Edição 1 643 -5/4/2000

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Beleza americana

"A reabertura do inquérito que apura a morte
do ex-chanceler chileno Orlando Letelier e de sua
secretária, Ronni Moffitt, em Washington, em 21
de setembro de 1976, é o lado da beleza americana
que será sempre respeitado, admirado e invejado"

 

Ilustração Alê Setti
American Beauty, o filme do inglês Sam Mendes que ganhou cinco Oscar na semana passada, tem recebido palmas de todos os lados. Foram laureados o filme, o diretor, o ator, o fotógrafo e o roteirista deste filme sobre uma família americana de classe média que se desagrega sob o peso das frustrações engendradas pelo trabalho, pela escola, pelos vizinhos. Tantos troféus assim trouxeram elogios à ousadia de Hollywood, que não hesitou em premiar esta sátira feroz da sociedade americana, feita por um diretor de cinema estrangeiro.

Entretanto, há um fato menos noticiado mas muito mais audacioso, também ocorrido poucos dias atrás, que suscita grande respeito pelos valores republicanos embasados na democracia americana. Trata-se da decisão do Departamento de Justiça dos Estados Unidos de relançar o inquérito sobre o atentado, perpetrado em Washington em 21 de setembro de 1976, que matou o ex-chanceler chileno Orlando Letelier e sua secretária americana, Ronni Moffitt.

Durante anos o inquérito sobre o crime ficou parado. Dá para entender por quê. Mexer em coisas do Chile de Pinochet e de outras ditaduras latino-americanas é complicado. Apesar disso, cerca de 7.000 documentos relativos à ditadura chilena, provenientes do Departamento de Estado, da CIA e do FBI, foram liberados e postos na internet pelo governo americano (http://foia.state.gov). Milhares de outros documentos poderão ser consultados no mesmo site a partir de junho. Mesmo se sabendo que a CIA guardou a papelada mais comprometedora, a documentação já acessível fornece uma amostragem das truculências da ditadura de Pinochet. Agora, em decorrência de uma decisão pessoal da secretária da Justiça dos Estados Unidos, Janet Reno, o inquérito sobre o atentado que causou a morte de Letelier e Moffitt saiu da gaveta. Por requisição da Justiça americana, 42 militares do regime Pinochet, entre os quais os generais Contreras e Espinoza, ambos cumprindo pena no Chile por cumplicidade no atentado, serão interrogados por um magistrado chileno. Dois promotores americanos já se encontram no Chile para acompanhar esses interrogatórios. De fato, a pedido do governo americano, o atentado de Washington não está coberto pela lei de anistia promulgada no Chile.

Há muita chance de que as investigações cheguem até Pinochet. O general Contreras declarou que a ordem para matar Letelier veio de Pinochet, por intermédio do general Espinoza. Fato corroborado por uma mensagem, acessível no site citado anteriormente, do embaixador americano em Santiago na época do atentado.

Justificando a colaboração do FBI nas investigações que permitiram a reabertura do processo sobre o atentado, um agente daquele organismo declarou que o relançamento do inquérito era uma advertência a todos os terroristas: "por mais antigos que sejam os fatos, pois se trata de um crime abominável".

Os realistas dirão que o crime parece abominável para os americanos só porque a bomba estourou a alguns quilômetros da Casa Branca. Os cínicos irão mais longe, argumentando que Pinochet pode se dar mal por sua própria culpa: não devia ter mandado matar ninguém em Washington. Para perpetrar o atentado, ele devia ter atraído Letelier para uma região ao sul do Rio Grande, num desses países abaixo da fronteira dos Estados Unidos e do México, onde essas coisas são logo esquecidas.

Para todos os outros, a lição deve ser diferente. Houve um atentado terrorista em Washington, foi aberto um inquérito por um grande júri da capital americana e, malgrado as hesitações, as paradas e as pressões, o processo está indo em frente. A força da lei acabará alcançando os criminosos. Esse é o lado da beleza americana, da American Beauty, que será sempre respeitado, admirado e invejado.

Luiz Felipe de Alencastro é historiador (lfa@workmail.com)