Tempos modernos
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O expediente das 8 às 5, grande conquista
do sindicalismo, já era. Empurradas pela concorrência,
as pessoas estão trabalhando cada vez mais
Aida Veiga
Arquivo Nacional
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Getúlio Vargas:
seu governo instituiu a semana de trabalho de 48 horas,
o descanso semanal remunerado e o direito a férias
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Com o avanço da mecanização e da computação nas empresas,
somado às crescentes conquistas sindicais, imaginou-se,
em meados do século XX, que no fim dele as pessoas trabalhariam
cada vez menos e disporiam de um tempo maior para o lazer,
as artes, a natureza e a família. Sonho futurista, como
aquele segundo o qual os automóveis voariam. As pessoas
estão trabalhando cada vez mais, dispõem de menos tempo
para o lazer e ficaram mais estressadas. Isso acontece tanto
em países desenvolvidos, como Estados Unidos, Austrália
e Japão, como também ou melhor, mais ainda
em nações em desenvolvimento que aspiram ao primeiro escalão,
sobretudo Brasil, Chile e os chamados Tigres Asiáticos.
O último levantamento do Bureau of Labor Statistics, o órgão
do governo americano que coleta esse tipo de dado, mostra
que em janeiro de 2000 a média nacional de horas trabalhadas
nos Estados Unidos era de quarenta por semana, e no Vale
do Silício, a capital do ultra-industrioso ramo da informática,
ela bate em sessenta horas. No diligentíssimo Japão, trabalha-se,
em média, 39 horas semanais (aí computado, lembre-se, todo
tipo de trabalho, inclusive os de meio período ou menos).
O motor é o desemprego No Brasil, dados levantados
pela pesquisa mensal de emprego do Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que a média de
horas trabalhadas bateu nas 41 por semana no final dos anos
90, contra 39 do começo da década. Parece pouco, mas não
é. Duas horas por semana significam oito ou dez a mais por
mês, cerca de 100 horas por ano. Um salto enorme para um
prazo tão curto, que coloca o Brasil
em oitavo lugar em horas trabalhadas por ano no mundo,
segundo a Organização Internacional do Trabalho (atrás dos
Estados Unidos no cômputo anual, porque tem mais férias
e feriados). Outro levantamento nacional do IBGE revela
dados ainda mais impressionantes. Eles mostram que 71% da
população brasileira economicamente ativa trabalha mais
de quarenta horas por semana, sendo que para 39% a jornada
é de pelo menos 45 horas. Como é que um século chega à metade
celebrando como conquista a luta de sindicatos no mundo
inteiro para reduzir jornadas fatigantes e termina com boa
parte da população trabalhando cada vez mais?
A explicação dos especialistas, vejam só, é a diminuição
crescente do emprego confortável do passado, aquele que
durava por toda a vida útil e exigia pouco do funcionário.
Numa simplificação de um processo intrincado, a economia
globalizada da última década, principalmente, pôs contra
a parede empresas lotadas de mão-de-obra habituada ao padrão
oito-às-cinco. Lançadas numa competição feroz, adotaram
a prática do melhor resultado ao menor custo possível. Instauraram-se
o downsizing, a terceirização, a reengenharia processos
que levam à redução de pessoal. Quem ficou teve suas obrigações
aumentadas e passou a trabalhar muito mais, não só para
dar conta do recado como para não perder, ele também, a
vaga. Quem saiu procurou alternativas menos rentáveis e
mais cansativas, como ocorreu no Brasil na busca de brechas
no mercado informal. "Em particular, o processo de
enxugamento no país pôde ser visto com mais clareza no caso
das empresas que foram privatizadas", diz Sérgio Mendonça,
diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística
e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese). "As ex-estatais
deixaram de ser cabide de empregos e passaram a exigir muito
mais de um quadro de funcionários menor", afirma Mendonça.
