Edição 1 643 -5/4/2000

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E o holocausto fica light

Cineastas andam em campo minado ao combinar
no mesmo filme genocídio e comédia

Isabela Boscov

É legítimo fazer uma comédia sobre a barbárie do holocausto? Essa questão, que veio à tona quando o italiano Roberto Benigni lançou A Vida É Bela, volta à baila com a estréia, em São Paulo e no Rio de Janeiro, de mais um filme que trata dessa tragédia pelo viés cômico. Em Trem da Vida (Train de Vie, França/Bélgica/Holanda, 1998), os moradores de um shtetl, como eram chamados os vilarejos judeus que se espalhavam pela Europa Oriental, são informados de que os nazistas já ocuparam o povoado vizinho. Entram em polvorosa: como escapar dos campos de concentração? Decidem comprar um trem e forjar sua própria deportação. Com metade da aldeia metida nos vagões de carga e a outra metade vestida de militares alemães, eles deixarão a Romênia natal. Seguem-se aquelas cenas típicas das comédias de costumes. O contador tem uma crise de úlcera cada vez que alguém lhe pede dinheiro. O pupilo do rabino adere ao comunismo e incita os jovens à rebelião. O homem mais rico do shtetl é obrigado a se fingir de comandante nazista e se magoa com as acusações de que está bem demais no papel.

Onde foi exibido, Trem da Vida fez sucesso. Em 1998, por exemplo, ganhou os prêmios de crítica e público da Mostra de Cinema de São Paulo. O que torna a fita do diretor romeno Radu Mihaileanu tão cativante é o seu tom de fantasia exacerbado. Pode-se argumentar, também, que esse é o seu pior defeito do ponto de vista histórico. Não há dúvida de que o diretor quis fazer uma homenagem aos seus antepassados. Só que, para tanto, foi preciso atenuar o terror que resultou na morte de milhões de pessoas. Assim, da mesma forma que acontece em A Vida É Bela, o espectador é levado a perder de vista que, em toda a trajetória humana, o holocausto é incontestavelmente o ponto mais baixo, a negação absoluta da civilização. Pela primeira vez, montou-se um aparato industrial para levar a cabo o extermínio de toda uma raça. Mais: o genocídio foi primeiro meticulosamente preparado no terreno ideológico. Antes que se construíssem os campos de concentração, cuidou-se de convencer os alemães de que o mundo era dividido em raças e sub-raças, e de que estas deveriam ser abatidas como se fossem gado doente. O mais inacreditável é que tudo isso tenha acontecido não na obscurantista Idade Média, e sim em pleno século XX, na pátria de Goethe e Beethoven. À medida que mais e mais gerações vão nascendo longe da sombra da II Guerra Mundial, preservar a exata dimensão do genocídio promovido por Adolf Hitler é vital. Num mundo que continua a ser atormentado por guerras étnicas, e no qual racistas fóbicos como o austríaco Joerg Haider se tornam políticos populares e topetudos, essa memória sem atenuantes é a mais decisiva das salvaguardas.

Memória curta – Não que seja impossível tocar no tema com delicadeza. Um bom exemplo é o filme Jakob the Liar, estrelado por Robin Williams, que deve sair diretamente em vídeo no Brasil em junho. Baseado no romance do polonês Jurek Becker (que está sendo relançado aqui como Jakob, o Mentiroso), ele conta a história de um judeu que ouve certo dia, por acaso, que os russos já estão próximos e logo derrotarão os alemães. A novidade se espalha e todos passam a acreditar que ele tem um rádio – artigo proibidíssimo no gueto. O humor da narrativa, adstringente, é privilégio dos personagens. O tom da fita é sóbrio e nunca minimiza os dramas que a compõem. Coisa bem diferente é a fantasia. E imaginar que um pai possa salvar seu filho do extermínio simulando uma gincana, como em A Vida É Bela, ou que toda uma aldeia possa driblar os comandos nazistas, como em O Trem da Vida, não passa de fantasia sem nenhum fundamento. "Me preocupa o fato de que A Vida É Bela possa ser o primeiro filme que alguém vê sobre o tema", diz o americano Michael Berenbaum, ex-diretor do Museu do Holocausto em Washington. O rabino David Azulay, da associação Beit Chabad de São Paulo, é ainda mais direto. "Não vi essas fitas nem pretendo. Tento viver dentro da realidade."

Apesar de suas boas intenções, os filmes que retratam os seguidores de Hitler como bufões podem inadvertidamente dar argumentos aos que desejam reescrever a História e negar as atrocidades cometidas sob a sombra da suástica. A relativização do holocausto é vista pelos neonazistas como um ponto importante para a sua legitimação política. Que Hitler continue a ser fonte de inspiração é prova de que a memória da humanidade é mesmo muito curta. Ao fim da II Guerra, horrorizado com os relatos dos sobreviventes dos campos de concentração, o filósofo alemão Theodor W. Adorno chegou a escrever que a poesia se tornara impossível depois de Auschwitz. Não deixa de ser alarmante, portanto, que o cinema comece a acreditar que comédias sobre o assunto sejam perfeitamente viáveis.