Edição 1 643 -5/4/2000

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Drogas

Bandido pop star

É só no Brasil: traficante vip dá entrevista
e vira personalidade

Marcelo Camacho

O homem é um show. Chama-se Luiz Fernando da Costa, mais conhecido como Fernandinho Beira-Mar. Não é nenhum Thiago Lacerda, o bonitão de Terra Nostra, da Globo, mas é quase tão conhecido como o ator. Fernandinho Beira-Mar é o bandido número 1 na lista de procurados da polícia carioca, acusado como traficante de drogas e assassino. Está foragido desde 1997 e suspeita-se que se tenha escondido no Paraguai. Mesmo assim, lá de longe, usando um telefone, o personagem não só comanda seus "negócios" como dá entrevistas a rádios e jornais, liga para policiais e até para parlamentares. No ano passado, conduziu uma sessão de tortura pelo telefone. Diz a gravação em poder da polícia: "Já tiraram os dois pés? E os dedinhos?" Num telefonema recente, chegou a insinuar uma ameaça à deputada federal Laura Carneiro, sub-relatora da CPI do Narcotráfico. Mostrando-se preocupado com a segurança da própria família, que ele alega não estar envolvida em seus crimes, disparou numa ligação para o Congresso: "Vocês imaginem a deputada Laura, ela também tem família..."

Por telefone, Fernandinho Beira-Mar defende-se e acusa policiais de terem praticado extorsão contra ele. Em ligações gravadas pela polícia sem seu conhecimento, já afirmou que um policial do Rio teria ficado com um apartamento seu na Barra da Tijuca e acusou outro de tê-lo aliviado de 300.000 dólares. Com suas declarações, o traficante vem se projetando na mídia como personalidade de alcance nacional. Todo mundo quer saber qual será o próximo depoimento de Fernandinho Beira-Mar. Quem será agora incriminado por ele?

Beira-Mar é o segundo traficante que, em menos de um mês, se torna celebridade a partir do Rio de Janeiro. A celebridade anterior chamava-se Marcinho VP, traficante da favela Dona Marta, que inspirou um documentário do cineasta João Moreira Salles, herdeiro do Unibanco, que depois lhe deu uma mesada para escrever sua autobiografia. A última aparição de Marcinho VP data de 1996, quando autorizou o cantor americano Michael Jackson a gravar um clipe na favela que dominava.

O cruzamento da criminalidade com a vida do cidadão honesto não é tão incomum nem tão novo como se poderia imaginar na rotina do Rio de Janeiro. Na década de 80, banqueiros do jogo do bicho apareciam regularmente na TV, na época do Carnaval, e em colunas sociais o ano inteiro. Nas festas de bicheiros, era aceitável a presença de políticos e artistas. "No Rio, bicheiro era chamado de doutor e freqüentava as altas-rodas", lembra o novelista Aguinaldo Silva. O deputado estadual Hélio Luz, ex-chefe da Polícia Civil daquele Estado, hoje abrigado no PT, tem uma explicação para a naturalidade com que nomes de criminosos trafegam pelos canais de informação da elite carioca e daí se espalham pelo resto do Brasil. "Só no Rio existem bairros como São Conrado, onde mora a nata da sociedade e onde também fica a Rocinha, a maior favela da cidade", diz o petista. "É tudo muito próximo."

Pois foi justamente na Rocinha que outro traficante, Ednaldo de Souza, o "Naldo", ganhou fama em 1988, ao desafiar a polícia e desfilar para as lentes dos fotógrafos ostentando sua metralhadora Uzi. Usando um casaco com capuz sobre a cabeça, deu até entrevista coletiva a jornalistas. A notoriedade de Naldo inspirou, na época, uma reportagem no Jornal do Brasil, que lançou a "moda bandido". Consistia em sugerir o uso de roupas com capuzes no inverno, mais ou menos com aquele visual favelado de Naldo. Pode ter parecido apenas uma provocação de jornalistas irônicos. Mal sabiam eles quanto eram proféticos, num sentido muito além do municipal. Nos anos 90, como se os ecos das bravatas de Naldo tivessem viajado até lá, Seattle, cidade americana que foi berço de competentes grupos de rock, inventou a moda grunge, com aquele jeitão "esbagaçado" que os estilistas do Jornal do Brasil propunham candidamente em 1988. Basta olhar para um adolescente brasileiro deste início de milênio, com aquelas bermudas no meio das canelas e a camiseta cinco números acima, para constatar a influência duradoura da estética popular na indumentária da juventude de shopping center.

"Em São Paulo, o bandido ganha menos notoriedade porque fica mais escondido. Não tem favela nos Jardins", compara o médico Dráuzio Varella, que penetrou no mundo do crime paulista para escrever o livro Estação Carandiru. Junte-se a ineficiência da polícia carioca a essa conformação geográfica do Rio, favorável à aproximação, e pronto: brotam as celebridades do crime nas favelas da cidade, com a ajuda da mídia e a complacência da elite. Na década de 80, ganhou destaque o bandido José Carlos dos Reis Encina, o "Escadinha". Traficante procurado, carimbou seu passaporte para o estrelato pleno ao empreender uma fuga cinematográfica em 1985. Um helicóptero pousou no pátio do presídio onde estava e o levou embora. Nos anos 60, Manoel Moreira, o "Cara de Cavalo", tornou-se famoso por seus assaltos. Era um bandido como outro qualquer, até que foi descoberto pelo artista plástico carioca Hélio Oiticica, que chegou a esculpir uma obra em sua homenagem.

Nos anos 70, Mariel Maryscotte, o policial que foi casado com a atriz Darlene Glória, freqüentava as colunas sociais e tudo. Passou para o lado da bandidagem, assaltou, matou quanto pôde e marcou para sempre seu nome na crônica policial. O mesmo fez Lúcio FlávioVillar Lírio. Ladrão de carros, bancos e casas lotéricas, ele tornou-se notório por suas fugas. Foram dezoito. E teve sua saga criminosa filmada pelas lentes de Hector Babenco. Convidado por Mariel Maryscotte para "trabalhar" a seu lado no roubo de automóveis, o bandido Lúcio Flávio recusou com uma frase que ficou célebre: "Bandido é bandido. Polícia é polícia". Não era bem assim, já que o próprio Lúcio Flávio afirmava dar dinheiro a policiais em troca de sua liberdade. É um assunto que Fernandinho Beira-Mar conhece bem.

Com reportagem de Silvia Rogar

 
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