Mais conforto, mais produção A taxa de desemprego
brasileira gira hoje em torno dos 8%, e a experiência de
viver numa economia que sobe e desce deixa todo mundo com
medo do futuro. Mas até nos Estados Unidos, onde a taxa
de desemprego está em parcos 4%, o motor que impulsiona
as longas jornadas é o mesmo. "Apesar de o índice de
desemprego estar baixo nos últimos três anos, o americano
morre de medo de ir para o olho da rua", explica Barry
Bluestone, professor de política econômica da Universidade
de Massachusetts e membro da equipe que assessora o todo-poderoso
Alan Greenspan, presidente do banco central americano. "Na
última década, mais de um quarto da população experimentou
pelo menos um ano de subemprego, trabalhando menos de 35
horas semanais. A inflação está baixa, os economistas riem
à toa, mas o americano não esquece o que passou e prefere
se esforçar e trabalhar muitas horas, para não ser dispensado."
Já se trabalhou muito mais, é fato. Na Inglaterra pós-Revolução
Industrial, o normal era o operário esfalfar-se no mínimo
sessenta horas por semana, sem descanso remunerado. No começo
do século XX, reduzir essa jornada tornou-se o objetivo
número 1 dos sindicatos. Em 1938, estabeleceu-se a jornada
de quarenta horas nos Estados Unidos. Em seguida, foi a
vez de a Inglaterra adotar o mesmo limite e batizá-lo, instituindo-se
a "semana inglesa". No Brasil de Getúlio Vargas,
os trabalhadores ganharam direito a férias, descanso semanal
remunerado e jornada de 48 horas. O forte movimento sindical
dos anos 80 conseguiu implantar na Constituição de 1988
o teto de 44 horas de trabalho por semana. Na época, ainda
se pensava que o futuro era trabalhar cada vez menos e ganhar
cada vez mais. Nada disso aconteceu. Os movimentos sindicais
perderam força, a produtividade ideal aumentou vertiginosamente
e a tecnologia, embora tenha de fato diminuído alguns afazeres,
aumentou outros.
Nellie
Solitrenick
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Joel Rocha
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Saída
de fábrica: na indústria de automóveis,
menos vagas
e mais automação (à direita) |
De tanto ocupar a maior fatia da vida de seus funcionários,
as empresas estão virando uma extensão de sua vida particular.
Dentro do escritório, ou em áreas adjacentes, é possível
aprender inglês, judô, artesanato e pintura, com patrocínio
da firma. Namora-se nas cafeterias da empresa. Almoça-se
na vizinhança para perder menos tempo. Há companhias que
já oferecem serviços como dar assistência na compra de ingressos
para o teatro. Agências bancárias internas são rotina nas
grandes firmas. Algumas têm salão de beleza e academia de
ginástica. Por mais surpreendente que pareça, já começam
a aparecer aquelas que reservam um lugar para a soneca dos
funcionários depois do almoço. O ânimo guerreiro dos velhos
sindicatos de dar cada vez menos tempo e exigir cada vez
mais salário da organização entrou em decadência vertiginosa.
As pessoas querem carreira, salário ascendente, benefícios.
Se for preciso trabalhar mais, por que não?
Em um bom número de países desenvolvidos as longas jornadas
não são toleradas. O aumento das horas trabalhadas, então,
nem pensar. É o que acontece nos países europeus de tradição
social-democrata. A França está tentando conter o desemprego
pela diminuição, por força de lei, da jornada de 39 para
35 horas semanais. Os franceses esperam criar novos postos
de trabalho com essa estratégia. Pelo visto, vão esperar
sentados. "É uma ilusão", comenta o sociólogo
Jean-Louis Laville, autor de Uma Terceira Via para o
Trabalho. "Apesar de estar vivendo uma fase de
crescimento econômico, a França não consegue criar empregos.
No lugar de impor regras, o governo deveria deixar o próprio
mercado absorver a mão-de-obra à medida que precisasse",
argumenta. A própria França já deveria ter aprendido que
essa tentativa não funciona. Em 1982, os franceses reduziram
a jornada de 42 para 39 horas semanais para combater o desemprego,
que batia em 8%. O índice saltou para 12%, um dos mais altos
da Europa. Na última década, enquanto na França só 3% dos
postos de trabalho podem ser considerados novos, em países
campeões de jornada, como os Estados Unidos e a Nova Zelândia,
o porcentual de empregos novos é de 13% e 21%, respectivamente.
