Beleza americana
"A reabertura
do inquérito que apura a morte
do ex-chanceler chileno Orlando Letelier e de sua
secretária, Ronni Moffitt, em Washington, em 21
de setembro de 1976, é o lado da beleza americana
que será sempre respeitado, admirado e invejado"
Ilustração Alê
Setti
American
Beauty, o filme do inglês Sam Mendes que ganhou
cinco Oscar na semana passada, tem recebido palmas de todos
os lados. Foram laureados o filme, o diretor, o ator, o
fotógrafo e o roteirista deste filme sobre uma família
americana de classe média que se desagrega sob o
peso das frustrações engendradas pelo trabalho,
pela escola, pelos vizinhos. Tantos troféus assim
trouxeram elogios à ousadia de Hollywood, que não
hesitou em premiar esta sátira feroz da sociedade
americana, feita por um diretor de cinema estrangeiro.
Entretanto, há um fato menos noticiado mas muito
mais audacioso, também ocorrido poucos dias atrás,
que suscita grande respeito pelos valores republicanos embasados
na democracia americana. Trata-se da decisão do Departamento
de Justiça dos Estados Unidos de relançar
o inquérito sobre o atentado, perpetrado em Washington
em 21 de setembro de 1976, que matou o ex-chanceler chileno
Orlando Letelier e sua secretária americana, Ronni
Moffitt.
Durante anos o inquérito sobre o crime ficou parado.
Dá para entender por quê. Mexer em coisas do
Chile de Pinochet e de outras ditaduras latino-americanas
é complicado. Apesar disso, cerca de 7.000
documentos relativos à ditadura chilena, provenientes
do Departamento de Estado, da CIA e do FBI, foram liberados
e postos na internet pelo governo americano (http://foia.state.gov).
Milhares de outros documentos poderão ser consultados
no mesmo site a partir de junho. Mesmo se sabendo que a
CIA guardou a papelada mais comprometedora, a documentação
já acessível fornece uma amostragem das truculências
da ditadura de Pinochet. Agora, em decorrência de
uma decisão pessoal da secretária da Justiça
dos Estados Unidos, Janet Reno, o inquérito sobre
o atentado que causou a morte de Letelier e Moffitt saiu
da gaveta. Por requisição da Justiça
americana, 42 militares do regime Pinochet, entre os quais
os generais Contreras e Espinoza, ambos cumprindo pena no
Chile por cumplicidade no atentado, serão interrogados
por um magistrado chileno. Dois promotores americanos já
se encontram no Chile para acompanhar esses interrogatórios.
De fato, a pedido do governo americano, o atentado de Washington
não está coberto pela lei de anistia promulgada
no Chile.
Há muita chance de que as investigações
cheguem até Pinochet. O general Contreras declarou
que a ordem para matar Letelier veio de Pinochet, por intermédio
do general Espinoza. Fato corroborado por uma mensagem,
acessível no site citado anteriormente, do embaixador
americano em Santiago na época do atentado.
Justificando a colaboração do FBI nas investigações
que permitiram a reabertura do processo sobre o atentado,
um agente daquele organismo declarou que o relançamento
do inquérito era uma advertência a todos os
terroristas: "por mais antigos que sejam os fatos, pois
se trata de um crime abominável".
Os realistas dirão que o crime parece abominável
para os americanos só porque a bomba estourou a alguns
quilômetros da Casa Branca. Os cínicos irão
mais longe, argumentando que Pinochet pode se dar mal por
sua própria culpa: não devia ter mandado matar
ninguém em Washington. Para perpetrar o atentado,
ele devia ter atraído Letelier para uma região
ao sul do Rio Grande, num desses países abaixo da
fronteira dos Estados Unidos e do México, onde essas
coisas são logo esquecidas.
Para todos os outros, a lição deve ser diferente.
Houve um atentado terrorista em Washington, foi aberto um
inquérito por um grande júri da capital americana
e, malgrado as hesitações, as paradas e as
pressões, o processo está indo em frente.
A força da lei acabará alcançando os
criminosos. Esse é o lado da beleza americana, da
American Beauty, que será sempre respeitado,
admirado e invejado.
Luiz Felipe de Alencastro
é historiador (lfa@workmail.com)