Aviação
Tudo combinado
Relatório do governo
aponta que as empresas aéreas reajustaram seus preços
como se fossem um cartel
Daniela Pinheiro
O Ministério da Justiça tem em mãos
um relatório que deixa as quatro maiores companhias
aéreas brasileiras na desagradável situação
de ter de dar explicações aos passageiros.
Diz esse relatório que Varig, Vasp, Transbrasil e
TAM combinaram aumentar seus preços duas vezes no
ano passado. A primeira, em janeiro, ocorreu sob a forma
de uma redução nos descontos das passagens,
que estavam na faixa dos 60% e foram todos para 30%. Sobre
essa redução de desconto, que na prática
é aumento do valor da passagem, o ministério
tem apenas suspeita. É no último reajuste,
ocorrido em 9 de agosto, que se concentra a contundente
acusação. A coincidência foi assombrosa.
As quatro empresas deram exatos 10% de aumento em suas tarifas
na mesma data. Seis dias antes, os presidentes das quatro
empresas, Fernando Pinto (Varig), Rolim Amaro (TAM), Wagner
Canhedo (Vasp), Paulo Henrique Coco e Antônio Celso
Cipriani (Transbrasil), haviam se reunido em São
Paulo durante três horas. Na época, foi dito
que o assunto tinha sido uma eventual fusão das companhias.
A verdade é que ninguém sabe de fato o que
foi conversado ali, mas a ocasião é um indicador
firme de que houve acerto de valores, na avaliação
da Secretaria de Direito Econômico (SDE), órgão
do Ministério da Justiça encarregado do caso.
"Imaginar que é coincidência que quatro empresas
distintas aumentem seus preços no exato valor e no
mesmíssimo dia seria como acreditar em Papai Noel",
diz Caio Mário Pereira Neto, da SDE.
Ilustração:
Alex Akermann e foto: Lula Marques / Folha Imagem

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Pinto (Varig),
Coco e Cipriani (Transbrasil), Rolim (TAM)
e Canhedo (Vasp): reunião às vésperas
do aumento
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As companhias aéreas haviam sido chamadas a dar
explicações sobre os aumentos e cada uma delas
levou sua lista de motivos uns diferentes dos outros.
Curiosamente, razões diversas conduziram ao mesmo
aumento na mesma data. Coincidência? Aos argumentos:
A Varig disse que o reajuste foi decidido com base em um
estudo preparado pela empresa que ficou pronto uma semana
antes do aumento. A data de 9 de agosto foi simples acaso.
A TAM afirmou ter decidido aumentar o valor das passagens
no dia 7 de agosto, mas como era um final de semana, preferiu
começar a aplicar a nova tarifa na segunda-feira,
dia 9. Outra coincidência!
Para a Transbrasil, o aumento de 10% se deu por estratégia
de marketing. Os executivos, aleatoriamente, escolheram
uma data. Adivinhe? 9 de agosto!
A Vasp sustenta que o aumento se deu devido à desvalorização
cambial ocorrida no início do ano. Por que 9 de agosto?
Vai saber.
O crime não é aumentar as tarifas, já
que as companhias oferecem preços abaixo do teto
estabelecido pelo governo. O problema é reajustar
as passagens no mesmo valor e no mesmo dia, o que caracteriza
um aumento abusivo de preços e formação
de cartel. "Esse é o crime número 1 da lei
da concorrência", diz Caio Mário, da SDE. Caracterizada
a infração, a multa às empresas pode
chegar a 30% do faturamento anual de cada uma. A SDE abriu
processo administrativo contra todas.
As empresas aéreas vivem uma crise sem precedentes.
Até a TAM, considerada uma empresa enxuta e sem dívidas,
fechou o ano no vermelho. Faltam passageiros, dinheiro para
novas aeronaves e pontos de escala nas rotas do país.
A carga tributária é altíssima. Enquanto
as companhias aéreas americanas pagam 7,5% de imposto
sobre suas operações e as européias
16%, as brasileiras desembolsam nada menos que 35%. O governo
taxa, as empresas não pagam e as dívidas crescem.
Juntas, as quatro devem 4 bilhões de reais. No primeiro
semestre de 1999, acumularam prejuízos de 452 milhões
de reais. O movimento de passageiros caiu 15% nas linhas
domésticas e 25% nas internacionais. Com números
tão pavorosos, as empresas podem ter entendido que
uma escorregadinha dessas poderia ser tolerada pelos passageiros
e pelos órgãos de fiscalização.
A Vasp canibalizava, sim
Sebastião Moreira
/ Ag. Estado
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Avião da
Vasp no aeroporto,
ou o que restou dele: até os
assentos desapareceram
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Mais uma nuvem negra no céu da Vasp. Um relatório
anexado ao processo aberto contra a empresa pela americana
Tombo Aviation Incorporation confirmou uma velha suspeita:
a Vasp canibalizou os dois aviões MD-11 estacionados
no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, há
quase um ano. Uma vistoria feita por oficiais de Justiça
apontou que faltavam mais de 300 itens nos jatos arrendados
da Tombo. Entre eles, os motores, as turbinas e os computadores
de vôo. Um deles estava absolutamente depenado. Na
cabine dos passageiros não havia sequer um assento.
Apesar de o processo conter fotos e detalhar as peças
que sumiram, a Vasp continua a dizer que nunca retirou peças
dos aviões. De acordo com a empresa, os MD-11 foram
devolvidos no início de fevereiro. Intactos.