Os alemães ainda tiram seis semanas de férias por ano,
além de inúmeros feriados e folgas no Natal e no Ano-Novo.
Em alguns países escandinavos, o dia útil termina na sexta-feira
na hora do almoço. Mas os especialistas acreditam que a
competição acirrada com americanos e asiáticos, principalmente,
e com a própria Europa Oriental (a República Checa está
em sexto lugar entre os países com jornadas mais longas)
vai no mínimo abalar a ordem das coisas nas fábricas e nos
escritórios europeus. "Os trabalhadores alemães e franceses
estão se esquecendo da velha equação de que tempo é dinheiro",
argumenta Richard Freeman, professor de economia na Universidade
Harvard. "Eles podem querer manter as noites e os finais
de semana livres. Mas, se quiserem manter também o emprego,
terão de ser mais produtivos, ou aceitar um contracheque
menor."
Salários mais baixos Já na Inglaterra, a
nação européia ocidental mais varrida pelos ventos liberalizantes
e globalizantes das últimas duas décadas, a coisa é diferente.
Lá, a jornada média é de quarenta horas e o número de horas
extras disparou: em 1988, pouco mais de 10% dos trabalhadores
ficavam além do expediente tradicional até as 5 da tarde.
Em 1998, eram quase metade do total os que ultrapassavam
o expediente burocrático. "O que leva a esse comportamento
é a falta de oportunidades de trabalho, em decorrência da
reformulação geral das empresas", explica Susan Harkness,
professora da London School of Economics (LSE). Segundo
seus estudos, cerca de 60% dos ingleses dizem que trabalham
mais do que deveriam porque não vêem chance de encontrar
outro emprego. "Muitos têm certeza de que seus chefes
os exploram porque sabem desse temor", conta Harkness.
Ronaldo Guimarães
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| A empresária Terezinha: interferência
em tudo, "da criação ao comercial",
e falta de tempo para um cafezinho com o marido, que
também trabalha na empresa |
O mesmo debate, que põe de um lado a turma do "menos
horas, mais postos de trabalho" e de outro a do "quando
mais se regula, menos emprego se cria", ocorre neste
momento no Brasil. Sindicatos de diversas categorias lutam
para reduzir a jornada legal de 44 para quarenta horas e,
dessa forma, intervir num sistema que, informalmente, predomina
nas indústrias brasileiras: o chamado banco de horas. Quando
o período é de vendas fracas, parte dos trabalhadores fica
em casa, e essas horas de descanso vão para um "cofrinho".
Quando a produção se acelera, todo mundo trabalha além da
jornada, sem ganhar a mais porque as horas extras são descontadas
da tal poupança. Resultado: evitam-se dispensas, mas também
não há contratações. "Com um crescimento econômico
anêmico, uma legislação trabalhista que não possibilita
negociações e pessoal mal qualificado, o empresário não
quer contratar gente nova", explica o economista José
Pastore, professor da Universidade de São Paulo (USP). "Mesmo
em recessão, quando precisa produzir mais, ele opta pela
hora extra. Daí o Brasil ter uma jornada longa sem, necessariamente,
estar vivenciando o crescimento econômico americano."
Outro setor que mantém longas jornadas, sem que isso reflita
pujança econômica, é o informal. "O taxista, o encanador,
aquele sujeito que trabalha por conta própria, todos devem
estar dedicando o dobro de tempo ao batente", analisa
José Paulo Chahad, também economista e professor da USP.
"Eles precisam ficar muito mais horas disponíveis,
à espera de um cliente, para manter o nível de renda de
antigamente. Se houvesse gente batendo à sua porta, eles
poderiam ter um horário fixo, ter a mesma renda e só trabalhariam
mais se quisessem um extra."
