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Auto-retrato
Khaled Hosseini
Radicado nos Estados Unidos, o médico
afegão Khaled Hosseini tornou-se um best-seller mundial com
O Caçador de Pipas, que acompanha a trajetória
do Afeganistão dos anos 70 até a ditadura islâmica
do Talibã. No Brasil, o romance já vendeu mais de
200 000 exemplares e está em primeiro lugar na lista de mais
vendidos. O autor, de 41 anos, falou com o repórter Jerônimo
Teixeira por telefone, de São Francisco.
O PROTAGONISTA DE O CAÇADOR
DE PIPAS É, COMO O SENHOR, UM AFEGÃO RADICADO
NOS ESTADOS UNIDOS. QUE OUTROS ELEMENTOS AUTOBIOGRÁFICOS
HÁ NO ROMANCE?
A história começa com a amizade entre Amir, um
menino de classe alta, e Hassan, o filho analfabeto de um criado
da casa, que pertence à etnia hazara, muito discriminada
no Afeganistão. Na minha vida, não houve um Hassan,
mas havia um homem mais velho que trabalhou para minha família
e era hazara. Fomos amigos. Ele era analfabeto. Quando eu estava
no 3º ano do primário, ensinei o alfabeto farsi a esse
homem. As observações de Amir sobre a sociedade afegã
nos anos 70 são baseadas na minha própria percepção
das coisas quando eu era criança.
O PAI DO PROTAGONISTA NO SEU
LIVRO É UM HOMEM ANTI-RELIGIOSO, QUE DESPREZA OS LÍDERES
MUÇULMANOS. SEU PAI ERA ASSIM TAMBÉM?
Não. Fui criado em um ambiente muito secular, mas meus
pais eram muçulmanos liberais. No livro, o pai de Amir desdenha
tudo o que é religioso. Não compartilho dessa visão
negativa nem desprezo a religião. Desprezo apenas a vertente
mais extremista do Islã, da qual o Talibã foi um exemplo.
O SENHOR HOJE É UM
HOMEM RELIGIOSO?
Esse é um tema sobre o qual tenho conversado muito com
minha mulher quando discutimos a educação dos nossos
dois filhos, que têm 5 e 3 anos. A religião não
tem um papel importante na minha família. Mas eu acredito
em Deus. Tenho uma porção narcisista que gosta de
pensar que existe um Deus que cuida de mim.
O SENHOR ASSISTIA AOS MESMOS
FAROESTES QUE O PROTAGONISTA DE O CAÇADOR DE PIPAS
VIA NA INFÂNCIA?
Sim, claro! Sete Homens e um Destino, por exemplo
há pouco tempo ainda revi esse filme. Eu era obcecado por
essa fita quando menino. E pelos filmes de John Wayne. Os cinemas
de Cabul, nos anos 70, passavam muitos faroestes. O Talibã,
claro, acabou com isso. Destruiu muitos arquivos importantes dos
institutos de cinema afegãos. Foi uma tragédia.
OS CAMPEONATOS DE PIPAS QUE
O SENHOR DESCREVE REALMENTE ACONTECIAM EM CABUL?
Sim. Estão entre as memórias mais vívidas
da minha infância.
O SENHOR ESTEVE NO AFEGANISTÃO
POUCO DEPOIS DA QUEDA DO TALIBÃ. COMO FOI ESSA VISITA?
Eu deixei o Afeganistão ainda criança, nos anos
70. Cabul era uma cidade cosmopolita, com uma boa vida cultural.
Voltei para uma cidade que passou por mais de vinte anos de conflitos.
Os bairros que antes eram considerados de luxo se transformaram
em favelas, e as áreas pobres estão ainda piores,
com pilhas de entulho acumulado. Há muitos órfãos
na rua. Foi doloroso testemunhar isso. Emocionalmente, levei vários
dias para aceitar o que eu estava vendo.
COMO SERÁ O SEU PRÓXIMO
LIVRO?
É mais uma vez um romance ambientado no Afeganistão.
Desta vez, porém, eu trato mais de um aspecto que quase não
aparecia em O Caçador de Pipas: a condição
feminina das afegãs. É a história da amizade
entre duas mulheres, dos anos 50 até 2001.
O CAÇADOR DE PIPAS,
SEU PRIMEIRO LIVRO, APARECEU QUANDO O SENHOR JÁ SE APROXIMAVA
DOS 40 ANOS. O QUE O LEVOU A COMEÇAR A CARREIRA DE ESCRITOR
A ESSA ALTURA DA VIDA?
Na verdade, eu passei minha vida toda escrevendo. Tal como meu personagem,
Amir, desde criança eu gostava de ler histórias e
criar as minhas próprias. Mas eu escrevia sempre como um
hobby. Nunca pensei nisso como uma carreira séria. Acabei
escrevendo um conto chamado O Caçador de Pipas, que
depois converti em romance. O livro fez sucesso, e agora estou afastado
da medicina, dedicando-me só à literatura.
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