China
Vendem-se filhos
Controle de natalidade faz proliferar o
seqüestro
e o comércio de meninos no país
A preferência por bebês do sexo masculino não
é exclusividade de nenhuma cultura ou país,
mas talvez em nenhum outro lugar ela tenha resultados tão
macabros como na China. A opção pelo herdeiro,
que chega à obsessão entre os chineses, traduz-se,
num país que pune o casal que tenha mais de um filho,
em dois acontecimentos igualmente bárbaros: primeiro,
o infanticídio das meninas, sobretudo nas áreas
rurais mais carentes e atrasadas; segundo, o tráfico
de meninos, que são roubados, em geral, de famílias
de migrantes pobres originárias do interior, onde
a aplicação da política de controle
de natalidade é menos restritiva. Cada criança
seqüestrada é vendida a famílias abonadas
pelo equivalente a alguns milhares de dólares, uma
fortuna imensurável para os padrões dos chineses
comuns. Na grande maioria das vezes, os receptores das crianças
seqüestradas são casais que já tiveram
outros filhos, sempre do sexo feminino, e preferem comprar
um garoto a correr o risco de uma nova gravidez que possa
originar outra menina.
A crescente desigualdade social resultante da abertura
econômica na China tem feito prosperar o tráfico
de meninos. Em algumas regiões, esse tipo de crime
já deu origem a uma legião de pais desesperados
atrás dos filhos desaparecidos. "Nunca vou desistir
de procurar, porque perdi meu único filho", disse
à revista americana US News &World Report
Wang Wanjun, um feirante de 47 anos que teve o filho
seqüestrado na cidade sulista de Guiyang há
quase dois anos. O garoto, então com 5 anos, sumiu
sem deixar vestígio no trajeto entre o local de trabalho
do pai e a casa da família. Desde então, Wanjun
divide-se entre o trabalho e a procura infrutífera.
Todos os dias ele sai pela cidade carregando um saco plástico
recheado de fotos do filho atrás de alguma pista.
Em um único mês, mais de quarenta crianças
foram roubadas nos arredores de Guiyang, onde há
uma grande concentração de comunidades de
migrantes rurais. O governo tenta abafar o sentimento geral
de que o problema está saindo de seu controle, anunciando
o combate ao seqüestro de crianças como uma
de suas prioridades máximas. Há um mês,
a polícia anunciou o desmantelamento de uma grande
quadrilha de tráfico de garotos em Guiyang. Foram
presas 28 pessoas e confiscados seus bens, incluindo uma
chácara luxuosa que pertencia ao líder do
bando. A imagem dos 42 meninos resgatados na operação
foi exposta à exaustão pela mídia oficial,
gerando uma desenfreada corrida de famílias pela
recuperação dos garotos. Mais de 1.000
casais apareceram na delegacia à procura de seus
garotos perdidos. Foram tantos os falsos reconhecimentos
de cada criança por vários casais diferentes
que a polícia foi obrigada a fazer testes de DNA
para identificar os verdadeiros pais. Ainda assim, mais
de uma dezena de garotos não foram identificados
como filhos de nenhum dos casais.
Divisão do bolo O roubo de meninos
está longe de ser a única conseqüência
escabrosa visível da política de controle
de natalidade adotada pelos chineses no início da
década de 80. Há alguns anos, um relatório
da ONG americana Human Rights Watch revelou, com base em
dados estatísticos do próprio governo chinês,
que muitas meninas abandonadas pelas famílias em
orfanatos eram deixadas à míngua para morrer
de inanição. Em todo o país, em média
50% das crianças morreram no primeiro ano de internação
em orfanatos. A perversa preferência chinesa em relação
aos nascidos nas últimas duas décadas pode
ser observada na proporção entre crianças
do sexo masculino e feminino. Antes da adoção
da política de um filho por casal, essa correspondência
seguia a verificada em outros países do mundo, de
106 garotos para cada 100 garotas. Os últimos dados
mostram que o índice está hoje em 120 meninos
para cada 100 meninas. Como conseqüência dessa
desproporção, muitos jovens, principalmente
nas grandes cidades, têm dificuldade de encontrar
esposa. Com isso, são cada vez mais freqüentes
os casos de estupro e de mulheres seqüestradas para
casar à força.
A política chinesa de natalidade nasceu da visão
malthusiana simplista de que controlando o número
de bocas a riqueza seria mais bem distribuída entre
aqueles que restassem. Talvez traumatizados pelo fracasso
retumbante da política de crescimento acelerado preconizada
por Mao Tsé-tung, os líderes chineses preferiram
cortar do lado errado da equação. Mais uma
vez estão descobrindo que escolheram o caminho equivocado,
dando com a cara na parede. Nunca a China cresceu a passos
tão largos, mas a divisão do bolo está
cada vez mais desigual. Em vez de facilitar a distribuição
da riqueza, o controle do crescimento populacional só
fez acrescentar mais sofrimento humano às mazelas
da sociedade chinesa.
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