Não
é só o esforço para manter o emprego que faz com que brasileiros,
americanos e asiáticos trabalhem tanto. Salário, como se
sabe, conta muito. "Não é coincidência que dois campeões
da desigualdade de renda, Brasil e Estados Unidos, tenham
jornadas maiores", avalia o professor Bluestone. "Ganhar
pouco força as famílias de baixa renda, que representam
a maioria da população, a trabalhar mais, o que não acontece
na Europa, onde a distribuição de renda é mais igual. Quanto
maior a desigualdade, maior a jornada." De acordo com
dados do IBGE, o rendimento médio mensal do trabalhador
brasileiro era de 5,13 salários mínimos em 1991. Em 1999,
havia baixado para 4,67. "A grande maioria dos trabalhadores
brasileiros, que tem baixa qualificação, trabalha muito
porque ganha e produz pouco", analisa o economista
Marcio Pochmann, professor do Instituto de Economia da Universidade
Estadual de Campinas. "Outros trabalham muito porque
são qualificados e podem ganhar mais pelo tanto que produzem.
O resultado é que todo mundo encontra motivo para trabalhar
muito."
Na
ponta dos que são qualificados e ganham pelo resultado que
apresentam, os executivos têm destaque. Segundo pesquisa
feita pelo Grupo Catho, empresa de consultoria de São Paulo,
no Brasil a jornada média dessa categoria é de 54 horas
semanais (a americana é de cinqüenta horas), sem contar
o trabalho dos fins de semana e o que levam para casa todo
dia, depois do expediente. Entre esses profissionais, ganhar
muito dinheiro é motivação disseminada, mas não a única.
Também contam o desafio, o poder, o reconhecimento. Tanto
que não adianta apenas passar horas na frente do computador;
tem de saber usar bem o tempo de trabalho. "Antes,
a pessoa ficava no escritório o suficiente para impressionar,
já que os empregos eram quase vitalícios", comenta
Winston Pegler, da Ray & Berndtson Consultores Gerenciais.
"Hoje, o executivo trabalha muito porque sabe que,
se fizer mais, vai sobressair e novas oportunidades irão
aparecer." O padrão se repete inclusive em quem toca
negócio próprio. Marcos Zylberstajn, 69 anos, que fez a
vida como comerciante, sente orgulho do filho engenheiro,
Rogério, que, aos 39, é dono de uma construtora. Mas não
entende por que ele tem de ser tão ocupado. "Sempre
trabalhei muito, mas viajava com a família nas férias e,
nos finais de semana, o levava ao Maracanã", conta.
Rogério, por sua vez, encara jornadas diárias de doze a
catorze horas e nem família tem é solteiro, por falta
de tempo. "Minha vida pessoal se confunde com a profissional",
diz.
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| Os Zylberstajn: Marcos, comerciante
aposentado, espanta-se com o ritmo de trabalho de doze
a catorze horas por dia do filho, o empreiteiro Rogério |
Nessa nova cultura de trabalhar muito, ganhar muito e subir
muito na vida, o desejo de consumo é outro fator preponderante.
As pessoas estão trabalhando mais, também, para poder comprar
mais. Em 1991, a economista Juliet Schor, de Harvard, escreveu
um livro que se tornou uma espécie de bíblia do assunto.
Em The Overworked American: the Unexpected Decline of
Leisure (Americanos Trabalham Demais: o Inesperado Declínio
do Lazer), ela calculou que os americanos estavam trabalhando
163 horas a mais por ano do que em 1970. Intrigada com o
tamanho da importância do consumo na vida daqueles trabalhadores
superocupados, partiu para nova pesquisa, tentando esclarecer
os motivos de tanto compra-compra. O resultado é outro livro,
publicado em 1998, The Overspent American: Why We Want
what We Don't Need (Americanos Compram Demais: por que
Queremos o que Não Precisamos). Nele, Schor culpa a televisão,
principalmente, por impor valores e vender símbolos de status
que influenciam o americano a ser um povo que gosta de gastar,
não de poupar uma definição que cabe, sem tirar nem
pôr, nas fronteiras do Brasil que tem dinheiro para ir às
compras. Já o alucinado ritmo de trabalho dos chamados Tigres
Asiáticos, campeões imbatíveis em horas trabalhadas no levantamento
da Organização Internacional do Trabalho (OIT), tem explicação
diversa. "O sucesso econômico de países como Coréia
do Sul, Tailândia, Malásia e Cingapura é, em grande parte,
atribuído à atuação do Estado, que estimulou o desenvolvimento
e, ao mesmo tempo, manteve um sindicalismo fraco",
explica o cientista político Alexandre Uehara, pesquisador
visitante da Universidade de Sophia, em Tóquio. "Isso,
aliado à disciplina oriental, legitimou a autoridade e o
intervencionismo estatal e possibilitou a manutenção de
uma carga horária de trabalho muito extensa."
