Edição 1 643 -5/4/2000

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O príncipe do liberalismo

Ele é John Rawls, o americano que reviveu a filosofia política e acredita na ação do Estado

Carlos Graieb

Diga rápido o nome de três filósofos políticos nascidos no século XX. Engasgou? Não há motivos para se envergonhar. Os últimos 100 anos foram mesmo duros para essa disciplina. Na década de 60, chegaram inclusive a declarar sua morte. E já estavam até encomendando a missa de sétimo dia quando a surpresa aconteceu. Em 1971, John Rawls, um professor americano da Universidade Harvard, entregou a seus editores um livro chamado Uma Teoria da Justiça. Veio a publicação e, como num passe de mágica, a filosofia política ganhou novo alento. Não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo, leitores passaram a incluir a obra no rol dos grandes clássicos do pensamento ocidental. "Se as bases de nossa civilização iam de Platão a Freud, hoje elas vão de Platão a Rawls", chegou a dizer um resenhista inflamado. Desde então, pelo menos 5.000 livros vieram à luz criticando ou defendendo Rawls — um rio de tinta e papel que corre da China aos Estados Unidos. O Brasil não ficou de fora. "No final dos anos 70, quando começamos a procurar argumentos para criticar o regime autoritário, Rawls desempenhou um papel interessante", lembra o ex-ministro do Desenvolvimento Celso Lafer. E ele não foi o único. O próprio presidente Fernando Henrique Cardoso é um leitor de Rawls. "Ele fala de perto à nossa época, questionando com fundamentação filosófica a injustiça das desigualdades sociais."


Para quem ficou curioso, é bom avisar que a obra de Rawls tem um lado encorajador. Ela é curta. Em trinta anos de atividade, ele só lançou três livros: Uma Teoria da Justiça, The Law of Peoples (O Direito dos Povos) e O Liberalismo Político, que acaba de ser publicado pelo Instituto Teotônio Vilela (tradução de Dinah de Abreu Azevedo; Instituto Teotônio Vilela; 430 páginas; 26 reais). De uma obra para a outra, Rawls simplesmente revisa e aprofunda uma mesma série de argumentos. Ele é aquele tipo de intelectual que o ensaísta Isaiah Berlin certa vez chamou de "ouriço": um fazedor de sistemas, que persegue uma única idéia do começo ao fim da vida. Infelizmente, também existe um lado desencorajador em Rawls. Ele é difícil de doer. Seu texto é sério, intricado, abstrato. Não dá trégua ao leitor. Mas o que diz o homem, afinal de contas?

Talvez se possa afirmar que a principal façanha de Rawls foi conciliar duas vertentes do liberalismo político, uma tradicionalmente preocupada com a questão das liberdades individuais e outra que enfatiza a redistribuição das riquezas na sociedade. Mas, ao dizer que Rawls é um liberal, é importante fazer algumas distinções. Primeiro, lembrar que essa palavra tem sentido inverso no Brasil e nos Estados Unidos. Aqui, os liberais ficam à direita no espectro político; lá, eles estão à esquerda. Além disso, no Brasil de hoje em dia toda vez que a palavra liberalismo é mencionada ela traz à mente problemas da economia. Privatizar ou não privatizar? Abrir ou não o país ao capital estrangeiro? E por aí vai. Na verdade, esse é um mau hábito. Pois longe de ser apenas uma doutrina associada à idéia de que o mercado pode tudo, o liberalismo é também uma escola de longa e honrada história (veja quadro). Já no século XVII, os intelectuais que se identificaram com essa corrente defendiam antes de mais nada os indivíduos contra o poder do Estado. Procuraram garantir direitos básicos como o de ir e vir e a liberdade de expressão. Em seus livros, Rawls leva em conta essa tradição. Sua grande originalidade está no fato de ir além.

 

"Ilustre desconhecido" — Rawls acredita que, numa sociedade democrática, o Estado não só pode como deve promover a justiça social. Ele deve agir. Em outras palavras, Rawls quase poderia ser rotulado como um social-democrata. A questão é que, do ponto de vista teórico, a social-democracia sempre foi uma colcha de retalhos. E, para Rawls, o rigor na argumentação filosófica é tudo. Por isso ele se mantém fiel a uma linhagem de pensadores liberais — sobretudo o alemão Emmanuel Kant, seu verdadeiro herói — e parte destes para elaborar sua teoria da justiça. Depois de uma complexa (muuuuito complexa) argumentação, Rawls identifica dois princípios fundamentais para a existência de uma sociedade "bem ordenada": o princípio de que cada indivíduo deve ter direito ao maior número possível de liberdades, desde que compatíveis com a liberdade de seu vizinho. E o de que as desigualdades econômicas e sociais só serão toleradas se, em algum momento, puderem ser revertidas em benefício dos menos favorecidos. Exemplo: o imposto sobre herança e riqueza.

Embora tenha suscitado todo tipo de discussão "técnica" em torno de suas idéias, Rawls viu-se atacado de maneira mais brusca por autores que simplesmente consideram abstrata demais a sua construção teórica. Ele é mesmo um prato cheio para esse tipo de crítica, já que corresponde em tudo à imagem popular dos pensadores ensimesmados e afastados do mundo "real". Aliás, a expressão "ilustre desconhecido" vem muito a calhar para ele, que está para a filosofia americana assim como o romancista J.D. Salinger está para a literatura. Ou seja, é uma espécie de recluso, que não dá entrevistas nem faz aparições públicas fora de seus cursos universitários. De todos os textos que escreveu, apenas um foi dedicado a um assunto político concreto: um ensaio de 1995, que fala da II Guerra e de Hiroshima (Rawls desembarcou no Japão como soldado pouco depois do lançamento da bomba atômica). Todo o restante de sua obra é devotado ao pensamento puro. Mas há quem não se incomode com isso. "A referência aos valores é indispensável na prática política e os princípios de justiça de Rawls apresentam essa idéia de forma particularmente eloqüente. Sem os valores, a política se transformaria em técnica, em mera reprodução do que já existe." Quem diz é o presidente FHC, um intelectual que tenta a todo custo fazer a transição para o mundo da ação.