A Turma do Chuvisco
Conflitos de interesses e negócios
obscuros
põem sob suspeita alguns dos mais próximos
colaboradores do governador do Rio
Consuelo Dieguez
Ricardo Fasanello/Strana
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Garotinho: equipe
dividida e chuva de
denúncias após um ano em alta no
panorama da política nacional
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Em seu primeiro ano de governo, Anthony Garotinho parecia
ser um sopro de renovação no quadro político nacional. Aos
38 anos, foi eleito governador do Rio de Janeiro, a segunda
maior economia do país. Apoiado inicialmente pelo interior
do Estado e pela periferia da capital, conquistou bons índices
de aprovação até na elite da Zona Sul carioca. Chegou a
ser, segundo pesquisas, o governador mais popular do país.
Nas últimas semanas, sua estrela foi ofuscada por uma torrente
de denúncias de corrupção e favorecimento todas elas
feitas por integrantes do próprio governo estadual. Primeiro,
o sociólogo Luiz Eduardo Soares, seu principal colaborador
na área de segurança pública, acusou-o de aliar-se à "banda
podre" da polícia. Depois, o subsecretário estadual
de Planejamento, Élvio Gaspar, denunciou esquemas de favorecimento
de empreiteiras por parte de integrantes do governo. Na
semana passada, foi a vez do economista Sérgio Rosa, presidente
do Proderj, a companhia de processamento de dados do Estado.
Rosa alertou para um forte lobby que teria origem no "gabinete
do governador" em favor de duas empresas de informática.
Soares e Rosa foram demitidos com estardalhaço e Gaspar
só continua no cargo porque recuou. Sabe-se agora que não
era só isso.
Paradoxalmente, o governador que tanto barulho faz na mídia
tem como seus colaboradores mais próximos pessoas avessas
à exposição. Talvez seja apenas por estilo. Mas quando se
conhece melhor o passado ou o presente desses auxiliares
podem-se entender um pouco mais as razões para tanta aversão
aos holofotes. Há evidências de conflito de interesses,
relações suspeitas e negócios pouco transparentes promovidos
justamente pelos amigões do peito de Garotinho. O grave
é que as denúncias atingem pessoas trazidas ao poder pelo
próprio governador. São escolhas pessoais, e não problemas
herdados de governos passados, como a corrupção na polícia.
A situação é ainda pior porque a rede de relações que unem
esses colaboradores entre si e ao governador torna difícil
desvincular totalmente suas ações do próprio comandante.
Esse grupo sempre agiu à sua sombra e é conhecido como a
"Turma do Chuvisco", numa referência a um doce
de ovo típico de Campos, a cidade onde o governador começou
a carreira. São homens de sua confiança, que apostaram suas
fichas num obscuro prefeito do interior.
Alguns desses auxiliares já desembarcaram no governo estadual
com uma pesada bagagem de improbidades administrativas.
É o caso de Ranulfo Vidigal, presidente da Agência Reguladora
de Serviços Públicos Concedidos (Asep), que tem entre suas
funções fiscalizar e controlar os serviços privatizados
no Estado. O responsável por uma das áreas mais sensíveis
do governo teve seu mandato cassado por corrupção em 1996,
quando era prefeito de São João da Barra, município vizinho
a Campos. Junto com ele, foi processado o atual subsecretário
estadual de Comunicação, Mauro José Silva, que era procurador-geral
da prefeitura e hoje cuida das verbas de publicidade do
governo. As irregularidades de Ranulfo Vidigal eram tantas
que ele acabou condenado pelo Tribunal de Contas do Estado
(TCE) em três processos. "A cassação de Ranulfo foi
um processo político", afirma Garotinho.
