E o holocausto fica light
Cineastas andam em campo
minado ao combinar
no mesmo filme genocídio e comédia
Isabela Boscov
É legítimo fazer uma
comédia sobre a barbárie do holocausto? Essa
questão, que veio à tona quando o italiano
Roberto Benigni lançou A Vida É Bela,
volta à baila com a estréia, em São
Paulo e no Rio de Janeiro, de mais um filme que trata dessa
tragédia pelo viés cômico. Em Trem
da Vida (Train de Vie, França/Bélgica/Holanda,
1998), os moradores de um shtetl, como eram chamados
os vilarejos judeus que se espalhavam pela Europa Oriental,
são informados de que os nazistas já ocuparam
o povoado vizinho. Entram em polvorosa: como escapar dos
campos de concentração? Decidem comprar um
trem e forjar sua própria deportação.
Com metade da aldeia metida nos vagões de carga e
a outra metade vestida de militares alemães, eles
deixarão a Romênia natal. Seguem-se aquelas
cenas típicas das comédias de costumes. O
contador tem uma crise de úlcera cada vez que alguém
lhe pede dinheiro. O pupilo do rabino adere ao comunismo
e incita os jovens à rebelião. O homem mais
rico do shtetl é obrigado a se fingir de comandante
nazista e se magoa com as acusações de que
está bem demais no papel.
Onde foi exibido, Trem
da Vida fez sucesso. Em 1998, por exemplo, ganhou os
prêmios de crítica e público da Mostra
de Cinema de São Paulo. O que torna a fita do diretor
romeno Radu Mihaileanu tão cativante é o seu
tom de fantasia exacerbado. Pode-se argumentar, também,
que esse é o seu pior defeito do ponto de vista histórico.
Não há dúvida de que o diretor quis
fazer uma homenagem aos seus antepassados. Só que,
para tanto, foi preciso atenuar o terror que resultou na
morte de milhões de pessoas. Assim, da mesma forma
que acontece em A Vida É Bela, o espectador
é levado a perder de vista que, em toda a trajetória
humana, o holocausto é incontestavelmente o ponto
mais baixo, a negação absoluta da civilização.
Pela primeira vez, montou-se um aparato industrial para
levar a cabo o extermínio de toda uma raça.
Mais: o genocídio foi primeiro meticulosamente preparado
no terreno ideológico. Antes que se construíssem
os campos de concentração, cuidou-se de convencer
os alemães de que o mundo era dividido em raças
e sub-raças, e de que estas deveriam ser abatidas
como se fossem gado doente. O mais inacreditável
é que tudo isso tenha acontecido não na obscurantista
Idade Média, e sim em pleno século XX, na
pátria de Goethe e Beethoven. À medida que
mais e mais gerações vão nascendo longe
da sombra da II Guerra Mundial, preservar a exata dimensão
do genocídio promovido por Adolf Hitler é
vital. Num mundo que continua a ser atormentado por guerras
étnicas, e no qual racistas fóbicos como o
austríaco Joerg Haider se tornam políticos
populares e topetudos, essa memória sem atenuantes
é a mais decisiva das salvaguardas.
Memória curta
Não que seja impossível tocar no
tema com delicadeza. Um bom exemplo é o filme Jakob
the Liar, estrelado por Robin Williams, que deve sair
diretamente em vídeo no Brasil em junho. Baseado
no romance do polonês Jurek Becker (que está
sendo relançado aqui como Jakob, o Mentiroso),
ele conta a história de um judeu que ouve certo dia,
por acaso, que os russos já estão próximos
e logo derrotarão os alemães. A novidade se
espalha e todos passam a acreditar que ele tem um rádio
artigo proibidíssimo no gueto. O humor da
narrativa, adstringente, é privilégio dos
personagens. O tom da fita é sóbrio e nunca
minimiza os dramas que a compõem. Coisa bem diferente
é a fantasia. E imaginar que um pai possa salvar
seu filho do extermínio simulando uma gincana, como
em A Vida É Bela, ou que toda uma aldeia possa
driblar os comandos nazistas, como em O Trem da Vida,
não passa de fantasia sem nenhum fundamento.
"Me preocupa o fato de que A Vida É Bela possa
ser o primeiro filme que alguém vê sobre o
tema", diz o americano Michael Berenbaum, ex-diretor do
Museu do Holocausto em Washington. O rabino David Azulay,
da associação Beit Chabad de São Paulo,
é ainda mais direto. "Não vi essas fitas nem
pretendo. Tento viver dentro da realidade."
Apesar de suas boas
intenções, os filmes que retratam os seguidores
de Hitler como bufões podem inadvertidamente dar
argumentos aos que desejam reescrever a História
e negar as atrocidades cometidas sob a sombra da suástica.
A relativização do holocausto é vista
pelos neonazistas como um ponto importante para a sua legitimação
política. Que Hitler continue a ser fonte de inspiração
é prova de que a memória da humanidade é
mesmo muito curta. Ao fim da II Guerra, horrorizado com
os relatos dos sobreviventes dos campos de concentração,
o filósofo alemão Theodor W. Adorno chegou
a escrever que a poesia se tornara impossível depois
de Auschwitz. Não deixa de ser alarmante, portanto,
que o cinema comece a acreditar que comédias sobre
o assunto sejam perfeitamente viáveis.