Guerra cultural
Surgem os detalhes de como a CIA influiu
na produção artística para combater
o comunismo
Sérgio Ruiz Luz
No
tempo da Guerra Fria, os Estados Unidos e a União
Soviética não se enfrentavam apenas no terreno
bem definido da diplomacia e dos conflitos regionais
a batalha mais feroz era pela conquista de corações
e mentes. A máquina de propaganda soviética
fazia gato-sapato para cooptar intelectuais estrangeiros.
Os americanos, por sua vez, empenharam sua formidável
indústria de entretenimento na promoção
do, como se dizia então, mundo livre. O que só
agora se está sabendo é o papel proeminente
desempenhado pela CIA, o serviço secreto americano,
nessa guerra cultural. O mais completo e detalhado relato
desse jogo nas sombras pode ser lido num livro recém-lançado
nos Estados Unidos, The Cultural Cold War (A Guerra
Fria Cultural), da jornalista inglesa Frances Stonor Saunders.
O que ela conta, com base em entrevistas e documentos inéditos,
é que, entre as décadas de 40 e 60, a CIA
montou uma grande operação baseada num escritório
em Paris, batizado com o pomposo nome de "Congresso para
a Liberdade Cultural".
O programa promoveu exposições de arte,
publicou revistas e chegou até a indústria
de Hollywood, onde financiou vários filmes. Isso
deu aos espiões o poder de alterar roteiros, incluir
cenas ou cortá-las sempre que havia a necessidade
de ressaltar mensagens anticomunistas ou pró-americanas
na tela. Hollywood é um bom termômetro da confrontação
ideológica do período. Logo depois da morte
do escritor inglês George Orwell, em 1950, um agente
foi despachado para a Inglaterra para adquirir os direitos
do livro A Revolução dos Bichos, uma
fábula carregada de críticas ao sistema comunista.
A viúva de Orwell, Sonia, só impôs uma
condição para fechar o negócio: desejava
que lhe garantissem um encontro com seu ídolo, o
ator Clark Gable. O acordo foi cumprido, e a CIA financiou
um desenho animado em 1955 com a história. Os roteiristas
modificaram o final original, em que os porcos comunistas
e os fazendeiros capitalistas confraternizam numa festa.
Na versão que chegou às platéias, restaram
apenas os animais na cena. O cuidado foi tomado para que
não se atirassem no mesmo balaio a corrupção
comunista e a decadência capitalista.
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Novo
final
Na
crítica ao totalitarismo comunista escrita
por George Orwell, o protagonista desiste da rebelião
e se submete ao poder onipresente do "Grande Irmão".
Por influência da CIA, no filme de 1956, o personagem
e sua namorada morrem baleados, depois de gritar:
"Abaixo o Grande Irmão". A moral da história
é que se deve resistir à tirania.
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Em outra adaptação de uma obra de Orwell
às telas, o longa-metragem 1984, foram feitas
modificações parecidas. Na versão original,
o personagem principal se submete ao poder onipresente do
"Grande Irmão", uma representação da
tirania personalista do stalinismo. Já no filme lançado
em 1956, o protagonista e sua namorada morrem baleados,
depois de protestar contra o regime. A mensagem era que
se deve resistir às ditaduras. Os homens da agência
de espionagem não controlavam, evidentemente, toda
a produção cinematográfica americana
da época. Mas fizeram um bom trabalho de lobby para
conseguir mudanças em outros filmes, sempre com o
objetivo de lapidar a imagem dos Estados Unidos. Dessa forma,
cenas de maus-tratos aos índios apaches foram suprimidas
do faroeste O Último Guerreiro, de 1953, estrelado
por Charlton Heston e Jack Palance. O racismo nos Estados
Unidos, explorado pela propaganda soviética, mereceu
atenção especial. Para contrabalançar
a publicidade negativa, os agentes sugeriram aos roteiristas
a introdução de figurantes negros bem vestidos
em cenas de multidão. O filme Sofrendo da Bola,
de 1953, estrelado pela dupla de comediantes Jerry Lewis
e Dean Martin, foi um dos que acataram essa sugestão.
Fora das telas ocorreram esforços na mesma direção.
Um deles envolveu o financiamento na década de 50
de uma turnê internacional do musical Porgy e Bess,
uma exaltação à cultura negra.
MoMa
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A
disputa dos pincéis
A
CIA financiou exposições na Europa de
Jackson Pollock e outros artistas do expressionismo
abstrato para simbolizar, com seus borrões
e cores fortes, a liberdade criativa em contraposição
à arte engajada comunista. Na URSS, o único
estilo permitido era o realismo socialista, que fazia
apologia do regime e seus líderes.
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A guerra fria cultural chegou ao campo dos pincéis
quando a CIA começou a financiar as obras dos pintores
americanos que se dedicavam ao expressionismo abstrato.
Entre 1953 e 1954, a agência organizou e financiou
uma memorável exposição desse estilo
no Museu de Arte Moderna, em Paris. Foi a primeira exibição
significativa de arte americana na Europa. Nesse caso, o
objetivo era oferecer a obra modernista como uma antítese
ao realismo soviético, que colocava o artista numa
camisa-de-força ideológica e o limitava à
apologia do proletariado. Os borrões de cores fortes
dos expressionistas simbolizariam a liberdade em oposição
à arte engajada dos soviéticos.
Naquele período, a União Soviética
ainda exercia grande influência nos meios intelectuais
de todo o mundo, inclusive americanos. Não faltavam
ao Kremlin recursos para financiar artistas estrangeiros,
patrocinar viagens e conferências, oferecer cursos
em universidades e garantir divulgação e tradução
de obras nos países satélites. Se não
bastasse esse desafio, a CIA tinha de agir na clandestinidade
para o tiro não sair pela culatra. Não pegaria
bem deixar o mundo saber que um serviço de espionagem
atuava como o grande mecenas da produção artística
americana. Qualquer oportunidade era aproveitada como peça
de propaganda. Depois de ser considerados "decadência
burguesa" pela estética stalinista, Igor Stravinsky
e outros celebrados compositores russos passaram a encabeçar
a lista de homenageados em festivais de música financiados
pela CIA. Num dos maiores eventos, o Festival do Século
XX, ocorrido em 1952, em Paris, Stravinsky assistiu como
convidado de honra à Orquestra Sinfônica de
Boston executar uma de suas obras-primas, A Sagração
da Primavera. Ao mesmo tempo que ajudou a tirar do ostracismo
nomes importantes da vida cultural, a espionagem americana
não mediu esforços para atrapalhar a carreira
de artistas identificados com o outro lado. Em 1963, ao
saber que o chileno Pablo Neruda concorria ao Nobel de Literatura
do ano seguinte, a agência de espionagem distribuiu
entre os membros da Academia Sueca um dossiê sobre
a militância comunista do poeta. A emenda saiu pior
que o soneto. Quem venceu foi o filósofo francês
Jean-Paul Sartre, um militante pró-soviético.
Ele se deu ao luxo de recusar o prêmio. E Neruda,
em 1971, foi agraciado com o Nobel.