Edição 1 643 -5/4/2000

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Quem concentra a renda?

"Toda política governamental que beneficia
não-pobres, podendo ter beneficiado

os pobres, concentra a renda"

Ilustração Alê Setti
A maioria dos leitores já deve ter ouvido que o Brasil tem a pior distribuição de renda do mundo, e grande parte deve ter acreditado. São duas as principais razões que distorcem as comparações internacionais sobre desigualdade de renda entre o Brasil e outros países. A primeira é que o Brasil tem um elemento não desprezível de renda não declarada. A segunda é que não excluímos de nossas estatísticas categorias inteiras de baixa renda. Outros países têm estatísticas melhores da renda disponível, mas excluem delas indígenas, grupos religiosos e outras categorias estatísticas nacionais, fazendo-as parecer melhores do que realmente são. É evidente que existem países árabes, africanos, centro-americanos e sul-americanos com distribuição de renda pior que a nossa.

Fora isso, temos uma péssima distribuição de renda, não raro atribuída à formação dos salários na economia brasileira e à política para o salário mínimo. Nossa hierarquia salarial é estupidamente iníqua. A diferença entre o maior e o menor salário é gigantesca. Mas não explica toda a concentração da renda. Nem é uma causa primária. A hierarquia é desigual porque a sociedade é desigual. O componente mais durável dessa desigualdade se explica pela discriminação dos negros e das mulheres. O salário mínimo, a rigor, contribuiria para diminuí-la, ao fixar um piso salarial. Não o faz porque há o mercado informal de baixa renda, abaixo do piso. Além disso, seu valor está aquém do que a economia privada pode pagar na maior parte do país. Como o INSS vive situação calamitosa, resultante dos erros acumulados de várias gerações, da fraude e do desmazelo, abriga grande número de pensionistas que recebem o mínimo. Concentra, portanto, uma considerável parcela dos brasileiros pobres e impede que o piso nacional compulsório seja elevado.

Mas cada vez menos setores da economia pública e privada pagam o salário mínimo. Por isso mesmo — e esta é uma razão trágica — o mínimo contribui mais para regular o volume de pobreza do que para alterar a distribuição de renda, para melhor ou para pior.

Além de seus componentes mais estruturais, a concentração de renda se constrói a partir de um grande número de decisões governamentais que transferem renda e recursos escassos do Tesouro de setores desfavorecidos para setores afluentes. Políticas públicas podem ser neutras — não transferindo renda — e podem ser redistributivas, transferindo renda de um setor para outro da sociedade. As redistributivas são aquelas que mais impacto têm sobre a distribuição de renda, concentrando-a ou melhorando-a, dependendo da direção em que transferem recursos, se a favor ou contra os mais pobres. Claro, elas sempre são justificadas em nome do emprego, da empresa nacional ou da ecologia.

Dou três exemplos: o Estado destinou, via BNDES, navios de dinheiro para a construção naval, em nome do emprego. As empresas sempre viveram de dinheiro público, nunca se tornaram competitivas e todas acabaram quebrando, deixando micos nada desprezíveis para os cofres do Estado. Em nome de um volume de emprego muito menor do que o gerado por outros setores da economia, que jamais receberam um tostão do Tesouro.

Dou outro exemplo: o programa do álcool. Um programa que coloca dinheiro público nas mãos de pouquíssimos grandes proprietários, reduz a área plantada com alimentos, subsidiando uma produção ineficiente e de baixa produtividade. Claro, aparece como fonte de energia nacional, renovável, limpa e autônoma.

Outro: o programa de renovação da frota. Subsídio governamental para empresas automobilísticas — que não estão entre os necessitados do país — para os operários mais bem pagos do Brasil e proprietários de carros velhos. Para os despossuídos, menos recursos no Tesouro. Para os trabalhadores de menor renda fora do setor metalúrgico, menos dinheiro no Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT). É simples, toda política governamental que beneficia não-pobres, podendo ter beneficiado os pobres, concentra a renda. Algumas vezes é necessário fazer isso. Outras, não é. Mas os governos no Brasil jamais se dão ao trabalho de fazer esse simples teste do efeito distributivo das políticas que inventam.


Sérgio Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)