Uma carga mais leve
Sem acidentes de percurso, o Brasil pode
chegar ao fim do ano com juros que não
asfixiem a economia
Nilson Vargas
Ana Araujo
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Fraga: cautela na derrubada
dos juros |
Na terça-feira passada, depois de seis meses de
paralisia, a taxa básica de juros estabelecida pelo
Banco Central foi reduzida de 19% para 18,5%. Não
é uma queda fenomenal, mas enseja interpretações
animadoras. Na opinião de muitos economistas, no
decorrer deste e do próximo ano o Brasil tem chance
de saltar do Terceiro para o Segundo Mundo da política
de juros. A previsão é de que, em dezembro,
os juros nominais estarão entre 15% e 17%. Isso significa
que, descontada a inflação projetada para
o período, o Brasil terá juros anuais reais
em torno de 10%. Ainda é um valor alto em relação
ao que prevalece nas economias mais avançadas, mas
são juros que não podem mais ser vistos como
um formidável entrave ao crescimento econômico.
"Podemos estar iniciando um ciclo virtuoso de recuperação,
algo que não se vê desde o início dos
anos 70", diz Luís Fernando Lopes, economista-chefe
do banco Chase em São Paulo.
Juros elevados tendem a ser vistos como um gol contra
que o governo marca. Eles retraem o consumo e inflam as
dívidas de pessoas, empresas e do próprio
governo. Também inviabilizam projetos que podem gerar
empregos e travam o avanço econômico do país.
Se é assim, por que então, de uma só
canetada, o presidente do Banco Central, Armínio
Fraga, não baixa drasticamente as taxas? Chegar à
resposta dessa questão requer uma viagem por vários
aspectos da economia brasileira e mundial contidos num documento,
escrito em inglês, que o Banco Central divulgou cerca
de três semanas atrás. Ele revela os ingredientes
usados na fórmula que define a taxa de juros. Em
dezenove páginas cheias de palavras difíceis,
fórmulas, citações e esquemas,
o BC explica um mecanismo muito familiar aos economistas,
mas impenetrável para a maioria das pessoas. Nele
se estabelece o que o bom senso dita no trato com as contas
públicas: países como o Brasil, sem poupança
interna, não podem criar um ambiente doméstico
desfavorável, que afugente os investimentos.
"Ainda
estamos digerindo o documento do Banco Central", diz Ricardo
Amorim, economista do BankBoston em São Paulo. Não
é fácil, mas é possível simplificar
a equação. O Banco Central leva em conta três
fatores para balizar os juros. O primeiro é a expectativa
de inflação para este ano. No caso atual,
vale a meta fixada no acordo com o Fundo Monetário
Internacional (FMI) de 6%. O segundo fator é a taxa
de juros americana, que está em 6% ao ano desde 21
de março. Finalmente, deve-se somar ao conjunto a
taxa de risco Brasil. Hoje, os investidores acham que só
vale a pena investir no país se houver uma garantia
mínima de retorno de 6,5%. É uma espécie
de prêmio que se paga para atrair capital. Ponderando
tudo isso, o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega
chega a uma conclusão que deve irritar muita gente:
a taxa básica de 18,5% é adequada para o momento.
"Se baixar mais, os investidores estrangeiros não
entram no país e os brasileiros levam seu dinheiro
para fora", diz.
Avaliando fator por fator, é possível identificar
onde há margem para novas quedas. A inflação
brasileira dificilmente será menor do que os 6% previstos.
Há quem arrisque o palpite numa taxa de até
7% e até o BC já admite 6,3%. Os juros americanos
também não mostram sinais de arrefecimento.
Ao contrário, tendem a avançar se a economia
dos EUA continuar aquecida. Resta o famigerado risco Brasil.
Aí sim, todos sabem, há muita gordura a ser
queimada. E o maior teor de gordura está nas contas
públicas. Ninguém agüenta mais ouvir
esta ladainha, mas não há como fugir dela.
Estados e municípios são perdulários
históricos. Em ano de eleição, como
o atual, teme-se que a gastança escape ao controle.
A Previdência segue quebrada. A nova legislação
não resolveu o problema da disparidade entre o que
o sistema arrecada e o que tem de pagar de aposentadoria.
A receita do governo cresceu, mas isso se deve, em boa parte,
a impostos ruins como o Cofins e à CPMF. Reformas,
com o perdão da má palavra, são vitais
para que a queda dos juros seja mais profunda e duradoura.
Deputados, senadores, sindicatos, associações
de indústrias que diagnosticam a lentidão
do crescimento econômico como o grande mal do Brasil
contribuiriam para a solução do problema lutando
pelas reformas.
Por ora, o Banco Central deverá continuar muito
cuidadoso na derrubada dos juros, e o efeito desse movimento
ainda vai demorar a chegar ao cotidiano dos brasileiros.
Agarrados a argumentos como o perigo da inadimplência
e o custo de captação do dinheiro que emprestam,
os bancos seguem mantendo suas taxas em órbita. No
ano passado, enquanto a inflação medida pelo
IPCA ficou em 8,94% e a taxa básica do Banco Central
manteve-se, na média, em 25,4%, o juro cobrado no
cheque especial passava de 270%. Uma barbaridade que nem
o risco Brasil justifica.