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5 de março de 2008
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Esse feudo é nosso

Como o humorista Carlos Alberto de Nóbrega fez de
seu programa no SBT um lucrativo negócio em família


Marcelo Marthe

Fotos Ribeiro Setton e Paulo Salomão
Nóbrega com a mulher e o filho em A Praça É Nossa (à esq.), e seu pai com Silvio Santos nos anos 60: gratidão de 400 000 reais por mês

Semanas atrás, houve um acidente no estacionamento do SBT, em São Paulo. A Mercedes do humorista Carlos Alberto de Nóbrega foi atingida de raspão pelo Passat blindado que ocupa a vaga ao lado. O autor da barbeiragem foi Silvio Santos. "Eu não vi e o Silvio jura que não é verdade. Mas tudo bem: já houve arranhões piores entre nós", diz Nóbrega. A relação entre a família Nóbrega e o dono do SBT dura mais de cinco décadas.

O patriarca Manoel, pai de Carlos Alberto, foi chefe do apresentador em seus tempos no rádio, nos anos 50, e criador de sua galinha dos ovos de ouro, o Baú da Felicidade. Manoel foi ainda o inventor do mais antigo programa brasileiro em exibição na TV: o humorístico A Praça da Alegria, do qual foi âncora de 1957 a 1976. Como sua gratidão pelo clã é imensa, Silvio abriu espaço para que Carlos Alberto retomasse o personagem do pai numa atração com a mesmíssima fórmula, A Praça É Nossa, que vai ao ar pelo SBT há 21 anos – e no próximo dia 13 chega à sua milésima edição. Permitiu também que Nóbrega fizesse do programa uma espécie de capitania hereditária dentro da emissora. Na folha de pagamento de A Praça É Nossa estão Carlos Alberto, sua mulher e dois dos seis filhos. O mais velho, Beto, cuida do merchandising. O segundo, Marcelo, atua no programa e o dirige. Andrea de Nóbrega, a patroa, faz uma das personagens. Todo mês, os Nóbrega embolsam mais de 400.000 reais. Um belo Bolsa Família.

O programa é a matriz daquele humor popularesco que dá mote também ao Zorra Total, da Globo. Nos tempos de Manoel de Nóbrega, consagrou figuras como Roni Rios, intérprete de personagens como a Velha Surda. Em sua roupagem atual, ainda se pode ver gente da velha-guarda. É o caso de Jorge Loredo – que, às portas dos 83 anos, continua a encarnar Zé Bonitinho. Esse pessoal da pré-história da TV divide espaço com anões e novatos como a mulher de Nóbrega. A personagem de Andrea, de 44 anos, é uma deslumbrada. "Como o Carlos Alberto é exigente, fui obrigada a fazer um curso de interpretação com o Wolf Maya", diz ela, que treina seus textos falando com as paredes. Assistir à gravação de A Praça é Nossa é como entrar num túnel do tempo. Há até uma claque à moda antiga, toda formada por senhoras. Em troca de rir, cantar e bater palmas, elas têm direito a cachê de 10 reais e a um lanche. Assim como ocorria com seu pai, Nóbrega tem a palavra final sobre os textos e faz as vezes de "escada" – sentado no banco da praça, é ele quem dá a deixa para as piadas alheias.


Fotos Roberto Setton
O octogenárioZé Bonitinho e a claque das senhoras em ação: viagem à pré-história da TV

Nóbrega e Silvio Santos se conheceram quando o dono do SBT era subalterno de seu pai na Rádio Nacional. O apresentador um dia foi incumbido de cuidar da empresa que seria o embrião do Baú da Felicidade. Equacionou suas dívidas e acabou ficando com o negócio. "Emprestei dinheiro para ele comprar as primeiras lambretas do Baú", diz Nóbrega. Pouco depois da morte de seu pai, em 1976, ele rompeu com Silvio Santos. O humorista não gosta de falar sobre o episódio. "Eu era um idiota", diz. Depois de lavarem a roupa suja, abriu-se caminho para a volta da Praça ao SBT. Na reestréia, em 1987, Silvio surgiu em cena fantasiado de camelô (como foi na vida real) e homenageou o velho Manoel. Desde então, A Praça É Nossa é um feudo em que quase não há ingerência de Silvio. O que não significa que não haja ruídos na relação. O humorista Nóbrega sempre teve fama de mal-humorado. "Eu sou um grosso", diz. E Silvio já sentiu isso na pele. Anos atrás, um esquentado Nóbrega bateu à porta do patrão tarde da noite ao saber que ele cogitava tirar seu programa do ar. Nóbrega só controlou o mau humor com a ajuda da análise: "O Silvio achava que eu ia piorar no divã. Mas não é que deu certo?".

No especial que marcará a edição número 1.000, os personagens da Praça vão interagir com pessoas nas ruas. Só a duras penas Marcelo de Nóbrega convenceu o pai a sair do auditório. "Ele é um conservador", diz. O curioso é que Carlos Alberto tem consciência de que a fórmula de seu programa envelheceu. Se um dia a atração já cravou médias de dois dígitos no Ibope, hoje patina em 8 pontos. "Do jeito que vai, a Praça não tem futuro", comenta. E reflete: "O SBT está numa fase difícil. E as pessoas não querem mais saber desse tipo de humor". O que é verdade: o programa depende da fidelidade dos espectadores mais velhos para se sustentar. Nóbrega afirma que, caso a situação fique preta, tem duas sitcoms na gaveta para apresentar ao SBT. Às vésperas de completar 72 anos, a idéia de aposentar-se ou de passar o bastão ao filho não o seduz. "Se o Silvio deixar, fico aqui para apagar a luz no dia em que todo mundo for embora", diz.

 



 

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