Edição 1950 . 5 de abril de 2006

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Auto-retrato
Khaled Hosseini

Radicado nos Estados Unidos, o médico afegão Khaled Hosseini tornou-se um best-seller mundial com O Caçador de Pipas, que acompanha a trajetória do Afeganistão dos anos 70 até a ditadura islâmica do Talibã. No Brasil, o romance já vendeu mais de 200 000 exemplares e está em primeiro lugar na lista de mais vendidos. O autor, de 41 anos, falou com o repórter Jerônimo Teixeira por telefone, de São Francisco.

O PROTAGONISTA DE O CAÇADOR DE PIPAS É, COMO O SENHOR, UM AFEGÃO RADICADO NOS ESTADOS UNIDOS. QUE OUTROS ELEMENTOS AUTOBIOGRÁFICOS HÁ NO ROMANCE?
A história começa com a amizade entre Amir, um menino de classe alta, e Hassan, o filho analfabeto de um criado da casa, que pertence à etnia hazara, muito discriminada no Afeganistão. Na minha vida, não houve um Hassan, mas havia um homem mais velho que trabalhou para minha família e era hazara. Fomos amigos. Ele era analfabeto. Quando eu estava no 3º ano do primário, ensinei o alfabeto farsi a esse homem. As observações de Amir sobre a sociedade afegã nos anos 70 são baseadas na minha própria percepção das coisas quando eu era criança.

O PAI DO PROTAGONISTA NO SEU LIVRO É UM HOMEM ANTI-RELIGIOSO, QUE DESPREZA OS LÍDERES MUÇULMANOS. SEU PAI ERA ASSIM TAMBÉM?
Não. Fui criado em um ambiente muito secular, mas meus pais eram muçulmanos liberais. No livro, o pai de Amir desdenha tudo o que é religioso. Não compartilho dessa visão negativa nem desprezo a religião. Desprezo apenas a vertente mais extremista do Islã, da qual o Talibã foi um exemplo.

O SENHOR HOJE É UM HOMEM RELIGIOSO?
Esse é um tema sobre o qual tenho conversado muito com minha mulher quando discutimos a educação dos nossos dois filhos, que têm 5 e 3 anos. A religião não tem um papel importante na minha família. Mas eu acredito em Deus. Tenho uma porção narcisista que gosta de pensar que existe um Deus que cuida de mim.

O SENHOR ASSISTIA AOS MESMOS FAROESTES QUE O PROTAGONISTA DE O CAÇADOR DE PIPAS VIA NA INFÂNCIA?
Sim, claro! Sete Homens e um Destino, por exemplo – há pouco tempo ainda revi esse filme. Eu era obcecado por essa fita quando menino. E pelos filmes de John Wayne. Os cinemas de Cabul, nos anos 70, passavam muitos faroestes. O Talibã, claro, acabou com isso. Destruiu muitos arquivos importantes dos institutos de cinema afegãos. Foi uma tragédia.

OS CAMPEONATOS DE PIPAS QUE O SENHOR DESCREVE REALMENTE ACONTECIAM EM CABUL?
Sim. Estão entre as memórias mais vívidas da minha infância.

O SENHOR ESTEVE NO AFEGANISTÃO POUCO DEPOIS DA QUEDA DO TALIBÃ. COMO FOI ESSA VISITA?
Eu deixei o Afeganistão ainda criança, nos anos 70. Cabul era uma cidade cosmopolita, com uma boa vida cultural. Voltei para uma cidade que passou por mais de vinte anos de conflitos. Os bairros que antes eram considerados de luxo se transformaram em favelas, e as áreas pobres estão ainda piores, com pilhas de entulho acumulado. Há muitos órfãos na rua. Foi doloroso testemunhar isso. Emocionalmente, levei vários dias para aceitar o que eu estava vendo.

COMO SERÁ O SEU PRÓXIMO LIVRO?
É mais uma vez um romance ambientado no Afeganistão. Desta vez, porém, eu trato mais de um aspecto que quase não aparecia em O Caçador de Pipas: a condição feminina das afegãs. É a história da amizade entre duas mulheres, dos anos 50 até 2001.

O CAÇADOR DE PIPAS, SEU PRIMEIRO LIVRO, APARECEU QUANDO O SENHOR JÁ SE APROXIMAVA DOS 40 ANOS. O QUE O LEVOU A COMEÇAR A CARREIRA DE ESCRITOR A ESSA ALTURA DA VIDA?
Na verdade, eu passei minha vida toda escrevendo. Tal como meu personagem, Amir, desde criança eu gostava de ler histórias e criar as minhas próprias. Mas eu escrevia sempre como um hobby. Nunca pensei nisso como uma carreira séria. Acabei escrevendo um conto chamado O Caçador de Pipas, que depois converti em romance. O livro fez sucesso, e agora estou afastado da medicina, dedicando-me só à literatura.

 
 
 
 
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