Edição 1 643 -5/4/2000

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Paraíso acessível

Vôos regionais facilitam acesso a lugares onde
só a viagem já era uma verdadeira aventura

Rachel Verano

Milton Shirata

O Brasil é um país onde não faltam paraísos intocados, com água cristalina, dunas, vegetação exuberante e cenários cinematográficos. O único problema é que a beleza desses lugares costuma ser proporcional à dificuldade de acesso e ao alojamento precário. Jericoacoara, no litoral cearense, sempre foi um exemplo clássico dessa situação: dunas e praias deslumbrantes cercadas por estradas em péssimo estado de conservação e pousadas para lá de rudimentares. Isso até o final do ano passado. De lá para cá, a pequena vila de pescadores passou a exibir entre seus atributos um aeroporto, instalado na vizinha Camocim, o que reduziu em seis horas o tempo de viagem desde a capital, Fortaleza, a 317 quilômetros de distância. Dez vôos semanais feitos em um pequeno bimotor Bandeirante despejam 150 turistas em Jericoacoara. Eles levam apenas cinqüenta minutos para chegar lá. E a conta sai por 290 reais, ida e volta. "Começamos com sete vôos, mas a procura foi tão grande que tivemos de aumentar em mais três", diz Murillo Carvalho, diretor da Correta Turismo, empresa que opera a linha FortalezaCamocim. "Já estamos pensando em substituir o Bandeirante por um avião maior, com o dobro da capacidade", comemora.

Barreirinhas, no Maranhão, é outro desses cafundós encravados em meio a paisagens deslumbrantes onde já se pode chegar de avião a partir da capital mais próxima. A cidade, de 30.000 habitantes, é o ponto de partida para a região dos Lençóis Maranhenses, um incrível conjunto de dunas brancas e lagoas verde-esmeralda que se estendem por uma área equivalente à da cidade de São Paulo a 272 quilômetros de São Luís. Desde janeiro, a TAM Viagens, uma divisão da companhia aérea, vende pacotes, em agências de todo o país, que incluem passagem de avião e três noites de hospedagem em Barreirinhas e duas na capital. O preço é alto: 1.700 reais por cabeça. Às empresas de turismo de São Luís, que também fretam aviões para a região, pagam-se 450 reais, com dois dias de hospedagem em pousada. Todos os vôos são feitos em monomotores fretados de empresas maranhenses de táxi aéreo e poupam o turista da pouco tentadora experiência de viajar por estradas repletas de buracos e lama a uma velocidade média de 30 quilômetros por hora. Além de ser longe e inacessível, a região dos Lençóis Maranhenses detém a peculiaridade de ter sua alta estação entre março e abril. Trata-se da época das chuvas, quando as lagoas ficam cheias entre as dunas. É o momento em que a terra vermelha das estradas, a piçarra, vira um lodaçal medonho. Nada melhor que o asfalto de um aeroporto recém-reformado para espantar essa assombração.

Felipe Golfman

Para atender aos turistas pouco acostumados a solavancos, poeira e buracos, até a infra-estrutura local começa a dar um jeito na improvisação turística. Em Barreirinhas, as antigas pensões com quartos coletivos ocupados por mochileiros já enfrentam a concorrência de pousadas com conforto mínimo da civilização como ar condicionado e banheiro contíguo ao quarto. Como luxo extra há até piscina na mais nova delas, a Pousada do Buriti, inaugurada em outubro. Como hóspedes preferenciais estão os turistas que chegam de avião. Em Jericoacoara, cidade que já conta com 800 leitos para turistas, a mesma agência que freta os aviões está inaugurando quatro pousadas, aumentando em mais 200 vagas a capacidade hoteleira da região. As quatro terão ar condicionado e telefone e uma delas terá piscina, um progresso num lugar que viu a luz elétrica chegar há menos de dois anos.

Os planos vão além. Carvalho pretende até maio estender o alcance de seus aviões também no sentido leste, para a cidade de Aracati, vizinha da vila de Canoa Quebrada. A 160 quilômetros de Fortaleza, essa praia, com suas falésias coloridas, não é tão remota assim. Foi reduto dos hippies nos anos 70 e tem até um resort da rede Best Western. "Com o avião queremos mostrar que vai longe o tempo em que apenas mochileiro se interessava em fazer ecoturismo", diz ele. O difícil vai ser controlar a chiadeira dos ecologistas de plantão contra o turismo de massa nessas áreas, mantidas intocadas por tanto tempo exatamente por serem longe de tudo.

 

Presente dos céus

Araquem Alcantara
Chapada Diamantina: o dobro
de turistas

Um dos maiores tesouros naturais brasileiros foi arrancado do isolamento há quase dois anos. A cidade de Lençóis, na Bahia, a 410 quilômetros de Salvador, ganhou o terceiro maior aeroporto do Estado. Foi uma obra que escancarou para o turismo de massa as portas da Chapada Diamantina. Pouco conhecida por causa do acesso difícil, a cidade virou outra. Ganhou dez novas pousadas, hotel de luxo e até um hospital. Os 70 000 turistas que a visitaram em 1998 viraram mais de 140 000 no ano passado. A cidade recebe hoje cinco vôos semanais, um deles realizado por um jato da TAM. O visitante também é outro. Os mochileiros e bichos-grilos cederam lugar a famílias inteiras que querem espairecer ou se aventurar entre os penhascos, desfiladeiros, cachoeiras e lagos subterrâneos da Chapada. Antes do aeroporto, cada turista deixava em média 25 dólares por dia na cidade. Hoje não deixa menos de 50 dólares. O tempo de permanência também aumentou: passou de três para oito dias. "A cidade mudou para melhor", comemora o secretário de Turismo de Lençóis, Heraldo Barbosa Filho. "Tivemos um desenvolvimento extraordinário e a Chapada continua linda como sempre foi."

 

 

Saiba mais
Da internet
  www.setur.ce.gov.br
  www.ma.gov.br
  www.bahiavirtual.com.br