À frente da Asep, Ranulfo Vidigal está sendo acusado por
vários concessionários de serviços públicos de acobertar
um esquema de achaques. VEJA ouviu na semana passada um
diretor de uma dessas empresas. Segundo esse depoente, que
prefere ficar no anonimato, as concessionárias estão tendo
de pagar por um suposto serviço de consultoria para acompanhar
o andamento dos processos, como aumento de tarifas, por
exemplo. Quem oferece esse serviço é Pedro Luís da Silva,
um sujeito de barba grisalha, expansivo, que foi apresentado
aos diretores das empresas pelo próprio Ranulfo Vidigal
como seu assessor. O serviço de consultoria consiste, na
verdade, na cobrança de taxas para facilitação do andamento
de qualquer processo referente à prestação de serviço das
firmas concessionárias, inclusive reajuste de tarifas. O
valor das propinas, pago a alguns conselheiros, estaria
fixado em 30.000 a 50.000 reais por processo. Procurado por VEJA, Vidigal inicialmente
negou conhecer Pedro Luís, mas em seguida admitiu que foram
colegas num curso de pós-graduação. E afirmou que ele não
tem autorização para falar em seu nome.
Vidigal é tão ligado à Turma do Chuvisco que qualquer denúncia
que recaia sobre ele acaba respingando sobre boa parte do
grupo. Seus advogados na época de sua cassação da prefeitura
de São João da Barra foram Jonas Lopes de Carvalho e Antônio
Oliboni, que hoje ocupam cargos de destaque no governo estadual.
Lopes é chefe do Gabinete Civil e Oliboni, secretário de
Justiça. Na rede de suas relações, chama a atenção o fato
de Oliboni, apesar de ser responsável pela Secretaria de
Justiça, manter na ativa seu escritório de advocacia, o
Oliboni e Leal Advogados. Leal é o sobrenome de Hugo Leal,
secretário de Administração de Garotinho. É verdade que
os dois dizem ter-se afastado da banca, mas foram substituídos
por um grupo bem familiar. Mais exatamente pelo cunhado
e pela irmã de Jonas Lopes, os advogados Francisco Pessanha
e Rosely Pessanha. Também trabalha no escritório Marcella
Pessanha, filha do casal, que, para fechar o círculo, é
casada com Oliboni. O secretário, aliás, costuma ser visto
com freqüência no escritório.
O constrangimento não seria tão grande caso o escritório,
que funciona no centro do Rio, não estivesse, nos últimos
tempos, dedicado a resolver problemas de empresas com dívidas
com o governo do Estado. Ou seja, o escritório de advocacia
de dois dos principais integrantes do governo, comandado
pelos parentes do chefe do Gabinete Civil, defende os clientes
que entraram na Justiça contra o Estado para não pagar dívidas
com, adivinhem só, o próprio Estado. Uma repórter de VEJA
ligou na quarta-feira passada para o escritório perguntando
se atenderiam clientes com dívida desse tipo. "Sim",
respondeu amavelmente o advogado Francisco Pessanha. É espantoso
e, mais do que isso, ilegal o fato de o escritório atuar
como adversário do próprio Estado. Oliboni diz que não tem
conhecimento de que o escritório preste esse tipo de serviço.
Garotinho afirma que desconhece o assunto: "Se isso
for verdade, eu não vou permitir. É muito grave, pareceria
tráfico de influência", diz.
Oliboni sempre transitou sem maiores constrangimentos entre
o mundo público e o privado. Como secretário de Justiça,
cuida dos contratos de fornecimento de refeições para o
sistema penitenciário. Esse serviço é prestado pela Brasal,
do empresário Jair Coelho, conhecido como o "rei das
quentinhas". A Brasal já esteve envolvida em irregularidades
em 1992 e 1995 e chegou a ser proibida de participar de
licitações. Mas acabou conseguindo voltar ao rol de fornecedores.
O homem das quentinhas, Jair Coelho, já possuía boas ligações
nos governos anteriores. Mas no de Garotinho ele tem pelo
menos um aliado importante. Quem sempre cuidou de seus interesses
é o escritório de seu velho amigo Antônio Oliboni. Sim,
ele mesmo, o próprio secretário de Justiça. Os caminhos
dos dois se cruzaram também em Campos, onde Oliboni foi
subsecretário de Governo quando Garotinho era prefeito.
Oito dias depois da posse de Oliboni, todas as licitações
foram transferidas para sua alçada, e uma das primeiras
concorrências realizadas foi para a terceirização do serviço
de limpeza urbana. A empresa vencedora chama-se Eco-Lurb
e, coincidentemente, está registrada em nome de Ariadne
Cunha Lima, nome de solteira da mulher de Jair Coelho, também
conhecida como "rainha das quentinhas".
