Drogas
Bandido pop star
É só no Brasil: traficante
vip dá entrevista
e vira personalidade
Marcelo Camacho
O homem é um show. Chama-se Luiz Fernando da Costa, mais
conhecido como Fernandinho Beira-Mar. Não é nenhum Thiago
Lacerda, o bonitão de Terra Nostra, da Globo, mas
é quase tão conhecido como o ator. Fernandinho Beira-Mar
é o bandido número 1 na lista de procurados da polícia carioca,
acusado como traficante de drogas e assassino. Está foragido
desde 1997 e suspeita-se que se tenha escondido no Paraguai.
Mesmo assim, lá de longe, usando um telefone, o personagem
não só comanda seus "negócios" como dá entrevistas
a rádios e jornais, liga para policiais e até para parlamentares.
No ano passado, conduziu uma sessão de tortura pelo telefone.
Diz a gravação em poder da polícia: "Já tiraram os
dois pés? E os dedinhos?" Num telefonema recente, chegou
a insinuar uma ameaça à deputada federal Laura Carneiro,
sub-relatora da CPI do Narcotráfico. Mostrando-se preocupado
com a segurança da própria família, que ele alega não estar
envolvida em seus crimes, disparou numa ligação para o Congresso:
"Vocês imaginem a deputada Laura, ela também tem família..."
Por telefone, Fernandinho Beira-Mar defende-se e acusa
policiais de terem praticado extorsão contra ele. Em ligações
gravadas pela polícia sem seu conhecimento, já afirmou que
um policial do Rio teria ficado com um apartamento seu na
Barra da Tijuca e acusou outro de tê-lo aliviado de 300.000
dólares. Com suas declarações, o traficante vem se projetando
na mídia como personalidade de alcance nacional. Todo mundo
quer saber qual será o próximo depoimento de Fernandinho
Beira-Mar. Quem será agora incriminado por ele?
Beira-Mar é o segundo traficante que, em menos de um mês,
se torna celebridade a partir do Rio de Janeiro. A celebridade
anterior chamava-se Marcinho VP, traficante da favela Dona
Marta, que inspirou um documentário do cineasta João Moreira
Salles, herdeiro do Unibanco, que depois lhe deu uma mesada
para escrever sua autobiografia. A última aparição de Marcinho
VP data de 1996, quando autorizou o cantor americano Michael
Jackson a gravar um clipe na favela que dominava.
O cruzamento da criminalidade com a vida do cidadão honesto
não é tão incomum nem tão novo como se poderia imaginar
na rotina do Rio de Janeiro. Na década de 80, banqueiros
do jogo do bicho apareciam regularmente na TV, na época
do Carnaval, e em colunas sociais o ano inteiro. Nas festas
de bicheiros, era aceitável a presença de políticos e artistas.
"No Rio, bicheiro era chamado de doutor e freqüentava
as altas-rodas", lembra o novelista Aguinaldo Silva.
O deputado estadual Hélio Luz, ex-chefe da Polícia Civil
daquele Estado, hoje abrigado no PT, tem uma explicação
para a naturalidade com que nomes de criminosos trafegam
pelos canais de informação da elite carioca e daí se espalham
pelo resto do Brasil. "Só no Rio existem bairros como
São Conrado, onde mora a nata da sociedade e onde também
fica a Rocinha, a maior favela da cidade", diz o petista.
"É tudo muito próximo."
Pois foi justamente na Rocinha que outro traficante, Ednaldo
de Souza, o "Naldo", ganhou fama em 1988, ao desafiar
a polícia e desfilar para as lentes dos fotógrafos ostentando
sua metralhadora Uzi. Usando um casaco com capuz sobre a
cabeça, deu até entrevista coletiva a jornalistas. A notoriedade
de Naldo inspirou, na época, uma reportagem no Jornal
do Brasil, que lançou a "moda bandido". Consistia
em sugerir o uso de roupas com capuzes no inverno, mais
ou menos com aquele visual favelado de Naldo. Pode ter parecido
apenas uma provocação de jornalistas irônicos. Mal sabiam
eles quanto eram proféticos, num sentido muito além do municipal.
Nos anos 90, como se os ecos das bravatas de Naldo tivessem
viajado até lá, Seattle, cidade americana que foi berço
de competentes grupos de rock, inventou a moda grunge, com
aquele jeitão "esbagaçado" que os estilistas do
Jornal do Brasil propunham candidamente em 1988.
Basta olhar para um adolescente brasileiro deste início
de milênio, com aquelas bermudas no meio das canelas e a
camiseta cinco números acima, para constatar a influência
duradoura da estética popular na indumentária da juventude
de shopping center.
"Em São Paulo, o bandido ganha menos notoriedade porque
fica mais escondido. Não tem favela nos Jardins", compara
o médico Dráuzio Varella, que penetrou no mundo do crime
paulista para escrever o livro Estação Carandiru.
Junte-se a ineficiência da polícia carioca a essa conformação
geográfica do Rio, favorável à aproximação, e pronto: brotam
as celebridades do crime nas favelas da cidade, com a ajuda
da mídia e a complacência da elite. Na década de 80, ganhou
destaque o bandido José Carlos dos Reis Encina, o "Escadinha".
Traficante procurado, carimbou seu passaporte para o estrelato
pleno ao empreender uma fuga cinematográfica em 1985. Um
helicóptero pousou no pátio do presídio onde estava e o
levou embora. Nos anos 60, Manoel Moreira, o "Cara
de Cavalo", tornou-se famoso por seus assaltos. Era
um bandido como outro qualquer, até que foi descoberto pelo
artista plástico carioca Hélio Oiticica, que chegou a esculpir
uma obra em sua homenagem.
Nos anos 70, Mariel Maryscotte, o policial que foi casado
com a atriz Darlene Glória, freqüentava as colunas sociais
e tudo. Passou para o lado da bandidagem, assaltou, matou
quanto pôde e marcou para sempre seu nome na crônica policial.
O mesmo fez Lúcio FlávioVillar Lírio. Ladrão de carros,
bancos e casas lotéricas, ele tornou-se notório por suas
fugas. Foram dezoito. E teve sua saga criminosa filmada
pelas lentes de Hector Babenco. Convidado por Mariel Maryscotte
para "trabalhar" a seu lado no roubo de automóveis,
o bandido Lúcio Flávio recusou com uma frase que ficou célebre:
"Bandido é bandido. Polícia é polícia". Não era
bem assim, já que o próprio Lúcio Flávio afirmava dar dinheiro
a policiais em troca de sua liberdade. É um assunto que
Fernandinho Beira-Mar conhece bem.
Com reportagem de Silvia
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