Edição 1 643 -5/4/2000

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Guerra cultural

Surgem os detalhes de como a CIA influiu
na produção artística para combater o comunismo

Sérgio Ruiz Luz

No tempo da Guerra Fria, os Estados Unidos e a União Soviética não se enfrentavam apenas no terreno bem definido da diplomacia e dos conflitos regionais – a batalha mais feroz era pela conquista de corações e mentes. A máquina de propaganda soviética fazia gato-sapato para cooptar intelectuais estrangeiros. Os americanos, por sua vez, empenharam sua formidável indústria de entretenimento na promoção do, como se dizia então, mundo livre. O que só agora se está sabendo é o papel proeminente desempenhado pela CIA, o serviço secreto americano, nessa guerra cultural. O mais completo e detalhado relato desse jogo nas sombras pode ser lido num livro recém-lançado nos Estados Unidos, The Cultural Cold War (A Guerra Fria Cultural), da jornalista inglesa Frances Stonor Saunders. O que ela conta, com base em entrevistas e documentos inéditos, é que, entre as décadas de 40 e 60, a CIA montou uma grande operação baseada num escritório em Paris, batizado com o pomposo nome de "Congresso para a Liberdade Cultural".

O programa promoveu exposições de arte, publicou revistas e chegou até a indústria de Hollywood, onde financiou vários filmes. Isso deu aos espiões o poder de alterar roteiros, incluir cenas ou cortá-las sempre que havia a necessidade de ressaltar mensagens anticomunistas ou pró-americanas na tela. Hollywood é um bom termômetro da confrontação ideológica do período. Logo depois da morte do escritor inglês George Orwell, em 1950, um agente foi despachado para a Inglaterra para adquirir os direitos do livro A Revolução dos Bichos, uma fábula carregada de críticas ao sistema comunista. A viúva de Orwell, Sonia, só impôs uma condição para fechar o negócio: desejava que lhe garantissem um encontro com seu ídolo, o ator Clark Gable. O acordo foi cumprido, e a CIA financiou um desenho animado em 1955 com a história. Os roteiristas modificaram o final original, em que os porcos comunistas e os fazendeiros capitalistas confraternizam numa festa. Na versão que chegou às platéias, restaram apenas os animais na cena. O cuidado foi tomado para que não se atirassem no mesmo balaio a corrupção comunista e a decadência capitalista.

 

Novo final
Na crítica ao totalitarismo comunista escrita por George Orwell, o protagonista desiste da rebelião e se submete ao poder onipresente do "Grande Irmão". Por influência da CIA, no filme de 1956, o personagem e sua namorada morrem baleados, depois de gritar: "Abaixo o Grande Irmão". A moral da história é que se deve resistir à tirania.

Em outra adaptação de uma obra de Orwell às telas, o longa-metragem 1984, foram feitas modificações parecidas. Na versão original, o personagem principal se submete ao poder onipresente do "Grande Irmão", uma representação da tirania personalista do stalinismo. Já no filme lançado em 1956, o protagonista e sua namorada morrem baleados, depois de protestar contra o regime. A mensagem era que se deve resistir às ditaduras. Os homens da agência de espionagem não controlavam, evidentemente, toda a produção cinematográfica americana da época. Mas fizeram um bom trabalho de lobby para conseguir mudanças em outros filmes, sempre com o objetivo de lapidar a imagem dos Estados Unidos. Dessa forma, cenas de maus-tratos aos índios apaches foram suprimidas do faroeste O Último Guerreiro, de 1953, estrelado por Charlton Heston e Jack Palance. O racismo nos Estados Unidos, explorado pela propaganda soviética, mereceu atenção especial. Para contrabalançar a publicidade negativa, os agentes sugeriram aos roteiristas a introdução de figurantes negros bem vestidos em cenas de multidão. O filme Sofrendo da Bola, de 1953, estrelado pela dupla de comediantes Jerry Lewis e Dean Martin, foi um dos que acataram essa sugestão. Fora das telas ocorreram esforços na mesma direção. Um deles envolveu o financiamento na década de 50 de uma turnê internacional do musical Porgy e Bess, uma exaltação à cultura negra.

 
MoMa

A disputa dos pincéis
A CIA financiou exposições na Europa de Jackson Pollock e outros artistas do expressionismo abstrato para simbolizar, com seus borrões e cores fortes, a liberdade criativa em contraposição à arte engajada comunista. Na URSS, o único estilo permitido era o realismo socialista, que fazia apologia do regime e seus líderes.

A guerra fria cultural chegou ao campo dos pincéis quando a CIA começou a financiar as obras dos pintores americanos que se dedicavam ao expressionismo abstrato. Entre 1953 e 1954, a agência organizou e financiou uma memorável exposição desse estilo no Museu de Arte Moderna, em Paris. Foi a primeira exibição significativa de arte americana na Europa. Nesse caso, o objetivo era oferecer a obra modernista como uma antítese ao realismo soviético, que colocava o artista numa camisa-de-força ideológica e o limitava à apologia do proletariado. Os borrões de cores fortes dos expressionistas simbolizariam a liberdade em oposição à arte engajada dos soviéticos.

Naquele período, a União Soviética ainda exercia grande influência nos meios intelectuais de todo o mundo, inclusive americanos. Não faltavam ao Kremlin recursos para financiar artistas estrangeiros, patrocinar viagens e conferências, oferecer cursos em universidades e garantir divulgação e tradução de obras nos países satélites. Se não bastasse esse desafio, a CIA tinha de agir na clandestinidade para o tiro não sair pela culatra. Não pegaria bem deixar o mundo saber que um serviço de espionagem atuava como o grande mecenas da produção artística americana. Qualquer oportunidade era aproveitada como peça de propaganda. Depois de ser considerados "decadência burguesa" pela estética stalinista, Igor Stravinsky e outros celebrados compositores russos passaram a encabeçar a lista de homenageados em festivais de música financiados pela CIA. Num dos maiores eventos, o Festival do Século XX, ocorrido em 1952, em Paris, Stravinsky assistiu como convidado de honra à Orquestra Sinfônica de Boston executar uma de suas obras-primas, A Sagração da Primavera. Ao mesmo tempo que ajudou a tirar do ostracismo nomes importantes da vida cultural, a espionagem americana não mediu esforços para atrapalhar a carreira de artistas identificados com o outro lado. Em 1963, ao saber que o chileno Pablo Neruda concorria ao Nobel de Literatura do ano seguinte, a agência de espionagem distribuiu entre os membros da Academia Sueca um dossiê sobre a militância comunista do poeta. A emenda saiu pior que o soneto. Quem venceu foi o filósofo francês Jean-Paul Sartre, um militante pró-soviético. Ele se deu ao luxo de recusar o prêmio. E Neruda, em 1971, foi agraciado com o Nobel.