Arte Moderna de Nova York.

Veja – Por que a Ferrari perdeu a supremacia na Fórmula 1?
Montezemolo – Nós fizemos o que ninguém jamais havia feito na história do automobilismo: ganhamos seis campeonatos do mundo seguidos. No esporte, é claro que você não pode vencer o tempo todo – até porque não teria graça. Existe, no entanto, uma explicação objetiva para o fato de termos perdido as últimas competições: houve quatro mudanças de regulamento nos últimos três anos, justamente para limitar a supremacia da Ferrari, que as pessoas já estavam achando entediante. Quando se muda tanto assim, mesmo que você esteja no topo, tudo deve recomeçar do zero. Muda o motor, muda a aerodinâmica, mudam os pneus – no ano passado, o regulamento da Fórmula 1 transformou-se num campeonato de pneus, fundamentalmente. E os nossos pneus eram inferiores. Você tinha de colocar os pneus no sábado de manhã, realizar todos os treinos do dia com eles, inclusive os da pole position, e no domingo fazer a corrida sem trocá-los. Um ano antes, você podia trocar até dez vezes os pneus num Grande Prêmio. Além de não termos pneus competitivos, erramos também na interpretação do regulamento no que se refere aos carros. Neste ano, estamos nos recuperando.

Veja – E a Ferrari agora conta, para os mais críticos, com a vantagem de não ter Rubens Barrichello como seu piloto...
Montezemolo – Temos agora um piloto muito bom: Felipe Massa. Ele é corajoso e não se lamenta de nada, pelo menos até agora. Barrichello tinha uma relação excessivamente crítica com o carro e talvez consigo mesmo. Massa é muito veloz e, se conseguir suportar bem a pressão de pilotar uma Ferrari, terá um grande futuro. O dado curioso é que ele parece mais jovem do que é. Tanto que minha mãe, quando o vê, sempre pergunta: "Mas ele tem carta de motorista?". Massa tem tudo para se tornar popular: é simpático, não reclama. É um combatente.

 
 
 
 
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