Edição 1 643 -5/4/2000

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China

Vendem-se filhos

Controle de natalidade faz proliferar o seqüestro
e o comércio de meninos no país

A preferência por bebês do sexo masculino não é exclusividade de nenhuma cultura ou país, mas talvez em nenhum outro lugar ela tenha resultados tão macabros como na China. A opção pelo herdeiro, que chega à obsessão entre os chineses, traduz-se, num país que pune o casal que tenha mais de um filho, em dois acontecimentos igualmente bárbaros: primeiro, o infanticídio das meninas, sobretudo nas áreas rurais mais carentes e atrasadas; segundo, o tráfico de meninos, que são roubados, em geral, de famílias de migrantes pobres originárias do interior, onde a aplicação da política de controle de natalidade é menos restritiva. Cada criança seqüestrada é vendida a famílias abonadas pelo equivalente a alguns milhares de dólares, uma fortuna imensurável para os padrões dos chineses comuns. Na grande maioria das vezes, os receptores das crianças seqüestradas são casais que já tiveram outros filhos, sempre do sexo feminino, e preferem comprar um garoto a correr o risco de uma nova gravidez que possa originar outra menina.

A crescente desigualdade social resultante da abertura econômica na China tem feito prosperar o tráfico de meninos. Em algumas regiões, esse tipo de crime já deu origem a uma legião de pais desesperados atrás dos filhos desaparecidos. "Nunca vou desistir de procurar, porque perdi meu único filho", disse à revista americana US News &World Report Wang Wanjun, um feirante de 47 anos que teve o filho seqüestrado na cidade sulista de Guiyang há quase dois anos. O garoto, então com 5 anos, sumiu sem deixar vestígio no trajeto entre o local de trabalho do pai e a casa da família. Desde então, Wanjun divide-se entre o trabalho e a procura infrutífera. Todos os dias ele sai pela cidade carregando um saco plástico recheado de fotos do filho atrás de alguma pista.

Em um único mês, mais de quarenta crianças foram roubadas nos arredores de Guiyang, onde há uma grande concentração de comunidades de migrantes rurais. O governo tenta abafar o sentimento geral de que o problema está saindo de seu controle, anunciando o combate ao seqüestro de crianças como uma de suas prioridades máximas. Há um mês, a polícia anunciou o desmantelamento de uma grande quadrilha de tráfico de garotos em Guiyang. Foram presas 28 pessoas e confiscados seus bens, incluindo uma chácara luxuosa que pertencia ao líder do bando. A imagem dos 42 meninos resgatados na operação foi exposta à exaustão pela mídia oficial, gerando uma desenfreada corrida de famílias pela recuperação dos garotos. Mais de 1.000 casais apareceram na delegacia à procura de seus garotos perdidos. Foram tantos os falsos reconhecimentos de cada criança por vários casais diferentes que a polícia foi obrigada a fazer testes de DNA para identificar os verdadeiros pais. Ainda assim, mais de uma dezena de garotos não foram identificados como filhos de nenhum dos casais.

Divisão do bolo – O roubo de meninos está longe de ser a única conseqüência escabrosa visível da política de controle de natalidade adotada pelos chineses no início da década de 80. Há alguns anos, um relatório da ONG americana Human Rights Watch revelou, com base em dados estatísticos do próprio governo chinês, que muitas meninas abandonadas pelas famílias em orfanatos eram deixadas à míngua para morrer de inanição. Em todo o país, em média 50% das crianças morreram no primeiro ano de internação em orfanatos. A perversa preferência chinesa em relação aos nascidos nas últimas duas décadas pode ser observada na proporção entre crianças do sexo masculino e feminino. Antes da adoção da política de um filho por casal, essa correspondência seguia a verificada em outros países do mundo, de 106 garotos para cada 100 garotas. Os últimos dados mostram que o índice está hoje em 120 meninos para cada 100 meninas. Como conseqüência dessa desproporção, muitos jovens, principalmente nas grandes cidades, têm dificuldade de encontrar esposa. Com isso, são cada vez mais freqüentes os casos de estupro e de mulheres seqüestradas para casar à força.

A política chinesa de natalidade nasceu da visão malthusiana simplista de que controlando o número de bocas a riqueza seria mais bem distribuída entre aqueles que restassem. Talvez traumatizados pelo fracasso retumbante da política de crescimento acelerado preconizada por Mao Tsé-tung, os líderes chineses preferiram cortar do lado errado da equação. Mais uma vez estão descobrindo que escolheram o caminho equivocado, dando com a cara na parede. Nunca a China cresceu a passos tão largos, mas a divisão do bolo está cada vez mais desigual. Em vez de facilitar a distribuição da riqueza, o controle do crescimento populacional só fez acrescentar mais sofrimento humano às mazelas da sociedade chinesa.

 

Saiba mais
Da internet
  www.odci.gov