Nessa rede de amizades antigas outro personagem importante
é Carlos Augusto Siqueira, que foi secretário de Obras de
Garotinho na prefeitura de Campos. No governo atual, foi
presenteado com o cargo de presidente da Empresa de Obras
Públicas (Emop), que controla todas as obras do Estado.
A Emop substituiu a Secretaria de Obras, extinta pelo governador,
e tem um caixa milionário. Só a obra do Maracanã, que está
sob seu controle, movimenta 60 milhões de reais. Há uma
pequena história com ele também, pinçada dos bons tempos
de Campos. Um empresário, que alega ter sofrido pressões
da administração Garotinho, entregou recentemente à juíza
Érica Schmitz, da Primeira Vara Federal de Campos, uma série
de fitas com conversas entre vários integrantes da Turma
do Chuvisco. Numa delas, está registrado um diálogo entre
dois personagens. Segundo o empresário, um deles é Siqueira,
que na época seria secretário de Garotinho em Campos. O
outro era um colaborador. Na fita, os dois combinam como
vão superfaturar os custos de um show em comemoração ao
aniversário da cidade. Em um dos trechos, um dos participantes
deixa claro que o evento, contratado por 900.000
reais, será faturado pelo dobro do valor. "O número
tem de ser esse", reafirma o outro. Siqueira ouviu
a fita na sexta-feira passada, confirmou que a voz é mesmo
a sua, mas disse que, na época, vivia problemas econômicos
e ainda não trabalhava na prefeitura. O governador Garotinho
também ouviu a gravação na noite de sexta-feira. "É
uma coisa terrível", reagiu. "Vou tirar isso a
limpo."
Correndo por fora da confraria de Campos, está um novo
integrante que se adaptou perfeitamente ao grupo. É o presidente
da Companhia Estadual de Habitação (Cehab), Eduardo Cunha.
A Cehab é um dos órgãos mais importantes da administração
por controlar as verbas da construção de casas populares,
com um programa de gastos de 1,3 bilhão de reais até 2002.
Cunha é filiado ao PPB de Paulo Maluf e, no governo Collor,
foi presidente da Telerj por indicação de ninguém menos
que PC Farias. Em 1993, acabou envolvido com outros integrantes
do governo Collor num processo que corre na Justiça do Rio
para apurar lavagem de dinheiro de diversas pessoas, entre
elas o próprio Eduardo Cunha, através de conta de um doleiro
chamado Jorge Luís da Conceição, que atuava no esquema de
PC Farias.
Cunha assumiu a Cehab em outubro. Desde então, realizou
quatro licitações para a contratação das obras de construção
de casas populares, saneamento básico e infra-estrutura,
a maior parte delas na Zona Oeste do Rio. A vencedora de
todas as concorrências foi uma desconhecida construtora
do Paraná, a Grande Piso. Coincidentemente a empresa pertence
ao empresário Roberto Sass, que, como Eduardo Cunha, também
foi do PRN de Collor e se bandeou para o PPB. O TCE detectou
várias irregularidades na contratação da construtora. Um
exemplo: ela está registrada como microempresa na Fazenda
Federal, apesar de ter ganho contratações no montante de
35 milhões de reais. Eduardo Cunha chegou à Cehab por intermédio
de um importante colaborador de Garotinho, o deputado federal
e pastor evangélico Francisco Silva. Nas rádios de Silva,
vai ao ar o programa semanal Conversa com o Governador.
"No meu governo, se alguém agir errado eu apuro e puno.
Porém, ninguém será punido sem apuração", afirmou Garotinho
a VEJA. "Está havendo uma onda de denuncismo contra
meu governo porque é um ano eleitoral."
Garotinho não esconde de ninguém que sua meta é chegar
ao Palácio do Planalto. No ano passado, em cerimônia na
Assembléia Legislativa do Rio, foi chamado de presidente
por um deputado. "Ainda não, deputado. Mas agradeço
pela profecia", respondeu. Para que ela se cumpra está
mais que na hora de Garotinho limpar seu governo. Se não
agir rápido, o chuvisco trazido de Campos como parte do
projeto de uma doce caminhada rumo ao Planalto pode acabar
virando tempestade.
Com reportagem de Marcelo
Carneiro e Ronaldo França
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