Escritório em qualquer lugar Seja lá qual
for o motivo, trabalha-se muito hoje em dia. Mais: trabalha-se
por princípio, por compulsão, porque "é assim e pronto".
A mineira Terezinha Santos, 43 anos, dona da grife Patachou,
passa doze horas por dia no escritório, bem mais que nos
duros tempos em que começava seu negócio. "Coloco o
dedo em tudo, da criação ao comercial, e me sinto realizada",
diz ela, que mal tem tempo de tomar um cafezinho com o marido,
Marcos, diretor financeiro da marca. Até os filhos, que,
a princípio, teriam todos os motivos para reclamar das longas
jornadas de trabalho dos pais, estão aderindo à nova atitude
e passando a encará-la como coisa normal. Uma pesquisa feita
pelo Families and Work Institute, de Nova York, com mais
de 1.000 crianças e adolescentes
americanos, mostra que apenas 10% gostariam de ficar mais
tempo com a mãe e 15% com o pai, só 20% acham que os pais
trabalham demais e 50% dizem que pai e mãe têm de trabalhar
muito mesmo, para bancar as despesas da família.
Antonio Milena
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| O diretor de marketing Marinho:
um escritório na mala, com fax, celular, notebook,
scanner e máquina fotográfica digital,
para permanecer conectado à empresa durante viagens
pelo país inteiro |
No entanto, 60% reclamam do fato de os pais chegarem estressados
em casa. Stress, muito mais que excesso de trabalho, é a grande
queixa de quem se dedica a longas jornadas. Na Inglaterra,
seis em dez trabalhadores apontam o stress, e não a falta
de tempo para a família ou para o lazer, como a pior conseqüência
de trabalhar muito. No Brasil, pesquisa feita pela consultoria
Deloitte Touche Tohmatsu mostra que 50% dos executivos brasileiros
têm a mesma reclamação. Em 1997, 60% dos americanos disseram
que nunca pareciam ter tempo suficiente para fazer tudo o
que era preciso no trabalho. Vinte anos antes, apenas 40%
tinham a mesma queixa. A bordo de seu notebook com acesso
à rede da empresa, Luiz Alberto Marinho, 40 anos, diretor
de marketing da Comapps, maior administradora de shopping
centers no país, aprova campanhas publicitárias e autoriza
novos projetos estando em um hotel em Manaus ou dentro de
um avião. Como passa metade do mês viajando, ele montou um
escritório móvel composto de notebook, celular, fax, máquina
fotográfica digital e scanner. "Minha jornada diária
chega facilmente a onze horas", constata.
Isso quer dizer que está todo mundo infeliz e descontente?
De jeito nenhum. Depois de um estudo de três anos com as
500 maiores empresas americanas, a socióloga Arlie Hochschild,
da Universidade de Berkeley, descobriu que, mesmo quando
a companhia oferece condições para seus funcionários irem
embora mais cedo, a maioria prefere ficar. Eles gostam da
camaradagem do escritório e do reconhecimento que lá recebem.
Mais ainda: preferem trabalhar no escritório a enfrentar
as obrigações domésticas. Nos Estados Unidos, o Viciados
em Trabalho Anônimos, grupo que segue o padrão dos Alcoólicos
Anônimos, registra o menor índice de freqüentadores nos
seus dezessete anos de existência. "Tem gente que gosta
tanto de trabalhar que sofre de ansiedade quando sai de
férias ou se aposenta", diz Wagner Gattaz, psiquiatra
da USP.