Edição 1 643 -5/4/2000

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Uma carga mais leve

Sem acidentes de percurso, o Brasil pode
chegar ao fim do ano com juros que não
asfixiem a economia

Nilson Vargas

 
Ana Araujo
Fraga: cautela na derrubada
dos juros

Na terça-feira passada, depois de seis meses de paralisia, a taxa básica de juros estabelecida pelo Banco Central foi reduzida de 19% para 18,5%. Não é uma queda fenomenal, mas enseja interpretações animadoras. Na opinião de muitos economistas, no decorrer deste e do próximo ano o Brasil tem chance de saltar do Terceiro para o Segundo Mundo da política de juros. A previsão é de que, em dezembro, os juros nominais estarão entre 15% e 17%. Isso significa que, descontada a inflação projetada para o período, o Brasil terá juros anuais reais em torno de 10%. Ainda é um valor alto em relação ao que prevalece nas economias mais avançadas, mas são juros que não podem mais ser vistos como um formidável entrave ao crescimento econômico. "Podemos estar iniciando um ciclo virtuoso de recuperação, algo que não se vê desde o início dos anos 70", diz Luís Fernando Lopes, economista-chefe do banco Chase em São Paulo.

Juros elevados tendem a ser vistos como um gol contra que o governo marca. Eles retraem o consumo e inflam as dívidas de pessoas, empresas e do próprio governo. Também inviabilizam projetos que podem gerar empregos e travam o avanço econômico do país. Se é assim, por que então, de uma só canetada, o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, não baixa drasticamente as taxas? Chegar à resposta dessa questão requer uma viagem por vários aspectos da economia brasileira e mundial contidos num documento, escrito em inglês, que o Banco Central divulgou cerca de três semanas atrás. Ele revela os ingredientes usados na fórmula que define a taxa de juros. Em dezenove páginas cheias de palavras difíceis, fórmulas, citações e esquemas,
o BC explica um mecanismo muito familiar aos economistas, mas impenetrável para a maioria das pessoas. Nele se estabelece o que o bom senso dita no trato com as contas públicas: países como o Brasil, sem poupança interna, não podem criar um ambiente doméstico desfavorável, que afugente os investimentos.

"Ainda estamos digerindo o documento do Banco Central", diz Ricardo Amorim, economista do BankBoston em São Paulo. Não é fácil, mas é possível simplificar a equação. O Banco Central leva em conta três fatores para balizar os juros. O primeiro é a expectativa de inflação para este ano. No caso atual, vale a meta fixada no acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) de 6%. O segundo fator é a taxa de juros americana, que está em 6% ao ano desde 21 de março. Finalmente, deve-se somar ao conjunto a taxa de risco Brasil. Hoje, os investidores acham que só vale a pena investir no país se houver uma garantia mínima de retorno de 6,5%. É uma espécie de prêmio que se paga para atrair capital. Ponderando tudo isso, o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega chega a uma conclusão que deve irritar muita gente: a taxa básica de 18,5% é adequada para o momento. "Se baixar mais, os investidores estrangeiros não entram no país e os brasileiros levam seu dinheiro para fora", diz.

Avaliando fator por fator, é possível identificar onde há margem para novas quedas. A inflação brasileira dificilmente será menor do que os 6% previstos. Há quem arrisque o palpite numa taxa de até 7% e até o BC já admite 6,3%. Os juros americanos também não mostram sinais de arrefecimento. Ao contrário, tendem a avançar se a economia dos EUA continuar aquecida. Resta o famigerado risco Brasil. Aí sim, todos sabem, há muita gordura a ser queimada. E o maior teor de gordura está nas contas públicas. Ninguém agüenta mais ouvir esta ladainha, mas não há como fugir dela. Estados e municípios são perdulários históricos. Em ano de eleição, como o atual, teme-se que a gastança escape ao controle. A Previdência segue quebrada. A nova legislação não resolveu o problema da disparidade entre o que o sistema arrecada e o que tem de pagar de aposentadoria. A receita do governo cresceu, mas isso se deve, em boa parte, a impostos ruins como o Cofins e à CPMF. Reformas, com o perdão da má palavra, são vitais para que a queda dos juros seja mais profunda e duradoura. Deputados, senadores, sindicatos, associações de indústrias que diagnosticam a lentidão do crescimento econômico como o grande mal do Brasil contribuiriam para a solução do problema lutando pelas reformas.

Por ora, o Banco Central deverá continuar muito cuidadoso na derrubada dos juros, e o efeito desse movimento ainda vai demorar a chegar ao cotidiano dos brasileiros. Agarrados a argumentos como o perigo da inadimplência e o custo de captação do dinheiro que emprestam, os bancos seguem mantendo suas taxas em órbita. No ano passado, enquanto a inflação medida pelo IPCA ficou em 8,94% e a taxa básica do Banco Central manteve-se, na média, em 25,4%, o juro cobrado no cheque especial passava de 270%. Uma barbaridade que nem o risco Brasil justifica.